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O buraco negro da memória

Nesta reportagem publicada há dez anos na revista Vida Mundial, Daniel Oliveira recorda os acontecimentos da Primavera de Praga e a "Revolução de Veludo", que ocorreu em 1989.

Em Janeiro de 1968, Dubcek subiu ao poder na Checoslováquia. Os oito meses que durou a chamada Primavera de Praga foram uma das últimas esperanças de renovação do socialismo. Com a chegada dos tanques soviéticos, essas esperanças morreram e morreu também o mais comunista dos países do Leste europeu. Mas foi o próprio povo checo que aceitou pagar o preço do mais alto nível de vida para lá da cortina de ferro. Agora, Praga já nem olha para trás, porque a história não se lembra dos que perderam.

STEPAN recebeu uma chamada às 6.30 do tio a dizer-lhe que estavam a ser ocupados. «Ocupados por quem? Pela NATO? Pela Alemanha?», perguntou. O tio disse que era pelos soviéticos. O jovem Stepan duvidou. Stepan tinha 26 anos, acabara o curso havia pouco tempo e fizera depois a tropa. Era funcionário na estação central. Pouco tempo depois de Stepan entrar na estação chegou um comboio com vagões blindados, com os soldados russos. Mandaram fechar a estação. No seu gabinete, que ficava numa parte alta do edifício, o ferroviário viu soldados cercarem o edifício da Rádio Nacional. Ouviu tiros e afastou-se da janela. Poucos minutos depois, a rádio foi tomada. Ouviu-se pela última vez o locutor checo, «isto é o fim da Checoslováquia», seguindo-se o hino nacional.

Nas ruas, tinha começado a resistência passiva. Os jovens foram os mais combativos. Sobretudo através dos grafitti, que rapidamente encheram a cidade: «A União Soviética é o nosso modelo. Vamos invadir Moscovo»; «Até o Hitler veio de dia». «Qual é a nação mais neutral do mundo? A Checoslováquia, porque nem nos seus assuntos internos pode interferir». «Qual é o país mais seguro do mundo? Israel, porque está cercado de inimigos»; «Com irmãos como tu, vamos pedir à mãe Rússia para praticar contracepção»; «Ivan! Quantas vezes nos vais libertar?» «Acorda, Lenine! Brejnev enlouqueceu!».

Stepan voltou para casa. Quando chegou à Praça de São Venceslau, uma alameda inclinada, agora cercada de hotéis e lojas, encontrou uma grande confusão. Havia tanques a arder e tiros. Correu o mais que pôde até conseguir atravessar a praça. Meteu-se por várias ruas estreitas e por passajes - o centro de Praga é como um queijo suíço, onde cada porta mais insuspeita dá para um labirinto de ruas, túneis e galerias. O ideal para a fuga. Chegou perto do rio, e ali também havia vários tanques. Mas a situação era diferente: os soldados russos estavam perdidos, perguntavam o caminho às pessoas, e elas davam-lhes informações erradas. Tinham tapado os nomes das ruas e as setas estavam trocadas. Havia uma que dizia Smicov e estava virada para o lado oposto. A mulher de Stepan, Vanacova, lembra-se de ver uma tabuleta à entrada de uma aldeia que dizia: Pequim. Vancova até teve pena dos russos, rapazes muito novos. Dormiam debaixo das pontes ao frio, bebiam água nos capacetes que tiravam do rio Vltava, andavam perdidos pela cidade.

No outro extremo do país, Eduard Goldstuken recompunha-se do encontro que tivera com a população de uma pequena cidade eslovaca. O professor, judeu e presidente da União de Escritores, era a cara dos intelectuais comunistas que pressionavam o regime para acelerar o processo de democratização. Foi uma das primeiras nomeações de Dubcek, duas semanas depois de ser eleito, e a sua aparição na televisão foi sinal de mudança.

Eduard Golstuken tinha tirado umas semanas para descansar, mas, na região, foi solicitada a sua presença em várias reuniões. Voltou tarde e dormiu até ao fim da manhã. Só então ouviu a rádio. Soube que a sua cidade estava tomada pelos russos. Significava que a sua vida iria mudar para sempre. Pela terceira vez era procurado. Depois dos nazis e dos estalinistas de Guttwald, Goldstuken não precisou de pensar muito para saber que não seria bem-vindo em Praga. Amigos eslovacos do partido esconderam-no num pequeno quarto.

Goldstuken ficou ainda durante doze dias escondido e depois avisaram-no de que era procurado. Tinha uma entrevista marcada havia muito na televisão austríaca, por isso possuía o visto necessário para passar a fronteira. Foi o que fez. A mulher foi ter com ele e começaram o período de um longo exílio. Ainda voltou duas vezes a Praga para participar em sessões do Parlamento, no qual era deputado. Depois, o regime tirou-lhe o lugar. Foi para Inglaterra dar aulas de literatura comparada. Só trinta anos depois o autorizaram a regressar ao país.

Stepan voltou à sua vida, à estação. Em 72 teve a sua primeira e única filha, Stepanka. Ela cresceu sem se interessar pelo comunismo, fez o curso de Biologia tornou-se investigadora. Em Novembro de 1989 estreou-se na actividade politica.

A Revolução de Veludo

Está escuro na rua mal iluminada e cai chuva miudinha. Vamos ao laboratório de Stepanka. Passamos em Albertov, o mesmo lugar onde, em 17 de Novembro de 1989, se juntavam jovens de toda cidade para uma manifestação marcada por um grupo de estudantes críticos. Celebrava-se mais uma vez o assassínio vários estudantes pelo exército nazi, naquele que se tornou, em quase todos países de Leste, o Dia do Estudante. Mas todos sabiam que a manifestação tinha outro intuito.

