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Insolvência Pandémica: porque esta crise económica será diferente

Enquanto a gestão da crise após 2008 estava preocupada com a liquidez, a principal preocupação agora é a solvência. E essa generalização de resgates e “despejos de helicópteros” de dinheiro – por mais desiguais que sejam – gera uma crise muito diferente em termos políticos e morais. Por Bue Rübner Hansen.
Foto de romanakr/pixabay.

As coisas estão a mover-se incrivelmente rápido. Há uma semana, o governo social-democrata da Dinamarca anunciou que cobriria 75 por cento dos salários dos trabalhadores em regime de lay-off. Eu esperava que isso incentivasse aqueles que tentam pressionar o governo social conservador darwinista do Reino Unido. Mas acho que ninguém esperava que o Reino Unido anunciasse, alguns dias depois, medidas que cobririam 80 por cento do salário dos trabalhadores que estavam prestes a ser despedidos.

Que diabo aconteceu? Para resumir, o facto dos governos estarem a resgatar não apenas bancos, mas também consumidores e detentores de hipotecas não é um sinal de que ficaram benevolentes, mas sim um sinal do tipo de crise em que estamos a entrar. Esta crise é muito diferente da anterior e provavelmente reformulará a política e a economia no Norte global durante anos.

Uma depressão maior

Quão má é exatamente? O economista Nouriel Roubini, famoso por prever a última crise financeira, afirma com ousadia: “o risco de uma Nova Grande Depressão, pior que a original – uma Maior Depressão – aumenta a cada dia que passa.”

Os gigantes financeiros JP Morgan e Goldman Sachs preveem que o PIB dos EUA caia, nos próximos três meses, 14 e 25 por cento, respetivamente. Também apontam, de forma otimista, para uma recuperação rápida, mas é difícil acreditar numa retoma célere depois de uma queda que forçará milhões de empresas e indivíduos a deixar de pagar as suas dívidas e hipotecas. As previsões são sempre difíceis e atualmente são muito mais difíceis do que o habitual. Mas podemos discernir os contornos da crise em que estamos a entrar e perceber como é diferente da grande crise financeira de 2007-2008.

Os mercados financeiros estão a agir de forma estranha e a um nível nunca visto desde 2008. O dinheiro está a sair das ações – mas sem entrar em ativos mais seguros, como títulos de dívida ou ouro, como seria normal. Mas se o dinheiro não está a circular, não é porque está preso a investimentos ou parado em poupanças. O problema é que o dinheiro simplesmente não existe. Dito de outra forma, esta não é uma crise de liquidez, mas de solvência. O número de empresas, trabalhadores e consumidores incapazes de pagar as suas dívidas e despesas está a aumentar rapidamente.

Insolvência pandémica

Isto torna a atual crise num monstro muito diferente da crise, principalmente de liquidez financeira, que começou no final de 2007. É claro que a última crise estava enraizada numa outra crise mais pequena de solvência entre os detentores de hipotecas subprime e vinculada a preços de petróleo extraordinariamente altos, mas agora o problema de solvência é ubíquo.

Desta vez a situação generalizada de insolvência criou as condições para uma resposta política radicalmente diferente da de 2008-2010. Em 2008, a liquidez congelou à medida que as empresas financeiras não se mostravam dispostas a emprestar e a investir. Agora, não importa quantos triliões de dólares da Reserva Federal dos EUA e de outros bancos centrais entram nesta economia febril; estes triliões não farão aparecer por magia as horas de trabalho que não estão a acontecer e os bens e serviços que não estão a ser produzidos e consumidos neste momento. Nas palavras de James Meadway: "não há quantia de dinheiro que possa simplesmente invocar produtos à existência".

Para entender esta crise de oferta e procura e, em última instância, de solvência, temos de olhar para os confinamentos, a escassez de trabalho deles resultante, e as debilidades pré-existentes da economia global.

Trabalho em quarentena

Os choques iniciais vieram dos confinamentos na China que afetaram as cadeias globais de mercadorias. Com gestão de última hora, as empresas não têm inventários que compensem interrupções temporárias de trabalho, sejam elas greves ou contágios em massa. Neste momento, um número crescente de cidades, regiões e países – incluindo a Índia, com 1,3 mil milhões de habitantes – estão a tentar fechar setores “não essenciais” da economia (como sempre, os mais pobres serão os menos capazes de encontrar segurança e, provavelmente, serão os que mais irão sofrer). As pessoas deixaram de ir a cafés, bares e restaurantes, cinemas, cruzeiros e férias. A maioria parou de voar. Os trabalhadores em quarentena ou em lay-off consomem menos e em breve estarão a lutar para pagar alugueres ou hipotecas.

