Impunidade da banca

A ganância dos banqueiros esteve na origem da crise financeira, mas passados seis anos são os contribuintes que continuam a pagar os estragos. A banca ficou impune e continua a ditar a sua lei aos Estados, que impõem a austeridade para conseguir uma das maiores transferências de que há memória dos rendimentos do trabalho para o capital. Dossier organizado por Luís Branco.

05 de julho 2014 - 22:00
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"Esta crise das dívidas foi uma forma de resgatar o sistema financeiro que estava em crise desde 2008", afirma Paulo Pena, jornalista e autor de "Jogos de Poder", entrevistado para este dossier. O regime de promiscuidade entre a banca e a política e as semelhanças entre os casos do BES e do BCP são outros destaques desta entrevista. Para compreendermos como é que as ajudas públicas aos bancos não resultaram em mais crédito para a economia, o jurista José Castro leva-nos a descobrir como as poupanças dos depositantes têm sido destruídas pelos investimentos arriscados e os créditos a acionistas e respetivos amigos, com garantias sem valor.

A impunidade da banca à escala global é o tema de um artigo de Eric Toussaint, do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, enumerando alguns dos crimes financeiros que levaram sete gigantes da banca mundial ao banco dos réus. Nenhum banqueiro foi preso por isso, já que a regra do sistema é negociar multas para evitar condenações. Não admira por isso que ao ser recentemente aprovada uma diretiva europeia para dar transparência às estratégias da banca para fugir ao fisco nas margens da lei (a chamada "otimização fiscal agressiva"), a Comissão Barroso tenha nomeado a PricewaterhouseCoopers para estudar a viabilidade da dita diretiva. Trata-se da empresa responsável por organizar essa "fuga legal ao fisco" por parte de muitos bancos...

Sobre a impunidade da banca e a responsabilidade do sistema financeiro na atual crise, recomendamos quatro documentários disponíveis no Youtube. Apenas um deles não tem legendas ou dobragem em português - o recém-lançado "€uro€stafa", de Guillermo Cruz, mostra a crise como resultado de políticas monetárias perversas antes da chegada do euro, seguindo uma cronologia inversa de hoje até 1993, quando a UE decidiu ter uma moeda única. "Quando a Europa salva os bancos, quem paga?" é um documentário lançado em 2013 no canal Arte por Árpád Blondy e Harald Schumman, que veio agora a Portugal preparar o próximo documentário mas viu todas as portas do Governo fecharem-se. Castastroika, de Aris Chatzistefanou e Katerina Kitidi, tornou-se um sucesso de downloads dentro e fora da Grécia, com o seu relato avassalador sobre o impacto da privatização massiva de bens públicos e da ideologia neoliberal da troika. Por fim, o mais popular Inside Job, o filme vencedor do Óscar para Melhor Documentário em 2011 que mostra as causas do crash financeiro de 2008 e os responsáveis pela maior crise desde a Grande Depressão de 1929.

Como era inevitável no atual momento, a crise no Grupo Espírito Santo assume também lugar de destaque neste dossier: Francisco Louçã chama-a "um tsunami que começou numa guerra de família"; Adriano Campos faz a análise da rede de influência montada pelo banco nos órgãos de decisão política nos últimos 30 anos; e Jorge Costa, autor de "Os Donos Angolanos de Portugal", explica porque é que o BES Angola é um afro-BPN.

Por fim, recuperamos artigos do esquerda.net publicados noutras ocasiões, como no dossier "Dez escândalos pagos pelos contribuintes": O assalto laranja sobre o BPN conta a história do banco fundado e afundado por ex-governantes do PSD; os negócios angolanos da Galilei mostram como a antiga SLN continua a dar cartas no imobiliário e até no petróleo; o caso dos offshores do BCP, que prometia também acabar com multas, vai a caminho da total prescrição; ou o caso do BPP, arruinado pela má gestão e também suportado pelos contribuintes, que continua a percorrer os longos caminhos da justiça portuguesa para este tipo de crimes.

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