A filha de Stepan tinha só 17 anos. «Eu era uma idiota, não sabia nada de política.» O pouco que tinha aprendido ensinara-lhe o seu namorado de então, estudante na faculdade e activista contra regime.

Juntaram-se ali, mas, um pouco à frente, um cordão policial impedia o acesso centro. Fugiram do percurso inicial e seguiram ao lado do rio Vltava. Quando passaram em frente à casa de Vaclav Havel, o namorado escolheu um bom lugar para ver a multidão de mais de 40 mil estudantes. Stepanka não pensava ainda fim do comunismo, apesar de o muro Berlim ter caído havia uma semana. «Nasci no comunismo, o meu pai era comunista, nem me passava pela cabeça que havia outras possibilidades.»

Na Narodni Trida (Avenida Nacional), no coração de Praga, a polícia cercou a manifestação e carregou contra estudantes como não havia memória. Um jovem ficou gravemente ferido, e espalhou-se o boato de que teria morrido Quando a notícia chegou à rádio foi a bomba que abalou definitivamente o regime. O governo passou vários dias a tentar desmentir a falsa informação, mas era tarde. Tudo leva a crer que o boato não foi inocente.

Depois da manifestação e da violência sobre os estudantes, Stepanka integrou, na escola, uma comissão de estudantes para fazer frente ao director, que ameaçou de expulsão todos os alunos que fossem manifestações.

Dirigentes começavam a organizar o movimento que nascera espontaneamente. Juntaram-se a eles intelectuais e oposicionistas da Carta 77, que formaram o Fórum Cívico. As primeiras exigências dos estudantes eram circunstanciais, mas com novos membros do movimento foram-se politizando. A greve nacional de uma hora marcada pelo Fórum Cívico foi o sinal que o movimento se generalizara.

O governo já estava demasiado debilitado para resistir e os órgãos de informação foram, pouco a pouco, dando cada vez mais notícias sobre o movimento. A manifestação do dia seguinte, no parque outrora dominado pela estátua de Estaline, teve um milhão de pessoas, numa cidade com milhão e meio de habitantes. A greve geral conseguiu uma adesão superior a 80 por cento.

O regime ainda tentou propor um novo governo, mas já era tarde. O ano de 1989, apesar das comparações da imprensa estrangeira, nada tinha que haver com o de 1968. Não se tratava de uma luta entre comunistas de diversos matizes. A queda foi negociada, sem ser preciso muito.

Mas só nas eleições, quando o Fórum Cívico conseguiu 55 por cento dos votos e os democratas cristãos 10 por cento, é que ficou claro o fim da via socialista para a Checoslováquia. Os comunistas não tiveram mais de 15 por cento. Dulce foi nomeado presidente do Parlamento. Porque era eslovaco e não havia muito mais possibilidades, porque era ainda um símbolo para os mais velhos, mas, sobretudo, porque era um símbolo internacional. No princípio de 1990 toda a política checa estava normalizada. A política foi entregue aos políticos. Sem grande alarido.

Os novos dias de Praga

Para Stepanka, as coisas foram um pouco mais duras. O pai era militante comunista e não mudou de ideias. Foi claro quando soube das acções subversivas da adolescente: «ou paras, ou deixas de ser minha filha». Stepanka não parou. Foi viver para casa da avó.

Depois, começaram as privatizações e fizeram-se saneamentos por todo o país. Foi criada uma «Comissão dos Crimes do Comunismo» que pouca gente conseguiu levar a tribunal, por erros processuais constantes, mas que não deixou de incluir, nas suas acusações, os reformadores de 1968. Dos heróis da resistência, os de 68 e os de 77, pouco sobrou. Havel foi um dos poucos símbolos preservados. Os novos homens do regime, como Klaus, eram técnicos, economistas, liberais formados pelo comunismo, sem história de oposição, decididos a pôr a República Checa na União Europeia e a iniciar o processo de reestruturação económica. O país tornou-se um exemplo de estabilidade. Em 93, partiu-se ao meio sem qualquer discussão, referendo ou manifestação, apesar de não ser ainda claro qual seria a posição da maioria dos checos e dos eslovacos.

Longe iam os tempos do debate ideológico marxista de 68. Os temas eram outros: a pornografia, a droga, a criminalidade, as regras do mercado e o processo de privatizações. Praga, a cidade que participou com entusiasmo na tentativa de construção de um «socialismo de rosto humano», tomou-se um símbolo da construção de uma economia de mercado. Por todo o lado nasceram novos bancos, multinacionais do fast food, bares nocturnos e sex shops. Ao fim de três anos, a cidade das mil torres ficou irreconhecível. Ao centro histórico juntaram-se novos ícones, anúncios da Coca-Cola. Muitos Skodas foram substituídos por carros alemães, formaram-se os primeiros engarrafamentos.

No laboratório, as notícias da rádio dão agora conta da demissão do primeiro ministro, liberal de direita, Vaclav Klaus. Só no final dos anos noventa é que os checos começaram a acordar para o reverso da medalha. Sem que lhes passe pela cabeça voltar para trás, são cada vez mais os que se sentem desconfortáveis nesta nova roupa. A queda do governo foi resultado de uma sequência de escândalos ligados ao processo de privatizações. Mas as razões são mais profundas, e resultam do descontentamento social crescente e da situação desastrosa da economia. Dizem as sondagens que mais de metade da população acha que se vivia melhor no tempo do comunismo. Mas para esse tempo ninguém quer voltar. Mais governo provisório, menos governo provisório, todos sabem o que vem depois: os sociais-democratas.

