Os talibãs afegãos: Bilhete de identidade

No momento em que o Emirado Islâmico do Afeganistão é restabelecido, muitas questões permanecem sobre esta organização, a sua hierarquia, os seus recursos e os seus objetivos. Artigo de Dorothée Vandamme.

05 de setembro 2021 - 14:26
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Forças talibãs tomam conta do aeroporto internacional em Cabul, após a retirada dos norte-americanos.

Os talibãs afegãos [o termo talib refere-se a um estudante de religião; taliban é a forma plural de talib, sem "s", mas aqui usaremos a concordância do plural em português] estão de volta ao poder no Afeganistão após vinte anos de insurreição e de luta contra as tropas internacionais.

No momento em que o Emirado Islâmico do Afeganistão é restabelecido, muitas questões permanecem sobre esta organização.

Quem são eles ao certo, qual é a sua hierarquia, quais são os seus apoiantes, os seus recursos, e os seus objetivos fundamentais?

Um movimento Pashtun...

Os talibãs vêm de tribos pashtun afegãs, muitos dos quais fugiram para o vizinho Paquistão a partir de 1979 e regressaram ao Afeganistão durante a década da invasão soviética, que durou até 1989, para enfrentar o Exército Vermelho.

Fundada em 1994, no meio da guerra civil, a organização tomou o poder no Afeganistão em 1996 e estabeleceu um Emirado Islâmico. Este foi derrubado dois meses após o 11 de Setembro de 2001, e os talibãs mandados embora.

Em seguida, reagruparam-se nas regiões montanhosas limítrofes do Paquistão e, no caso da liderança do movimento, no próprio Paquistão. A partir destes santuários, os talibãs recuperaram as suas forças e depois começaram a lutar contra as tropas internacionais. Estimado em 7.000 combatentes em 2006, o seu número aumentou para quase 80.000, ou mesmo 100.000 atualmente). Inicialmente concentrada no Leste e no Sul, a insurreição tornou-se nacional a partir de 2006-2007. O objetivo é expulsar as tropas internacionais do Afeganistão - em particular as tropas norte-americanas, o maior contingente desde o início da intervenção.

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Paralelamente a estas operações no terreno, os talibãs trabalham a sua imagem, nomeadamente através do desenvolvimento da sua diplomacia. Isto conduziu a negociações com os Estados Unidos, que resultaram no acordo de fevereiro de 2020. Para alguns, os talibãs de hoje são mais moderados e tolerantes do que os seus antecessores anteriores a 2001. A imagem é enganadora: por detrás de uma aparência mais moderna, a sua ideologia e visão do mundo permanecem inalteradas.

Imbuídos das tradições, códigos morais e honra das tribos pashtunes (os pashtunwali), os talibãs são o fruto da cultura afegã pré-1979, infundida pelo sufismo e costumes pré-islâmicos, com os quais a corrente ideológica deobandi, que representa uma forma de reformismo puritano sunita, se mistura.

No entanto, embora o grupo tenha as suas origens nas regiões pashtun, não reivindica esta identidade étnica, preferindo um carácter nacional.

... mas que não pode ser reduzido a isso

A ideologia talibã combina religião e guerra, o que explica porque são por vezes chamados "mullahs armados": estas duas dimensões, religiosa e marcial, reforçam-se mutuamente. Intransigente e fundamentalista, a visão do mundo dos talibãs não apoia a dissidência ou a contradição. Esta é uma das chaves para a longevidade do grupo.

A lei islâmica, tal como interpretada pelos estudiosos do movimento, permanece dotada de uma moralidade suprema, quase sacerdotal: o Emirado Islâmico considera-se moralmente superior e a única fonte de autoridade oficial e legítima no território do Afeganistão. O nacionalismo islamista é assim a pedra angular do movimento. Daqui deriva a inevitabilidade da vitória dos talibãs, uma mensagem amplamente veiculada na propaganda do grupo.

Sem dúvida, o movimento evoluiu: inicialmente enraizado na tradição pashtun, aproximou-se gradualmente da lógica de grupos pan-islâmicos como a al-Qaeda. Esta alteração radica na necessidade pragmática de promover a implantação da governação talibã nas regiões não-pashtun do país.

Finalmente, foi nas suas relações públicas que o movimento apostou: uma linguagem que pretende ser tranquilizadora, uma procura de aceitabilidade, uma aparência de moderação, tudo isto difundido através de um certo domínio das redes sociais (Facebook, WhatsApp).

Os principais líderes

A constância ideológica do movimento deve-se em parte ao facto de a sua liderança atual ser assegurada pela geração pré-2001.

Haibatullah Akhundzada, Amir ou "comandante dos crentes" (Amir-ul-Mauminin), nasceu na província de Kandahar, o berço dos talibãs. Aos 60 anos, é, desde 2016, o terceiro emir do movimento (depois de Omar (1996-2013) e Mansour (2015-2016)).

Akhundzada juntou-se aos talibãs em meados da década de 1990 e tornou-se um dos amigos mais próximos de Omar. Antigo juiz e erudito religioso, é uma figura respeitada entre os talibãs. Ele é discreto e não aparece em público. Existem poucas imagens dele, o que faz lembrar a atitude de Mullah Omar em relação às representações visuais.

O Emir está rodeado por três adjuntos: Mohammad Yaqoob (filho de Omar), Abdul Ghani Baradar (co-fundador dos talibãs) e Sirajuddin Haqqani (chefe da rede Haqqani). O funcionamento da organização, sob a direcção do Emir, é assegurado pela Shura Rahbari, ou Shura de Quetta, que vai buscar o seu nome à cidade paquistanesa onde a liderança talibã se reagrupou depois de 2001.

