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O Afeganistão visto pelas mulheres da RAWA

A Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA) é uma organização política feminista fundada em 1977 com sede em Quetta, no Paquistão. Nesta entrevista ao Osservatorio Afghanistan, Maryam faz um balanço de 20 anos de ocupação ocidental e apresenta as perspetivas sobre como continuar a luta na nova fase que agora se abre.
Vendedor ambulante expõe bandeiras e posters dos líderes talibãs junto a um mural de uma menina na escola.
Vendedor ambulante em Cabul expõe bandeiras e posters dos líderes talibãs junto a um mural de uma menina na escola. Foto Stringer/EPA

Os talibãs assumiram o poder (a 15 de Agosto) no Afeganistão após a retirada das forças de ocupação dos EUA. Embora a situação das mulheres afegãs tenha sido frequentemente instrumentalizada pelos principais meios de comunicação e intelectuais filo-imperialistas para legitimar as intervenções ocidentais, nós [Osservatorio Afghanistan, della parte di chi non ha voce] quisemos traduzir esta entrevista com uma porta-voz da Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA), realizada há algumas semanas quando os talibãs começavam a sua reconquista militar.

A RAWA é uma organização política feminista com sede em Quetta, Paquistão, fundada em 1977 por Meena Keshwar Kamal para ajudar as mulheres na sua luta pela emancipação e pelos direitos civis. Desde os anos 1990, sob o primeiro regime talibã, tem estado ativa no Afeganistão de forma clandestina em prol da emancipação das mulheres. Nesta entrevista ao Osservatorio Afghanistan, Maryam faz um balanço de 20 anos de ocupação ocidental e apresenta as perspetivas sobre como continuar a luta na nova fase que agora se abre.


Cristiano Tinazzi: Desde a queda dos talibãs em 2001, que progressos foram feitos na situação das mulheres no país?

Maryam: Tem havido muito pouco progresso e podemos dizer que nenhuma destas mudanças tem tido raízes profundas na sociedade. Têm sido frágeis e, a alguns níveis, falsas.

Os últimos 20 anos trouxeram mais desilusões e mais lágrimas. Insegurança, guerra generalizada e incerteza sobre o futuro, atentados suicidas, assassinatos seletivos, corrupção desenfreada, drogas e dependência, pobreza, população deslocada e muito mais são as preocupações diárias do nosso povo, especialmente das mulheres. O Afeganistão é sempre descrito como "o pior lugar para se nascer como mulher". Uma das nossas companheiras disse profeticamente numa entrevista a 13 de Março de 2002: "Sabemos que é difícil não querer reagir quando algo como o 11 de Setembro de 2001 acontece, mas bombardear o Afeganistão não vai livrar o mundo do terrorismo. Terroristas e fundamentalistas vivem em todo o mundo, e o bombardeamento de um país não vai livrar o mundo do terrorismo. Hoje vemos o resultado: os talibãs, mais poderosos do que antes, estão a governar o país.

 

Quais têm sido os maiores sucessos e fracassos dos 20 longos anos de ocupação militar?

Tem havido alguns êxitos, tais como o facto de as raparigas já não estarem proibidas de ir à escola e de as mulheres poderem trabalhar em certas profissões. Os meios de comunicação conseguiram chegar até às aldeias mais remotas e as pessoas tiveram acesso a emissões de rádio e televisão. Foram introduzidos sistemas de comunicação como os telemóveis e a Internet. Estas coisas podem parecer óbvias, mas para um país muito pobre e atrasado, são verdadeiras conquistas. Mas, ao mesmo tempo, a corrupção generalizou-se e o fosso entre ricos e pobres alargou-se. Sob o regime talibã, o cultivo do ópio foi proibido, mas hoje o Afeganistão é a maior base para o contrabando de droga, enquanto que a questão étnica e os confrontos armados nunca foram tantos.

Devemos também recordar que se o Afeganistão foi bombardeado pelos EUA e pela NATO, isso deve-se aos talibãs e à Al-Qaeda. Hoje, os talibãs estão de volta ao poder e Estado Islâmico está presente em todo o país... Mesmo que os talibãs governem o Afeganistão, o terrorismo, a destruição e os combates não vão parar.

Enquanto os EUA e muitos outros Estados envolvidos como o Paquistão, o Irão, a Turquia e mesmo a Rússia, a China e a Índia virem o seu interesse em apoiar os fundamentalistas religiosos [ver o "acordo" de Trump de Março de 2020 e as "negociações" de Doha] e criminosos conhecidos, será difícil encontrar uma solução.