Os filhos da derrota

Desde que saiu de casa, é a primeira vez em que Stepanka está a ouvir o pai falar de política. Desde 1989 que as relações são frias. Não é só a política. Nunca é só a política. Muito menos em Praga, muito menos em 1997. Mas ela diz muito sobre os dois e sobre o que os separa. A história pode ser mais dramática do que outras, mas, no fundamental, é igual a muitas na República Checa. Os jovens orgulham-se dos seus avós, comunistas do tempo da Segunda Guerra, e desprezam os seus pais, os homens do pós-68, os que desistiram.

Stepan queixa-se da anunciada privatização dos caminhos-de-ferro e diz-se comunista: «de uma certa maneira, continuo a ter as mesmas ideias, a defender, teoricamente, o mesmo. Mas não o comunismo que aqui tivemos. Não. Isso acabou». Apesar disto, votou ODS (o partido de Vaclav Klaus) nas primeiras eleições: «acreditava em que era gente competente e inteligente, já os conhecia do tempo do comunismo, achava que iriam saber governar o nosso país. Afinal, eram inteligentes, sim, mas para se governarem a si mesmos». Stepan acha que Klaus caiu porque a liberalização se fez sem regras nenhumas. Nas ospodas (cervejarias populares) fala-se de política e quase toda a gente com quem Stepan conversa diz que desta vez vai votar social democrata: "vão ganhar porque já há pouco para roubar, só sobram as forças armadas e a saúde". Mas ele sabe que a vitória dos sociais democratas não vai travar as privatizações nem o processo de liberalização da economia. Acha que a única coisa vai mudar é que vai começar a cumprir-se a lei.

Tal como a maioria pessoas, Stepan pensa que vivia melhor no tempo de socialismo: «havia mais segurança». Mas, tal como a maioria das pessoas, ele não vai votar nos comunistas. Porque quer votar útil, dando a vitória aos sociais-democratas. Stepanka assiste a tudo calada. Até que o pai conta o que se passou a seguir a 68.

Um ano depois, quando os russo foram embora, as tropas checas invadiram a cidade e fizeram uma demonstração força, para mostrar a Moscovo que e capazes de dar conta do recado. Foi na mesma data da invasão, no primeiro aniversário. Nesse dia ficou claro para Stepan que já nada havia a fazer: «a partir daí começaram a aparecer os carreiristas, os inquéritos e as investigações para saber quem tinha estado em cada lado». Um dia o seu chefe disse a Stepan e a um colega que iam ser chamados a depor numa comissão de inquérito. Queriam sabe se tinham sido contra ou a favor da invasão. Os dois jovens disseram que não eram capazes de dizer que tinham sido a favor. Ele respondeu que falaria por eles, que se responsabilizaria por eles. Concordaram, tiveram medo. E, assim, ficou no relatório que tinham apoiado a invasão. Mais uma vez aceitaram: «infelizmente tive medo e calei-me».

Pensa que a sua capitulação foi como da maioria dos seus compatriotas: «os checos são um povo com medo, é uma característica nossa. Tiveram medo e aceiram o fim da Primavera de Praga. Da mesma maneira que depois de 89 aceitaram que fizessem tudo deste país e da sua economia. Não somos um povo muito corajoso».

Contrato de silêncio

Foi em 1968 que o comunismo checo teve a sua maior vaga de apoio, na esperança de uma regeneração. Mas foi também em 1968, depois da invasão, que todos esses sonhos morreram. Porque a invasão foi mais do que isso. Um colunista de direita escreveu num importante jornal checo: «Sejamos claros, não houve nenhuma ocupação, os checos aceitaram o que lhes aconteceu.»

Para Ivan Nalevka, professor de História Contemporânea da Faculdade de Filosofia de Praga, foi assinado um contrato entre Brejnev e a Checoslováquia: «Nós garantimos-vos um nível de vida superior e vocês não tentam subverter o sistema político.» A população checa aceitou. O contrato era simples: «As pessoas viviam nas suas casas com um bom nível de vida. Podiam ter as suas próprias ideias. O partido já não pretendia convencê-las dos ideais comunistas. Podiam até ler livros estrangeiros. Tudo, desde que não agissem contra o regime e deixassem os políticos governar.» Começou então a valer uma dupla moral: as pessoas recuaram para o seu mundo privado e o partido deixou de querer construir a sociedade comunista perfeita. Os checos começaram a criar o seu mundo na casa da cidade e nas suas casas de campo, e não se tornavam activistas públicos contra o regime. Se o fizessem, aí, sim, eram penalizados. Foi o caso dos que se envolveram na Carta 77.

Mas, desde então, cristalizou-se uma oposição que nunca desistiria. Nela estava Vaclav Havel. Os resistentes, que organizavam actividades contra o regime, seminários, editavam revistas e assinaram a Carta 77, eram um pequeno grupo, não passaria muito das duas mil pessoas.

Para Nalevka, não foi este grupo que fez cair o regime: «O agente mais importante foi Gorbatchov. Ele acreditava, como acontecera a outros no passado, em que era possível reformar o comunismo, ao estilo da Primavera de Praga. Mas os homens que estavam à frente da maioria dos regimes da Europa de Leste não eram propriamente os ideais para essas reformas . Gorbatchov queria ir buscar os seus homens para este empreendimento. Mas este esforço desestabilizou o sistema comunista de toda a região. Sabemos que, na Alemanha, os agentes do KGB se mexeram para derrubar as posições de Honecker e formar uma nova equipa. O mesmo sucedeu na Bulgária. Gorbatehov, em Praga, foi também buscar novos líderes, como Mlimar, o estratega das reformas políticas de 68, para ser candidato presidencial».

Sementes vermelhas

Foi durante o período pós-invasão que o povo mais comunista dos países comunistas e o mais pró-soviético de Leste se tomou anticomunista e profundamente anti-soviético. Os checo aceitaram o contrato, mas ao assiná-lo não só morreram para a política como mataram qualquer possibilidade de renovação do comunismo.