Acima de tudo, as quarentenas, doenças e confinamentos estão a retirar uma grande massa de força de trabalho do mercado laboral. As greves sem aviso prévio de trabalhadores que não querem trabalhar em condições sanitárias perigosas aumentam esse número. Muitos estão a trabalhar desde casa, com os seus filhos, improdutivamente quando cuidam deles e dolorosamente quando os ignoram. O encerramento de fronteiras dificulta o comércio internacional e os fluxos de mão-de-obra migrante, a qual é essencial, em muitos países, para a produção de alimentos e para os setores da saúde e dos cuidados.

Em suma, a Covid-19 deu ao capitalismo global um choque de escassez de mão-de-obra que está a atingir a oferta e a procura simultaneamente. Os trabalhadores não podem trabalhar durante quarentenas e confinamentos e, por isso, as empresas não produzem e os trabalhadores, por sua vez, não consomem*. Os capitalistas e os trabalhadores estão a tornar-se insolventes simultaneamente. A crise do subprime de 2007-2008 foi extremamente reduzida em comparação com a crise generalizada da dívida que se abre no horizonte.

O resultado é a destruição de uma enorme quantidade de valor. A destruição do valor dos pagamentos de dívida será a primeira a ser sentida – enquanto que a depreciação dos stocks de capital e do “capital humano” se desenrolará de forma mais subtil – à medida que as linhas de produção acumulam poeira e ferrugem, e as rotinas e as competências atrofiam. Em suma, a insolvência pandémica sinaliza uma crise total da reprodução capitalista e social.

Maleitas prévias

Ao infetar a economia global, a Covid-19 encontrou uma vítima já enfraquecida. Assim, os efeitos do confinamento estão a ser extraordinariamente amplificados pelo declínio de já longo prazo das taxas de lucro e do crescimento económico. Além disso, a resposta autoimune da última crise – a injeção de crédito barato sem precedentes – criou um grande número de empresas zombie que só sobrevivem devido à substituição constante de dívida antiga por dívida nova. Nas próximas semanas e meses, inúmeras empresas serão incapazes de cumprir o pagamento das suas dívidas. Endividadas e emagrecidas, as empresas e os trabalhadores-consumidores há muito que não conseguem amortecer os efeitos da crise através da poupança. O sistema estava já vulnerável a choques.

De certa forma, a situação é análoga à crise do capitalismo pós-guerra que sofreu um golpe fatal na crise do petróleo de 1973, precisamente porque já estava enfraquecido pela queda das taxas de lucro e dívidas insustentáveis. Da mesma forma que essa crise prejudicou gravemente o prestígio e a utilidade do keynesianismo, a atual crise está a levar os políticos a procurar ferramentas que não constam no manual neoliberal, como aliás já haviam começado a fazer em 2008. A crise do neoliberalismo é mais óbvia quando olhamos para aqueles que o continuam a seguir, reafirmando a responsabilidade privada dos cuidados de saúde e, necropoliticamente, que continuam a forçar os trabalhadores a trabalhar sob o risco da morte em massa dos imunodeprimidos, dos já doentes e dos idosos.

Trabalha e deixa morrer

O último caminho foi parcialmente percorrido pela Itália, Reino Unido e EUA, que tentaram manter a produção industrial, apesar do confinamento, a fim de manter a economia a funcionar. Em Itália, a confederação de industriais, Confindustria, fez lobby para definir uma vasta gama de indústrias como “essencial” – incluindo call centers e a Sports Direct –, e o governo, a enfrentar a terceira maior dívida per capita do mundo e o crescente rendimento das obrigações, foi conivente até recentemente. Apenas depois de superar a China em número de mortos, e sob ameaças de greve na Fiat e boatos de uma greve geral organizado pelos sindicatos, a Itália começou a fechar a indústria.

O Reino Unido, por sua vez, enfrenta o Brexit e é liderado por um primeiro-ministro cuja preocupação com a vida não é muito maior do que a do Vice-rei da Índia em tempos de fome. Neste momento, a estratégia da imunidade de grupo e da aceitação estoica da pandemia foi substituída pelo relutante decretar do confinamento, depois de se tornar claro que linha de ação escolhida até então resultaria em centenas de milhar de mortes. Nos EUA, a incompetência geral de um império decadente está à vista de todos. Os confinamentos, geralmente iniciados pelas autoridades estaduais e não federais, ocorreram mais tarde do que na maioria dos outros países.

