Maria J. Paixão

Maria J. Paixão

Professora universitária. Deputada municipal do Bloco em Coimbra.

A elite americana escolheu salvar o capitalismo fóssil de que depende a sua posição imperialista, deixando extinguir o que restava da democracia interna. Pelo caminho, povos inteiros são massacrados com as mais variadas formas de agressão.

Muito do quadro geopolítico atual pode ser compreendido a partir da doutrina do choque. A Administração Trump está empenhada em criar uma espécie de estado de choque global capaz de viabilizar o fascismo em casa e a pilhagem além fronteiras.

O acelerado processo de disrupção do sistema climático em curso provocará, como insistentemente vem alertando a comunidade científica internacional, não só a multiplicação dos fenómenos climáticos extremos, mas também o exacerbamento de tais fenómenos.

Esta nova apresentação do mal, que já não é a fachada liberal do passado, exige a concomitante reorganização de todas as forças políticas e sociais que se batem pela emancipação dos povos e pela dignidade. É hora de recusar debater no campo dos agressores disfarçados de cavalheiros.

Uma primeira lição que a COP30 oferece é a progressiva irrelevância, nos planos geopolítico e mediático, da emergência climática. Sobretudo após o Acordo de Paris, celebrado em 2015, e na sequência do crescimento do movimento climático alavancado pelas greves estudantis com auge em 2019. 

Está em curso a aprovação de legislação securitária e xenófoba e uma reforma laboral altamente regressiva; ao mesmo tempo que se multiplicam as sugestões de deixar implodir o SNS e a escola pública, cenário ideal para, de seguida, apresentar a privatização como bala de prata. 

Perante o vil posicionamento do governo português em relação ao genocídio na Palestina, o embarque da Sofia, da Mariana e do Miguel na Flotilha Sumud é, a dois tempos, um ato corajoso e um ato redentor.

Os incêndios florestais que assolam o país todos os anos não são uma tragédia; são, isso sim, a consequência inevitável de um território abandonado sujeito a um clima cada vez mais hostil.

Aquilo a que assistimos no Ocidente é ao desmantelamento das estruturas axiais da ordem global dos últimos trinta anos, levado a cabo, ironicamente, pelos seus principais arautos. Assim se compreende a oposição militante da Administração Trump à ordem económica global.

Não deixa de ser curioso que, enquanto se discutem medidas de contenção do uso dos telemóveis nas escolas, se planeie a digitalização extensiva do ensino.