A história de Eduard Gülstuk é a história da Checoslováquia do pós-guerra. Saiu do país três meses e meio depois da ocupação nazi. Não queria sair. Foi um amigo eslovaco que lhe lembrou o facto de ser de ascendência judia e de ter antecedentes nos movimentos estudantis: "se resolveres ficar, resolves-te pela morte". Partiu para Londres com a sua mulher. Estudou em Oxford e foi trabalhar para o governo checoslovaco no exílio, primeiro no Departamento de Educação, depois Departamento dos Negócios Estrangeiros.

Dentro do seu país, o Partido Comunista era já forte antes da Segunda Guerra. A Checoslováquia era uma das poucas democracias parlamentares do que viria a ser o bloco de Leste. O governo de Masarik tinha um forte pendor social-democrata. Segundo o professor Nalevka checos têm enraizado um forte sentimento to igualitário, resultado do facto da nobreza ter sido sempre quase exclusivamente alemã, e a identidade nacional se ter construído entre camponeses. Mesmo depois dos checos terem chegado às cidades esse sentimento manteve-se. Com uma forte industrialização, a estrutura social checoslovaca tomou-se propícia ao crescimento dos movimentos de esquerda. A histórica russofilia dos checos também ajudou à implantação dos comunistas. No século XIX, um escritor nacional escrevia: "só estaremos bem quando o cavalo cossaco beber das águas do Vltava".

Os acordos de Munique, em 1938, causaram um forte sentimento de traição em relação ao Ocidente e ajudaram ainda mais à aproximação à União Soviética. Em 1946, as eleições deram uma esmagadora vitória à esquerda, com 38 por cento para os comunistas e 13 por cento para sociais-democratas.

Até 48, Guttwald, o líder comunista infligiu vários golpes contra os seus aliados internos - sociais democratas e democratas eslovacos. Benès, o presidente, acabou por se demitir e morreu pouco tempo depois; Jan Masarik, ministro dos Negócios Estrangeiros e filho do fundador da democracia checa, suicidou-se de forma pouco clara. Até 1953, Klement Guttwald ocupou o poder checo com mão de ferro e forte apoio de Estaline. Só então foi substituído por Antoni Novotny. Apesar de alguma abertura e das boas relações com Krutschov, a Checoslováquia não seguiu o caminho dos seus aliados no processo de desestalinização.

Quando os comunistas chegaram ao poder, Goldstuken continuou a sua carreira diplomática. Logo depois da guerra, foi convidado por Rudolf Slânsky, secretario-geral dos comunistas, para ser seu secretário. Recusou. Alguns anos depois, Slânsky foi enforcado. Goldsutuken salvou-se por sorte, pela segunda vez. Até 1951 passou pelas Nações Unidas, Londres, Paris e Telavive.

Em 1951, nas perseguições de Guttwald, foi preso, e, em 1952, condenado à morte, acusado de traição, subversão da república e espionagem. As suas antigas amizades com dirigentes caídos em desgraça e, mais uma vez, o facto de ser judeu, foram elementos contra si. Mas, no Natal de 1955, já com Novotny no poder e depois da morte de Estaline, foi libertado. Pela terceira vez, Goldsutuken sobrevivia.

Dubcek, um amigo dos russos

Em 1958, Goldstuken consegue começar a dar aulas. Novotny só começa nos anos sessenta uma abertura muito tímida, mas as poucas portas abertas foram corroendo o aparelho de Novotny.

Em meados dos anos sessenta começara uma liberalização que envolvia sobretudo a cultura, a ciência e as artes. Foi o momento da nova vaga do cinema checoslovaco, e, na filosofia, discutiam-se novos temas. Apareceram os romances de Vaculik, Skvorecki, Sekira e Kundera. O suplemento literário dos comunistas, o Literani Noviny, tomara-se um importante defensor de reformas. A par desta ebulição cultural, existia também o problema nacional dos eslovacos, que criticavam o centralismo de Praga. Mas Novotny sabia que Brejnev se orientava para a elite eslovaca e resistia à descentralização. Surgiram, ao mesmo tempo, graves problemas económicos. Em 1962, a Checoslováquia teve o mais lento crescimento económico em toda a Europa, países de Leste incluídos.

A tudo isto juntavam-se as más relações entre Brejnev e Novotny. Brejnev nunca perdoou a Novotny o seu apoio a Krutschov. O novo homem forte do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) foi criando uma clientela própria que passava ao lado de Novotny, composta sobretudo pela elite política eslovaca.

Os intelectuais foram desenvolvendo paulatinamente uma guerra pela liberdade, que teve o auge no IV Congresso dos Escritores, em 1967. Retomando um tema já discutido em 63, Franz Kafka foi o cavalo de batalha contra o realismo socialista e a teoria marxista da alienação. Diziam os detractores de Kafka que este não era relevante para os países socialistas, por não haver ali qualquer forma de alienação. A polémica saltou para o Literani Noviny: «um homem pode ser um trabalhador tão alienado na Skoda como na General Motors», escrevia um colunista. Nesse congresso foram ferozes os ataques às arbitrariedades do regime e ao clima anti-semita reinante no país. O suplemento chegou a uma tiragem de 600 mil exemplares. Novotny acabou por afastar os redactores e retirar o jornal das mãos da União dos Escritores.