Até ao momento, o Reino Unido e os EUA estão numa trajetória que irá ultrapassar a Itália, tanto no número de contágios, como no número de mortes per capita. Estarão os trabalhadores daqueles países dispostos a sacrificar a sua saúde e a vida dos seus pais, avós, parentes e amigos vulneráveis pelo bem da economia? Os argumentos para tais pedidos mortais já estão a circular. "NÃO PODEMOS DEIXAR QUE A CURA SEJA PIOR DO QUE O PROBLEMA", tweetou Trump, enquanto Thomas Friedman perguntou no New York Times: "É a nossa luta contra o coronavírus pior do que a doença?" O exemplo mais frontal deste raciocínio veio do Tenente Governador do Texas, Dan Patrick, que disse aos telespectadores da Fox que os avós estariam dispostos a morrer para salvar a economia para os seus netos. (Se eles sacrificarão a sua riqueza para ajudar a salvar o planeta carece de confirmação.)

Este darwinismo social grosseiro tem sido aplicado desde há muito no Sul Global em defesa de programas de ajustamento estrutural que sacrificam os serviços de saúde pública em prol do crescimento económico (neste âmbito, o neoliberalismo nunca foi muito diferente do liberalismo clássico de Herbert Spencer e dos Holocaustos Vitorianos Tardios). Mas política e economicamente, é mais difícil para os governos aplicar o abandono necropolítico às suas próprias populações. Por maior que seja o desejo de evitar a escassez de mão-de-obra e uma crise de insolvência, parece não haver uma maneira politicamente aceitável de evitar o confinamento.

Romper o guião

O historiador Adam Tooze observou que a Covid-19 colocou a racionalidade económica em segundo plano à medida que os países paravam as economias em nome da saúde pública. Mas, igualmente importante, a pandemia está a reformular as nossas ideias sobre o que é a economia. À medida que os países do leste asiático suavizam as medidas de confinamento, é provável que os países que paralisaram as suas economias de forma mais resoluta tenham mais capacidade de enfrentar as tempestades económicas e epidemiológicas. Na pandemia, a biopolítica da saúde populacional sai-se melhor do que a necropolítica do abandono e do seguro de saúde privado, mesmo que não haja maneira de contornar a destruição de valor.

Além do mais, embora muitas das medidas económicas, como subsídios de doença e transferências diretas, possam parecer gastos em saúde pública para incentivar o cumprimento do confinamento, essas medidas são também projetadas para lidar com a insolvência pandémica. Portanto, estamos a ver moratórias de hipotecas e de despejos em Itália e no Reino Unido, e extensões extraordinárias de subsídios de doença na Irlanda. Nos EUA, os Democratas estão a adotar políticas anteriormente defendidas apenas pela ala esquerda do partido. Estas políticas têm como objetivo permitir que as pessoas cumpram as medidas de saúde pública, bem como sustentar a economia.

A crise renovou a importância das medidas de contingência inventadas para lidar com a última crise, tendo trazido também consigo novas medidas. Mais dramática é a política da Reserva Federal dos EUA, anunciada em 23 de março, de comprar quantidades ilimitadas de obrigações. Grandes somas são atiradas diretamente às empresas, trabalhadores e consumidores. O ícone neoliberal e presidente francês Emmanuel Macron ampliou significativamente os subsídios de desemprego e suspendeu o pagamento das contas de gás e eletricidade. Donald Trump brinca com uma renda básica de quarentena e o Reino Unido cobrirá até 80 por cento dos salários dos trabalhadores ameaçados de despedimento. Por mais benevolentes que sejam estas medidas, em comparação com o regime de austeridade da última década, o dinheiro envolvido será destinado principalmente para manter, à tona, empresas, proprietários e detentores de hipotecas.

Inundar os mercados com dinheiro enquanto a produção diminui pode parecer uma receita para a estagflação, mas uma década de inflação abaixo das metas deixou de lado esses temores. Estas medidas ignoram as obsessões neoliberais clássicas com a dívida pública e a inflação, expressando uma política de classe que não tem lealdade de base a nenhuma escola de pensamento ou modo de governança.