 

De acordo com a Human Rights Watch, cerca de 87% das raparigas e mulheres afegãs são agredidas durante a sua vida. Estes números são assustadores...

O Afeganistão sempre foi um lugar miserável para as suas mulheres devido à forte mentalidade patriarcal, ao sistema feudal, à falta de educação e cultura, às tradições, às crenças religiosas, etc. Mas os 40 longos anos de guerra e especialmente o reforço do fundamentalismo agravaram a situação.

As mulheres afegãs são as mais afetadas pela guerra e pela violência contínua. São registados diariamente casos de violação, rapto, casamentos forçados, casamentos de menores e violência doméstica. Há várias razões pelas quais estes números não estão a diminuir, mas a principal é o forte controlo dos fundamentalistas que têm sido historicamente apoiados pelos EUA e que são os mesmos misóginos que têm assento no parlamento, que fazem as leis, que controlam o governo, a polícia, o poder judicial e todos os organismos governamentais.

 

O papel das ONG ocidentais no país tem sido positivo ou negativo?

As ONG no nosso país faziam parte da ocupação militar ocidental. Cresceram como cogumelos após o 11 de Setembro. Com exceção de alguns pequenos projetos bem sucedidos, a maior parte deles desempenharam um papel negativo. A USAID (United States Agency for International Development) implementou principalmente as políticas dos EUA, tal como muitas outras ONG internacionais.

Estas ONG foram também uma das principais razões para a corrupção e o suborno. Realizaram projetos que eram bons apenas no papel, sob a supervisão de pessoas de fora, e não trouxeram mudanças reais na vida do nosso povo.

 

Os países ocidentais deixaram o Afeganistão, um após o outro. A retirada dos Estados foi um erro? E se não, porque não?

Sim, quase todos os países partiram. Não é de todo um erro para nós, é uma coisa positiva. Éramos totalmente contra esta ocupação e a presença destas tropas. Mas, infelizmente, esta retirada é o resultado de um acordo diplomático entre os EUA e os Talibãs. Mais uma vez, como em ocasiões anteriores, são os civis afegãos que estão a pagar o preço. Os combates em curso estão a matar civis, queimando as suas casas e quintas e forçando-os a fugir das suas aldeias.

A RAWA acredita firmemente que nenhuma nação (e país) pode receber a paz e o progresso como uma prenda. As pessoas têm de lutar, de construir a paz com as suas próprias mãos, para terem uma forte ligação com ela.

 

O que acontecerá se os talibãs chegarem ao poder?

Eles já estão no poder nas principais partes do país, mas tudo aconteceu de repente. As pessoas ainda estão em estado de choque. Até agora, têm agido de forma diferente de região para região: algumas áreas ainda são contestadas, sob fogo, mas outras cidades e fronteiras têm sido entregues sem resistência. Mais cedo ou mais tarde chegarão a Cabul e será difícil prever o que irá acontecer. Os talibãs farão o seu melhor para manter uma imagem positiva e diferente desta vez.

Também tentarão obter apoio internacional. Podem realizar "eleições", mas é impossível esconder o seu carácter misógino, criminoso e ambíguo. Nos últimos dias, as pessoas têm-se assustado com os seus atos criminosos e nenhum afegão pode esquecer os horríveis ataques dos últimos anos, tais como ataques a escolas e hospitais, assassinatos de jornalistas, vacinadores, juízes, polícias, médicos e os atentados suicidas...

Mesmo as mulheres membros da delegação às chamadas conversações de paz em Doha, como Fouzia Kofi, afirmaram que os talibãs tinham mudado, mas os últimos dias mostraram o contrário. Os talibãs estão à espera do momento certo para chegar a Cabul e criar o seu Emirado Islâmico, que aplicará a Sharia, a lei islâmica, e interferirá em todos os aspetos das nossas vidas.

 

A alternativa é fugir?

Não, de forma alguma. Encontraremos uma forma de continuar a nossa luta, dependendo da situação. É difícil dizer como, mas iremos certamente continuar as nossas atividades clandestinas como o fizemos nos anos 1990 sob o regime talibã. É claro que isto não se fará sem riscos e perigos, mas qualquer forma de resistência requer sacrifícios.


Entrevista de Cristiano Tinazzi, jornalista italiano freelancer especializado em países do Médio Oriente. Artigo publicado pelo Osservatorio Afghanistan em 14 de Agosto de 2021 e republicado em A l’Encontre. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net

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Neste dossier:

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