Depois disso, bastou uma manifestação de 1500 estudantes contra as más condições das residências e a sua brutal repressão, a 31 de Outubro, para abrir a crise política. Foi neste cenário que Novotny perdeu, em 5 de Janeiro, o apoio do Comité Central e da URSS. Quando Novotny pediu ajuda aos amigos russos, Brejnev respondeu-lhe: «esse problema é seu.» Continuou como presidente, mas para primeiro secretário foi eleito o eslovaco Dubcek, resultado da aliança, no Comité Central, de economistas reformadores, intelectuais e dirigentes eslovacos.

Dubcek era o homem que os soviéticos queriam. Estudara na URSS e sabia bem russo. Brejnev considerava-o um homem fortemente pró-soviético e tinha razão. O erro de cálculo de Brejnev foi não prever que a Checoslováquia era uma autêntica panela de pressão. Brejnev acreditava que se tratava apenas de uma troca de cabeças, não temia o descontrolo que veio a suceder.

Um dos primeiros sinais de que Dubcek era diferente foi a nomeação de Goldstuken, o homem que reabilitara Kafka, corno presidente da União dos Escritores, a 21 de Janeiro. Goldstuken foi à televisão, a em 1 de Fevereiro, com propostas de maior liberdade e democracia, exigindo que o Literani Noviny voltasse para as mãos da União. O país esperou pela punição habitual. Nas fábricas houve resoluções contra Goldstuken, mas nada aconteceu. Então muitos perceberam que poderiam ir mais longe.

Ora Sik começa a desenvolver reformas económicas, numa perspectiva mista. Queria introduzir regras de mercado na economia socialista, privatizando as pequenas actividades e criando um modelo autogestionário com incentivos aos trabalhadores e aos administradores - e alterando os métodos de gestão centralizada. Sik acusava: "A Checoslováquia foi o único país que liquidou a iniciativa privada, por razões dogmáticas, até ao último sapateiro.»

Na política, Mlinar avançava com reformas constitucionais, ainda longe do multipartidarismo puro, mas com maior abertura da Frente Nacional, liderada pelo
PC, aos não comunistas e à frágil sociedade civil, e com garantias legais de todas as liberdades fundamentais. Outra das grandes alterações na vida checoslovaca foi a possibilidade de viajar.

A partir da nomeação de Dubcek, na prática, a censura desapareceu. Em 5 de Março foi oficialmente abolida. Os jornalistas iam testando os limites. Na televisão e na rádio discutia-se tudo: a democratização, a economia, a liberdade de expressão, as histórias mal contadas de 1948, o suicídio de Masarik, o papel dos soviéticos na história checa, a abertura do sistema político a outros partidos. A discussão chegou a um ponto em que até o ministro da Agricultura, apoiante de Dubcek, protestou contra os media, prevenindo que estes estavam a «adoptar os métodos das democracias burguesas». Os protestos não paravam, oriundos sobretudo das células operárias do partido. Mas, ao mesmo tempo, a imprensa ganhava uma notoriedade completamente nova.

A repressão dos estudantes, em Dezembro, voltou a ser discutida. Goldstuken, mais uma vez ele, exigiu responsabilidades: quem mandara espancar os «filhos do comunismo»? Alguns dias depois, o chefe da Polícia de Praga fez o "mea culpa" em plena televisão.

A exigência seguinte tardou pouco: a saída de Novotny da cena política. Em 30 de Março, perdeu o cargo de presidente e foi expulso do partido. A Assembleia Nacional substitui-o por Svoboda, um general comunista, bastante popular. Outros "liberais" ocuparam os cargos fundamentais: Oldrich Chernik, como primeiro-ministro; Jiri Hajek, como ministro dos Negócios Estrangeiros; o general Dzur, como ministro da Defesa; Joseph Smrkovsky, como presidente da Assembleia Nacional.

Estes "liberais" tinham uma história de «bons comunistas». Svoboda dera, em 48, como ministro de Defesa, um apoio incondicional do exército ao ultra-estalinista Guttwald, sendo também verdade que, depois disso, foi perseguido pelo mesmo. Smrkovsky, nesse mesmo período, mobilizou as milícias populares para apoiar o líder comunista. Cernik fora sempre um homem do aparelho. Mesmo Dubcek fora privilegiado pelo regime: enquanto os líderes eslovacos, como Husák e Clementis, eram perseguidos, Dubcek foi enviado para a Escola Superior Política de Moscovo.

Para Goldstuken estavam criadas todas as condições internas para a democratização socialista: o povo era já entusiasta das reformas e apoiava mais do que nunca o Partido Comunista. Apesar de Guttwald e Novotny, parecia claro, mesmo para a oposição, que os checoslovacos continuavam, na sua maioria, a apoiar uma via socialista para o país.

Vizinhos nervosos

Dentro do partido, as lutas internas começaram rapidamente. Dubcek tinha pouco espaço de manobra e estava em minoria no Presidium.

Em Maio, começou a preparar-se o Congresso de Setembro, que poderia ter marcado a mudança definitiva. O programa elaborado pelos homens de Dubcek em o sinal definitivo do rumo que o país queria tomar. Propunha a implementação de todas as liberdades constitucionais de reunião, associação, expressão e de movimentos; indemnização de todos os que tenham sido prejudicados pelo Estado socialista; igualdade para os eslovacos; e uma relação de mutuo entre os aliados.

A 13 de Abril, o Pravda denunciava "os elementos anti-socialistas" que, na Checoslováquia, atacava o partido. Na RDA e na Polónia, Ulbricht e Gomulka preveniam que se estava a ir longe demais. Uma das boas desculpas para os detractores das reformas era a existência do KAN (Clube dos Não-Membros do Partido) que exigia espaço politico aos opositores do comunismo e um sistema verdadeiramente multipartidário. Este grupo agia e falava livremente em Praga, mas Dubcek nunca chegou a legalizar o movimento.