A lógica do que os governos agora são forçados a fazer não é apenas diferente, mas contrária a muito do que praticaram e apregoaram nas últimas décadas. Enquanto a gestão da crise após 2008 estava preocupada com a liquidez, a principal preocupação agora é a solvência. E essa generalização de resgates e “despejos de helicópteros” de dinheiro – por mais desiguais que sejam – gera uma crise muito diferente em termos políticos e morais.

Um novo terreno de luta

Em muitos países, os meios de comunicação e os partidos da oposição detiveram por agora as suas críticas aos governos, dando prioridade à unidade e à coordenação nacionais. No entanto, quando a crise começar a agravar-se e o confinamento se tornar economicamente insustentável, é certo que o conflito aumentará. Quem pagará os custos inevitáveis do confinamento e da crise que se seguirá? Serão bem-sucedidos os esforços para sacrificar as pessoas no altar do crescimento, e quantos trabalhadores serão voluntários para esse tratamento quando não puderem pagar as suas contas e a sua alimentação? Muito disto depende das políticas atualmente em vigor para lidar com a saúde pública e o agravamento da recessão.

A insolvência pandémica apresenta-nos um terreno de luta diferente do da imoralidade dos resgates bancários e austeridade com os quais estamos familiarizados, embora os resgates (mais flagrantemente de indústrias idiotas, como companhias aéreas e de gás de xisto) façam parte do acordo. Os governos estão a esforçar-se para encontrar maneiras de evitar o colapso económico e improvisam em cima do joelho.

Estas políticas ad-hoc são projetadas para serem de curto prazo, como o médico da medicina hipocrática cuja decisão (krino) age no ponto de inflexão (krisis) da saúde do paciente. No entanto, com toda a probabilidade, a Covid-19 não é um choque exógeno temporário. Com as debilidades económicas preexistentes e as falências e o desemprego em massa que começam a acontecer, uma rápida recuperação pode ser impossível. Se o paciente recuperar da Covid-19, encontrar-se-á numa posição muito mais enfraquecida.

E talvez a crise – a necessidade de decidir sobre questões de vida e de morte – não seja uma fase, mas a nossa condição. Muitos daqueles que se viram abandonados pelo Estado ou, ao invés, obtiveram de repente direitos que até então pertenciam ao domínio do impossível, podem recusar-se a voltar ao normal. A vida e a nossa consciência sobre ela mudaram. De facto, pode não haver um normal ao qual voltar, dada a escala da crise económica, política e social.

Sob tais condições, as medidas de curto prazo, como subsídios estatais a trabalho não lucrativo e novas medidas de vigilância e controlo, provavelmente persistirão para o bem ou para o mal. Mas o colapso económico pode tornar insustentáveis as respostas corporativas e o Leviatã é frequentemente inepto. O estado de exceção não é uma condição total ativada por um interruptor. A biopolítica também pode ser democrática. Ambos são contestados e dependem de capacidades institucionais, competência política e medidas de consentimento popular.

Em Espanha, onde o direito à habitação, os movimentos feministas e municipalistas cresceram massivamente na “grande recessão”, o estado de exceção decorreu de maneira bem diferente do de outros lugares. Por exemplo, em Barcelona, onde estou em quarentena, os hospitais particulares foram requisitados pelo governo PSOE/Podemos, os migrantes foram libertados de centros de detenção abarrotados e a cidade de Barcelona aboliu temporariamente os sem-abrigo, transformando o centro de convenções da cidade num espaço de convivência com casas de banho individuais, decidindo também requisitar mais de 200 apartamentos turísticos para receber vítimas de violência de género.

Subsistência ou saúde

A influência do trabalho aumentou com a sua escassez. Alguns trabalhadores foram oficialmente declarados essenciais: enfermeiros, médicos, assistentes sociais, trabalhadores de supermercados e centros logísticos, trabalhadores de limpezas, cantoneiros, etc. No norte de Itália e na Áustria, uma proporção grande dos cuidadores, muitos da Europa de Leste, que mantêm o setor dos cuidados a funcionar, tanto em lares de idosos como em residências particulares, foram para os seus países de origem e não é provável que voltem no futuro próximo. Agora Itália e Áustria estão a lutar – e a falhar – para encontrar trabalhadores e voluntários localmente (um esforço arriscado, dada a baixa capacidade de testar até trabalhadores que cuidam de pessoas vulneráveis). No Reino Unido, a escassez de pessoal médico, de limpezas e trabalhadores agrícolas, induzida pelo Brexit, ficou ainda mais exacerbada pelo vírus.

