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Desde 2006, Egipto vive a maior e mais sustentada onda grevista

Hossam el-Hamalawy, jornalista e blogger do site 3arabawy, foi entrevistado no início da mobilização por Mark LeVine, professor da Universidade da Califórnia. Na entrevista, Hossam destaca o papelda juventude e do movimento sindical nos protestos e a importância da criação recente de sindicatos independentes.
Hossam el-Hamalawy, jornalista e blogger do site 3arabawy

Por que foi necessária uma revolução na Tunísia para levar os egípcios às ruas numa quantidade sem precedentes?

No Egipto dizemos que a Tunísia foi mais um catalisador que um instigador, porque as condições objectivas para um levantamento existiam no país e durante os últimos anos a revolta estava no ar. Já tivemos duas mini-intifadas, ou “mini-Tunísias” em 2008. A primeira foi um levantamento em abril de 2008 em Mahalla, seguido por outro em Borollos, no norte do país.

As revoluções não surgem do nada. Não temos mecanicamente uma amanhã no Egipto porque ontem ocorreu uma na Tunísia. Não é possível isolar esses protestos dos quatro últimos anos de greves de trabalhadores no Egipto ou de eventos internacionais como a intifada al-Aqsa e a invasão do Iraque pelos EUA. A eclosão da intifada al-Aqsa foi especialmente importante porque nos anos 80 e 90 o activismo nas ruas havia sido efectivamente impedido pelo governo como parte da luta contra insurgentes islâmicos. Só continuou a existir nos campus universitários ou nas centrais dos partidos. Mas quando estourou a intifada em 2000 e a Al Jazeera começou a transmitir as suas imagens, isso inspirou a nossa juventude a tomar as ruas, da mesma maneira que hoje a Tunísia nos inspira.

Como se desenvolvem os protestos?

É muito cedo para dizer como se desenvolveram. É um milagre que continuaram ontem depois da meia noite, apesar do medo e da repressão. A situação chegou a um ponto em que todos estão fartos, seriamente fartos. E mesmo que as forças de segurança consigam esmagar os protestos hoje, não poderão esmagar os que ocorrerão na próxima semana, no próximo mês ou, mais adiante, durante este ano. Definitivamente há uma mudança no grau de coragem do povo. O Estado usou a desculpa do combate ao terrorismo nos anos 90 para acabar com todo tipo de dissensão no país, um truque utilizado por todos os governos, incluindo os EUA. Mas uma vez que a oposição formal a um regime passa das armas a protestos massivos, é muito difícil enfrentar. Pode-se planear a liquidação de um grupo de terroristas que combate nos canaviais. Mas o que vão fazer diante de milhares de manifestantes nas ruas? Não podem matar todos. Nem sequer podem garantir que os soldados o façam, que disparem contra os pobres.

Qual a relação entre eventos regionais e locais neste país?

É preciso entender que o regional é local no Egipto. No ano de 2000, os protestos não começaram como protestos contra o regime, mas sim contra Israel e em apoio aos palestinianos. O mesmo ocorreu com a invasão dos EUA no Iraque três anos depois. Mas uma vez que se sai para as ruas e se enfrenta a violência do regime, a pessoa começa a fazer-se perguntas: por que Mubarak envia soldados para enfrentar os manifestantes ao invés de enfrentar Israel? Por que exporta cimento para Israel, que o utiliza na construção de colonatos, ao invés de ajudar os palestinianos. Por que a política é tão brutal connosco quando só tratamos de expressar a nossa solidariedade com os palestinianos de maneira pacífica? E assim os problemas regionais como Israel e Iraque passaram a ser temas locais. E, em poucos instantes, os manifestantes que cantavam slogans em favor dos palestinianos começaram a fazê-lo contra Mubarak. O momento decisivo, em termos de protestos, foi em 2004, quando a dissensão se tornou interior.

Na Tunísia, os sindicatos desempenharam um papel crucial na revolução, já que a sua ampla e disciplinada organização assegurou que os protestos não fossem sufocados facilmente. Qual o papel do movimento dos trabalhadores do Egipto no actual levantamento?

O movimento sindical egípcio foi bastante atacado nos anos oitenta e noventa pela polícia, que utilizou munição de guerra contra grevistas pacíficos em 1989 durante greves nas fábricas siderúrgicas e, em 1994, nas greves das fábricas têxteis. Mas, desde Dezembro de 2006, o nosso país vive continuamente as maiores e mais sustentadas ondas de acções grevistas desde 1946, detonadas por greves na indústria têxtil na cidade de Mahalla, no delta do Nilo, centro da maior força laboral do Oriente Médio, com mais de 28 mil trabalhadores. Começou por temas laborais, mas estendeu-se a todos os sectores da sociedade com excepção da polícia e das forças armadas.

Como resultado dessas greves, conseguimos obter dois sindicatos independentes, os primeiros de sua classe desde 1957, o dos cobradores de contribuições de bens imóveis, que inclui mais de 40 mil funcionários públicos, e o dos técnicos de saúde, mais de 30 mil dos quais lançaram mês passado um sindicato independente dos controladas pelo Estado.

Mas é verdade que há uma diferença importante entre nós e a Tunísia. Ainda que fosse uma ditadura, a Tunísia tinha uma federação sindical semi-independente. Mesmo que a sua direcção colaborasse com o regime, os seus membros eram sindicalistas militantes. De modo que, quando chegou a hora das greves gerais, os sindicatos puderam unir-se. Mas aqui no Egipto tempos um vazio que pretendemos preencher rapidamente. Os sindicalistas independentes foram alvo de uma caça às bruxas desde que trataram de se estabelecer; já há processos iniciados contra eles pelos sindicatos estatais e apoiados pelo Estado, mas eles continuam a fortalecer-se apesar das continuadas tentativas de silenciá-los.