Em Abril, Gomulka, da Polónia, Ulbricht, da RDA; Jivkov, da Bulgária, e Janos Kádár, da Hungria, encontram-se em Moscovo com Brejnev. O assunto era a Checoslováquia. Só Janos Kádár, amigo de Debcek, lhe poupou criticas. A partir daí sucederam-se as pressões e as reuniões. Dubcek foi recuando e garantiu aos aliados dar os lugares cimeiros aos comunistas, impedir a existência de partidos de oposição, consultar Moscovo sobre qualquer relação com o Ocidente e permitir manobras do Pacto de Varsóvia no território checoslovaco.

Estas manobras militares tremer os mais avisados. O clima de hostilidade era permanente. Os cinco, reunidos em Varsóvia em 14 de Julho, foram claros: «Não podemos aceitar que forças estrangeiras desviem o vosso pais do socialismo e exponham a Checoslováquia ao perigo de abandonar a comunidade socialista». Os sinais de uma intervenção estavam ali, mas Dubcek acreditar no seu aliado Bresnev.

Nos países vizinhos crescia o medo que estas reformas pudessem criar uma crise em todo o bloco de Leste. Dentro do PCUS, Bresnev não era um dos falcões e no princípio não defendia a intervenção militar. "Havia rapazes com o dente bem mais aguçado", garante o historiador Ivan Nalevka. Houve, na União Soviética e fora dela, pressões para parar as reformas na Checoslováquia.

A reunião definitiva foi nos finais de Julho, em Cierna-nad-Tisou, na fronteira entre a Checoslováquia e a União Soviética. Toda a nata política soviética foi ao encontro. A solenidade da reunião fazia temer o pior, mas Dubcek saiu de lá optimista e com mais cedências no bolso.

Segundo o que se sabe hoje, graças à abertura dos arquivos da União Soviética, os agentes do KGB na Checoslováquia prepararam a invasão e tiveram a colaboração de generais e agentes militares checos. Sabe-se também que os Estados Unidos foram, tal como sucedera na intervenção de 56 na Hurgria, informados antecipadamente da invasão e que deram luz verde aos soviéticos, visto tratar-se de um assunto interno da área de interesse de Moscovo. «Na verdade, os americanos reconheciam a divisão da Europa e não lhes convinha que houvesse naquela zona de fronteira uma situação de instabilidade», defende Nalevka.

Depois da invasão, Praga resistiu menos do que uma semana. O período de normalização foi gradual. Dubcek ainda se manteve no cargo. Foi ele, com - Svoboda, quem assinou os Acordos de Moscovo, que marcam o princípio da "normalização". A cedência foi completa . Tropas soviéticas puderam finalmente ter uma base fixa na Checoslováquia. Só depois da cedência total é que Dubcek abandona a liderança do partido, em Abril de 69, acabando por ser expulso, em Junho de 1970. Svoboda mantém-se presidente até à sua morte, em 1975.

Para substituir Dubcek foi escolhido homem que apoiara as reformas, eslovaco, como convinha. Husák tinha todas características para garantir o novo momento: era ambicioso, não tinha ligações ao novotnismo, não criaria mal-estar entre os eslovacos. Os eslovacos, uns dos principais motores da Primavera, foram os que mais beneficiaram do apoio soviético durante a «normalização».

Em 16 de Janeiro de 1969, cinco meses depois da invasão, um jovem estudante, Jan Palach, dirigiu-se à Praça de São Venceslau, regou-se com benzina e acendeu um fósforo. Deixou uma nota: «Verificando que o nosso país está no limiar do desespero decidimos expressar o nosso protesto e acordar o povo.» O povo acordou, chocado. Um dia depois da morte do jovem, 200 mil pessoas juntaram-se na Praça de São Venceslau. No dia 24 de Janeiro, fez-se um minuto de silêncio, os soldados e os polícias saudaram o herói nacional. Foi o último suspiro da Primavera. Depois disso, a oposição manteve-se num pequeno grupo de intelectuais.

A Revolução sem sonhos

Quase 30 anos depois, uma pequena notícia do jornal Právo faz lembrar Jan Palach: um homem de 50 anos, desempregado, imolou-se em Kladno, uma cidade industrial, a meia hora de Praga. A mulher do suicida contou à polícia que o marido tinha sido despedido e que nunca se conformara com o facto.

No mesmo dia em que Klaus se demitiu, foi anunciada a falência da empresa metalúrgica Polikladno, que, no tempo do comunismo, empregava cerca de vinte milhares de trabalhadores. Para a cidade, foi uma catástrofe que ainda parecia evitável. O fecho da empresa esteve ligado aos vários escândalos de fuga de capitais praticada pelos novos senhores da economia checa. Com esta falência é previsível o fecho de outras pequenas empresas na cidade. Na televisão, um trabalhador diz que lhe resta um contentamento: «Fiquei desempregado na mesmo dia que Klaus.»

Na artéria principal de Kladno fazem-se compras e a cidade parece ainda não ter interiorizado a crise em que está mergulhada. Na paragem de autocarro, um velho reformado da empresa desabafa: «O Klaus e os seus ministros querem destruir a Polikladno porque o Ocidente não quer concorrência.» Pepík Kalat, de 70 anos, esclarece que não é saudosista. Foi preso em 1948, por ter tentado sair do país, mas não está satisfeito com os novos tempos: "Isto é muito pior. Este regime que temos agora é horrível. No tempo do comunismo, a Polikladno exportava muito para o Ocidente e tinha mais de 22 mil trabalhadores. Em oito anos sobram mil, o resto está no desemprego."

Num edifício amarelo, perto da paragem de autocarro, várias pessoas amontoam-se em frente a uma vitrina. É a lista de empregos disponíveis. Bulinova, uma mulher de 40 anos, procura pacientemente. A loja de roupas onde trabalhava foi comprada pelos alemães, que fizeram uma reestruturação da empresa. Foi despedida e agora é mulher a dias. «Os tempos não estão bons para nós, é aos novos que este tempo pertence.»