Tudo isto abre espaço para os sindicatos, movimentos sociais e a esquerda. Iniciativas de ajuda mútua estão a surgir, disseminando experiências e a ética da solidariedade, criando confiança e reformulando expectativas. Embora a capacidade material de organizar e protestar esteja severamente limitada pelas paralisações, as greves de trabalho e renda continuam a ser opções para muitos. As greves sem aviso prévio já varreram o norte da Itália e, nos EUA, o número de trabalhadores a parar tem aumentado.

Em breve, para muitos, a recusa de rendas ou trabalho não será uma questão de escolha, mas de necessidade. Se essas necessidades estiverem organizadas, podem tornar-se numa força poderosa diante de um sistema vulnerável e elites divididas entre abandonar o seu guião de política falhada ou redobrar a negligência assassina. Mas a janela de oportunidade é breve. Da mesma forma que muitos tipos de trabalho estão a ser reconhecidos como essenciais, uma grande massa de trabalhadores está prestes a ser lançada no desemprego.

Quando a realidade do desemprego assentar, os trabalhadores enfrentarão uma contradição entre a saúde e a subsistência. Se o momento não for aproveitado, o darwinismo social começará a ganhar apoio entre aqueles que podem ter pouca escolha a não ser trabalhar e tornar-se portadores da morte. O desafio dos sindicatos é agir agora, enquanto a gestão da crise da saúde e da economia exige políticas que suavizem a ameaça do desemprego e permitem que as pessoas estejam em quarentena.

Após a morte, purgatório ou paraíso

É provável que o coronavírus contagie a população mundial por um longo período, com grandes consequências humanas e económicas. A destruição de habitats e da vida selvagem e a pecuária industrial certamente trarão novas epidemias. As secas, inundações, incêndios, acidificação dos oceanos e o colapso de ecossistemas relacionado com o aquecimento global e com o extrativismo capitalista continuarão a aumentar a instabilidade do nosso mundo recentemente multipolar. Nestas condições, o planeamento da economia e da saúde pública torna-se mais premente e mais difícil.

Crises como estas exigem um Estado intervencionista para manter o sistema unido, ou para a ajuda mútua e solidariedade, particularmente entre pessoas abandonadas ou alvo do Estado. Em alguns países, a legitimidade da administração e do planeamento do Estado crescerá; noutros, a legitimidade política cairá vertiginosamente, levando não apenas ao aparecimento de redes de ajuda mútua, como também a tentativas de construir o poder dual.

Que paradigma económico – se algum – pode tornar-se dominante, não é claro. O prestígio do capitalismo de Estado ao estilo chinês está a crescer. Economistas keynesianos e da Teoria Monetária Moderna encontrarão empregos em altos cargos, e o socialismo-de-mercado-com-nacionalizações continuará a fortalecer a sua posição como doutrina económica dominante à esquerda.

No entanto, a insustentabilidade económica e ecológica do crescimento levantará questões difíceis sobre como distribuir ou redistribuir as perdas num mundo sem crescimento. O fascismo e o chauvinismo populista do bem-estar oferecerão a falsa segurança do nacionalismo do desastre, acumulação nacional e guerras por recursos. As propostas do decrescimento e de uma saída planeada e voluntária do crescimento económico continuarão a ganhar seguidores e as estratégias comunistas crescerão em importância à medida que os excedentes que podem ser divididos entre as classes concorrentes diminuem. O colapso ecológico e a ausência de crescimento colocarão questões que já se impõem no intenso isolamento do confinamento: quais são os prazeres da desaceleração, o que fazer com uma abundância de tempo e interdependência? E, acima de tudo, estreitará radicalmente o espaço para compromissos sociais e políticos.

A luta é inevitável. A questão é quem a organizará e como.

O que vai e pode acontecer varia, como sempre, com o contexto. Muito vai depender de como as crises económica, ecológica e de saúde pública se desdobram e se enlaçam. As relações políticas, organizacionais e de classe influenciam todos os assuntos, assim como a qualidade e a força das intervenções intelectuais. Por outras palavras, o resultado dos próximos anos dependerá em parte, e talvez em grande parte, do que faremos nos próximos meses.

* Agradeço a Nic Beuret por insistir na centralidade do problema da escassez de mão-de-obra para o capital nesta crise.

Bue Rübner Hansen é editor da Viewpoint magazine e investigadar, doutorado pela Universidade Queen Mary.

Texto publicado no Novaramedia em 26 de março. Traduzido por João Garcia Rodrigues para o esquerda.net.

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