A Shura, ou Conselho Talibã, reúne os líderes do movimento e decide sobre as orientações políticas e militares. Sob a direção do conselho estão comissões e órgãos administrativos. Esta estrutura facilitou o desenvolvimento de instituições paralelas durante o período 2001-2021, em áreas tão variadas como a economia, a saúde e a educação. Definindo-se como um actor estatal, os talibãs adquiriram assim as competências regalianas tradicionalmente associadas a um Estado. Daí, aos seus olhos e aos olhos dos seus apoiantes, a legitimidade do seu uso da força.

Se a liderança do movimento está de facto nas mãos de Akhundzada, Baradar, 53 anos, é a sua face mais pública. Preso entre 2010 e 2018 no Paquistão (esta detenção deve ser entendida no contexto do jogo duplo praticado pelo Paquistão desde 2001, apoiando, por um lado, as tropas internacionais e a luta contra o terrorismo e, por outro, os talibãs), Baradar foi libertado a pedido do enviado dos EUA para o Afeganistão, Zalmay Khalilzad, para participar nas discussões entre os talibãs e a administração Trump, devido à sua autoridade e à sua reputação como negociador.

Este papel dá-lhe visibilidade e legitimidade; alguns apresentam-no mesmo como o verdadeiro líder do movimento. Em qualquer caso, é certo que Baradar, o número dois dos talibãs, desempenhou um papel central na estratégia que permitiu que o país fosse reconquistado tão rapidamente.

Recursos e apoio

Para além dos recursos ideológicos, havia recursos materiais, financeiros e diplomáticos: desde o momento da sua formação, os talibãs, cujas fileiras estavam cheias de antigos combatentes contra o exército soviético, beneficiaram das armas soviéticas abandonadas quando o exército se retirou, bem como das armas ocidentais fornecidas aos combatentes afegãos para os apoiar na sua luta contra os soviéticos. Como os talibãs obtiveram ganhos territoriais nos últimos meses, puderam acrescentar ao seu arsenal equipamento moderno que as tropas internacionais forneceram às forças de segurança nacionais.

Financeiramente, o cultivo do ópio e o tráfico de droga, embora menos importante do que antes, continuam a ser uma fonte central de rendimento para a organização. Outras atividades criminosas incluem extorsão, tráfico de madeira, mineração ilegal e rapto.

A ligação entre terrorismo, insurreição e crime organizado transnacional é bem conhecida e documentada. Donativos e contribuições financeiras de instituições de caridade islâmicas também proporcionam rendimentos ao movimento, bem como impostos sobre empresas, transportes e direitos aduaneiros. Não é insignificante que a reconquista de territórios tenha muito rapidamente incluído zonas fronteiriças, garantindo assim a circulação de receitas adicionais. Finalmente, o ISI, o serviço de inteligência do exército paquistanês, fornece um apoio financeiro e material significativo ao movimento.

A nível diplomático, os talibãs conseguiram utilizar o contexto geopolítico internacional para assegurar o apoio, ou pelo menos a neutralidade, de um certo número de atores internacionais, em primeiro lugar a China, a Rússia (que ainda os designa como um grupo terrorista), o Irão e o Qatar. Desta forma, os talibãs procuram garantias, se não de reconhecimento oficial, pelo menos de não-interferência.

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Para além dos atores estatais, os talibãs mantêm ligações com outros grupos, nomeadamente o Movimento Islâmico do Uzbequistão que, além de beneficiar do seu apoio, conduz operações conjuntas com eles no norte do Afeganistão. Mais conhecidas, e motivo de preocupação, são as ligações com a Al-Qaeda através da rede Haqqani, baseadas na sua história de relações e numa motivação religiosa comum.

Afiliada aos talibãs, embora permanecendo um movimento separado, a rede Haqqani fornece-lhes armas e formação. As ligações entre os dois grupos são ilustradas pela nomeação de Sirajuddin Haqqani para o Conselho Talibã.

Finalmente, existem ligações entre os Taliban e os TTP (Tehrik-e-Taliban Pakistan, ou talibã paquistanês), devido à sua sobreposição ideológica e étnica. Contudo, os seus objetivos são distintos, tendo cada um deles um projeto nacional no seu país de origem. É de salientar aqui que não existe qualquer ligação entre os talibãs afegãos e o ramo Khorasan do Estado islâmico, que está ativo no Afeganistão e no Paquistão e que acaba de reivindicar a autoria do ataque ao aeroporto de Cabul a 26 de agosto; pelo contrário, existe oposição entre os dois movimentos.

Continuidade de 1994 a 2021

Seria errado ver a evolução do grupo a partir de uma gradação clara do extremismo para a moderação. Os talibãs de 1994 estavam mais atentos ao comportamento externo da população; os talibãs de 2021 prestam particular atenção à vida moral interna dos afegãos, exigindo uma adesão plena e completa ao seu projeto político. É por isso que estamos a assistir a uma repressão rigorosa e violenta das manifestações nas cidades provinciais do país: execuções, casamentos forçados de mulheres ou raparigas jovens, encerramento de escolas, etc.

A aparência evoluiu, o discurso é suavizado, mas a substância permanece inalterada.


Dorothée Vandamme formou-se em Relações Internacionais. É Professora na Universidade de Mons e Professora Convidada na Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica.

Artigo publicado em The Conversation. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

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