Este tempo é o de todas as oportunidades de enriquecimento, mas é também o da ausência de regras. O processo das privatizações foi coberto de escândalos, descapitalizações e favores governamentais. A inflação estrangulou os checos, que perderam bastantes direitos sociais herdados do comunismo.

O desencanto de Havel

Depois da demissão do governo, Vaclav Havel, o presidente, falou aos deputados: «Muitas pessoas se admiram com o facto de depois de oito anos de construção de uma economia de mercado, a nossa economia estar num estado deplorável. Temem os pacotes de austeridade. Espantam-se quando nos afogamos no smog, apesar de se dar tanto dinheiro para fins ecológicos; quando sobem os preços de tudo sem que, paralelamente, aumente o apoio social; quando temos de ter medo de andar à noite nas nossas cidades; quando não se constrói quase nada, a não ser bancos e vivendas para ricos. Cada vez mais pessoas se cansam da política. Nós todos, apesar de termos sido eleitos livremente, nos tomámos suspeitos, antipáticos.»

Havel lembra que muitos outros países vizinhos, para onde os checos olhavam sem respeito, estão hoje melhor que a República Checa. E ataca a corrupção: «O proclamado ideal do sucesso e do lucro foi posto a ridículo quando se chegou a uma situação onde os mais imorais se transformam nos de maior sucesso, e quando o maior lucro é obtido por criminosos impunes. O Estado, que parece que devia ser pequeno e forte, é grande e fraco.»

O sentimento de insegurança é aquilo que Zeman, o líder do centro-esquerda, terá de vencer. Mas as principais linhas programáticas da esquerda não diferem substancialmente das de Klaus. A entrada na NATO e na União Europeia a isso obrigam. Jan Urban, um jovem colunista que esteve envolvido na Revolução de Veludo, defende que o centro-esquerda tem poucas razões para estar animado: «Grande parte da liberalização está por fazer e o governo vai ter enormes restrições orçamentais. Não pode aumentar o défice, terá de desregular os preços das rendas, vai tomar medidas muito impopulares. A diferença vai ser sobretudo o estilo e a possibilidade de poder desenvolver uma operação "mãos limpas". De resto, o corredor de opções politicas é bastante estreito."

Dos fracos não reza a história

O Partido Comunista Checo e Moravo obteve 10 por cento nas últimas eleições, mas tal como os republicanos, de extrema-direita, é completamente desprezado. Havel foi contra a proibição do partido, por considerar que não fazia sentido imputar culpas colectivas, mas recusa-se a receber os seus representantes, apesar de terem acento parlamentar.

Ao contrario de outros países de Leste, os comunistas não se reformaram nem mudaram de nome. E a explicação deste facto está sempre na mesma data: 21 de Agosto de 1968. O jornalista Jan Urban resume assim a encruzilhada dos comunistas: "A partir de 1968, com a confrontação dentro do partido, foi para sempre bloqueado o potencial criativo dos comunistas, a possibilidade de qualquer reforma. O partido cristalizou-se nos velhos nostálgicos. Antes das segundas eleições, depois de 1989, o bloco de esquerda, onde estavam integrados os comunistas, partiu-se ao meio. Para lado foram os reformadores; para outro foram os mais ortodoxos do Partido Comunista Checo e Moravo.

Enquanto os sociais-democratas continuarem a ser um catalisador do descontentamento, os comunistas permanecerão neste gueto, pelo menos nos grandes centros urbanos, como Praga.

A antipatia atinge também todos os que, com mais protagonismo, estiveram envolvidos na Primavera de 68. Uns e outros foram perseguidos pela nova classe política. O dedo acusador foi também apontado, mais uma vez, ao professor Goldstuken: «Eu devo ter um vírus qualquer, para nenhum regime gostar de mim».

Perdoados foram os militantes comunistas que se mantiveram na sombra e que eram, antes de 89, mais de dois milhões. Alguns estão no partido de Klaus. Entre eles, o próprio Klaus.

Para Jan Urban, «a especificidade da sociedade checa é a de não querer ter passado. Não são só os 48 anos de comunismo, é também a ocupação nazi, o transporte de alemães para fora do país, o desaparecimento de cinquenta mil judeus com o apoio de polícias checos. São os buracos negros que as pessoas não querem lembrar. Esta é a incapacidade que os checos têm de se sentir normais, de sentir que, tal como qualquer nação, têm os seus heróis e os seus criminosos.»

Os homens da Primavera de Praga foram esquecidos porque levavam consigo o fantasma da culpa de um país que aceitou calar-se. E porque representaram a terceira via entre capitalismo e socialismo. E, em Praga, já quase ninguém acredita em terceiras vias. Nem esse assunto se discute.

Também para Stepanka os homens do 68 são coisa do passado: «é história, não tem nenhuma importância para os checos. Os homens da Primavera criaram uma esperança, depois as coisas ficaram ainda piores». A República Checa fechou esse ciclo. E, dos que perderam, a história não quer falar.

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Resto dossier

Primavera de Praga

Em 1968, a experiência checoslovaca de democratizar o socialismo, a Primavera de Praga, foi esmagada pela invasão dos tanques da União Soviética e de outros países do Pacto de Varsóvia. O Esquerda.net reuniu neste dossier artigos e reportagens a rememorar os acontecimentos e documentos da época, em particular um relato do português Flausino Torres, a carta de seis comunistas portugueses exilados criticando a invasão, e uma carta de Flausino Torres pedindo a suspensão de Álvaro Cunhal do PCP.