É certo que, nos últimos dias, a repressão foi dirigida contra os manifestantes nas ruas, que não são necessariamente sindicalistas. Esses protestos reuniram um amplo espectro de egípcios, incluindo filhos e filhas da elite. De modo que temos uma combinação de pobres e jovens das cidades junto com a classe média e os filhos filhas da elite. Penso que Mubarak conseguiu agrupar todos os sectores da sociedade com excepção de seu círculo íntimo de cúmplices.

A revolução tunisina foi descrita como fortemente liderada pela juventude e dependente para o seu êxito da tecnologia das redes sociais como Facebook e Twitter. E agora as pessoas concentram-se em torno da juventude no Egipto como um catalisador importante. Trata-se de uma “intifada juvenil” e poderia ocorrer sem o Facebook e outras novas tecnologias?

Sim, é uma intifada juvenil na rua. A Internet desempenha um papel na difusão da palavra e das imagens do que ocorre no terreno. Não utilizamos a Internet para nos organizar. Utilizamo-la para divulgar o que estamos a fazer nas ruas com a esperança de que outros participem da acção.

Como deve ter ouvido, nos EUA, o apresentador de programas de entrevistas Glenn Beck atacou uma académica, Frances Fox Piven, por um artigo que ela escreveu chamando os desempregados a realizar protestos massivos por empregos. Ela recebeu inclusive ameaças de morte, algumas de pessoas sem trabalho que parecem mais felizes fantasiando sobre usar uma das suas numerosas armas do que lutando realmente pelos seus direitos.

É surpreendente pensar no papel crucial dos sindicatos no mundo árabe actual, tendo em conta as mais de duas décadas de regimes neoliberais em toda a região, cujo objectivo primordial é destruir a solidariedade da classe trabalhadora. Por que os sindicatos continuaram a ser tão importantes?

Os sindicatos sempre são o remédio mágico contra qualquer ditadura. Olhe a Polónia, a Coreia do Sul, a América Latina ou a Tunísia. Os sindicatos sempre foram úteis para a mobilização das massas. Faz falta uma greve geral para derrotar uma ditadura, e hoje não há nada melhor que um sindicato independente para fazê-lo.

Há um programa ideológico mais amplo por trás dos protestos, ou o objectivo é mesmo livrar-se de Mubarak?

Cada um tem suas razões para sair às ruas, mas eu suponho que se o nosso levante tiver êxito e derrubarmos Mubarak vão aparecer divisões. Os pobres querem impulsionar a revolução para uma posição muito mais radical, impulsionar a redistribuição radical da riqueza e combater a corrupção, enquanto que os chamados reformistas querem colocar freios, pressionar mais ou menos por mudanças “desde cima” e limitar um pouco os poderes, mas mantendo alguma essência do Estado actual.

Qual é o papel da Irmandade Muçulmana e como influencia o cenário actual o fato de ter permanecido até aqui distante dos actuais protestos?

A Irmandade sofreu divisões desde a eclosão da intifada al-Aqsa. Sua participação no Movimento de Solidariedade à Palestina quando se enfrentou com o regime foi desastrosa. Basicamente, cada vez que os seus dirigentes chegam a um compromisso com o regime, especialmente os acólitos do actual guia supremo, desmoralizam os seus quadros da base. Conheço pessoalmente vários jovens que abandonaram o grupo. Alguns deles uniram-se a outros grupos, outros continuam independentes. À medida que cresce o actual movimento de rua e os militantes da base participam, haverá mais divisões porque a direcção superior não pode justificar por que não toma parte deste novo levante.

[N.T. Na segunda-feira 31 de Janeiro, a Irmandade Muçulmana divulgou um comunicado rejeitando o novo governo e pedindo que prossigam as manifestações para a queda do regime do presidente Hosni Mubarak]

Qual o papel dos EUA neste conflito? Como as pessoas na rua avaliam suas posições?

Mubarak é o segundo maior beneficiário da ajuda externa dos EUA, depois de Israel. Ele é conhecido como o capanga dos EUA na região; é um dos instrumentos da política externa dos EUA, que implementa o seu programa de segurança para Israel e assegura o fluxo sem problemas do petróleo enquanto mantém os palestinianos confinados. De modo que não é nenhum segredo que esta ditadura goza do respaldo de governos dos EUA desde o primeiro dia, inclusive durante a enganosa retórica em favor da democracia protagonizada por Bush. Por isso, não há surpresa diante das risíveis declarações de Clinton, que mais ou menos defendiam o regime de Mubarak, já que um dos pilares da política externa dos EUA é manter regimes estáveis à custa da liberdade e dos direitos civis.

Não esperamos nada de Obama, a quem consideramos um grande hipócrita. Mas esperamos que o povo dos EUA – sindicatos, associações de professores, uniões estudantis, grupos de activistas – se pronunciem em nosso apoio. O que queremos é que o governo dos EUA se mantenha completamente fora do assunto. Não queremos nenhum tipo de apoio, simplesmente que corte imediatamente a ajuda a Mubarak e lhe retire o apoio, e também que se retire de todas as bases do Médio Oriente e deixe de apoiar o Estado de Israel.

(*) Mark LeVine é professor de história na universidade da Califórnia Irvine e pesquisador visitante sênior no Centro de Estudos do Oriente Médio na Universidade Lund, na Suécia. Seus livros mais recentes são Heavy Metal Islam (Random House) e Impossible Peace: Israel/Palestine Since 1989 (Zed Books).

Fonte: Al Jazira

Traduzido do inglês para o Rebelión por Germán Leyens

Traduzido do espanhol para a Carta Maior por Marco Aurélio Weissheimer

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