Dubcek: Um homem de boa vontade isolado no reino dos cínicos

Uma retrospectiva da trajectória política de Alexander Dubcek feita pelo diário francês Le Monde na edição de 5 e 6 de Janeiro de 1969, onde o autor dá conta que «Dubcek era um herói, um "estratega genial" ou um novato e um fraco? As opiniões continuam muito diferentes.»

O buraco negro da memória

Nesta reportagem publicada há dez anos na revista Vida Mundial, Daniel Oliveira recorda os acontecimentos da Primavera de Praga e a "Revolução de Veludo", que ocorreu em 1989.

Só os tanques soviéticos pararam a participação popular

Em, 1968, a então Checoslováquia lançou o pânico no campo do "socialismo real". A reabilitação da crítica democrática e um verdadeiro levantamento pacífico viravam do avesso o bastião avançado do Pacto de Varsóvia na Europa. O Partido-Estado subvertia-se a partir de dentro. Uma revolução? Só os tanques soviéticos puderam parar a experiência de participação popular daqueles poucos meses.

Cronologia

1968 foi um ano intenso: a guerra do Vietname mobilizava exércitos de combatentes e uma opinião pública quase planetária; em França, o mês de Maio assinalaria a criação de uma frente ampla de estudantes e operários na contestação da exploração capitalista, Israel e o Líbano envolveram-se num aceso conflito, Marcelo Caetano Caetano substituiu Salazar. E a Humanidade conseguiu colocar uma nave na órbita da lua. Em Agosto, os tanques soviéticos irrompiam em Praga para pôr fim aos ímpetos reformistas do Socialismo de Rosto Humano proposto por Alexander Dubcek. Fica uma breve cronologia dos acontecimentos de Praga.

Exposição: 40 anos depois, checos revivem repressão da Primavera de Praga

Uma selecção de histórias e objectos da colecção de Palach integram a exposição que o Museu Nacional da República Checa inaugurou esta semana. Num "flashback" da invasão, a exposição inclui um tanque de guerra T-54 soviético na frente de um imponente edifício, ainda equipadas com as metralhadoras de 1968.

"Que Álvaro Cunhal seja suspenso"

No dia 5 de Novembro de 1968, Álvaro Cunhal reúne-se em Praga com os comunistas portugueses. A meio da reunião tensa, Cunhal expulsa da sala, aos gritos, o jovem Álvaro Bandarra, que procurava apresentar as razões para criticar a invasão soviética. Flausino Torres dirige-se então a Cunhal: " Jamais voltarei a apertar-te a mão! Mandaste sair aquele jovem. Pois tu é que deves abandonar o grupo, a direcção do grupo [o Partido]!(...)". Depois, escreveu uma carta ao Comité Central do PCP pedindo um inquérito e a suspensão de Cunhal do Partido.

Carta dos portugueses exilados na Checoslováquia sobre a invasão soviética

Seis comunistas portugueses exilados na Checoslováquia acompanharam com angústia a invasão soviética. "Sem esperar as decisões de dirigentes de qualquer escalão", relata Flausino Torres, "declarando-nos imediatamente pelo lado da justiça, cumprindo um dever à luz dos princípios." A carta seria seguida por uma segunda, datada de 16 de Setembro, que já reage à "decisão vergonhosa da Direcção do Partido Comunista Português".

"Estamos a ser ocupados pelos nossos fraternos aliados"

A 10 de Setembro de 1968, o diário conservador francês Le Figaro publica uma carta de uma mulher residente em Praga e militante do Partido Comunista Checoslovaco, um documento que revela bem o medo e a perplexidade que tomou conta das ruas da cidade, causados pela intervenção militar soviética. Mas não deixa também de mostrar diversas formas originais de resistência que uniram o povo contra os ocupantes. 

"A invasão não teve o consentimento das autoridades constitucionais da Checoslváquia"

Esta declaração do presidente da República Socialista da Checoslováquia, general Ludvik Svoboda, aos microfones da rádio Praga no dia 21 de Agosto, deixa claro que não foram as autoridades constitucionais checoslovacas que fizeram qualquer pedido de intervenção militar, e chama os seus concidadãos a enfrentar o desafio e a manifestarem "a adesão ao socialismo, à liberdade e à democracia."

Declaração da agência TASS sobre a intervenção militar na Checoslováquia

No próprio dia 21 de Agosto, a agência Tass, a agência de notícias oficial da União Soviética, divulgou esta declaração, em que afirma que a invasão foi feita a pedido dos "militantes e homens de Estado da República Socialista Checoslovaca" e que o motivo foi a ameaça que as "forças contra-revolucionárias", em conluio "com as forças exteriores hostis ao socialismo" faziam pesar sobre o regime socialista checoslovaco.

Uma "Primavera" esmagada

A "Primavera de Praga" foi sufocada há 40 anos. As possibilidades de democratizar as "democracias populares" a partir do seu seio reduziram-se drasticamente; mas permanecerá o seu exemplo, como gesto colectivo de audácia e de combatividade, de entrega generosa, que encheu as ruas de Praga e de outras cidades e que levou muito mais longe a vontade de combater o estalinismo como forma pervertida e enquistada de um poder autoritário e burocrático.

"A Batalha de Praga", de Flausino Torres

A Primavera de Praga de 1968 foi testemunhada pelo historiador e militante comunista português Flausino Torres, pai do arqueólogo Cláudio Torres, que dava aulas na Universidade Karlova. Horrorizado, Flausino Torres assistiu aos tanques soviéticos esmagando a experiência de um "socialismo sem ditadura; socialismo com democracia, com minorias; socialismo sem censura à imprensa". É um extracto do relato que escreveu na altura, "A Batalha de Praga" que pode ser lido abaixo.