Em 1963, Hannah Arendt publicava uma versão compilada do relato jornalístico que, ao longo do ano, havia publicado no The New Yorker. As quatro peças de Arendt relatavam o julgamento de Adolf Eichmann, líder nazi encontrado na Argentina pela Mossad e julgado, em Jerusalém, por um tribunal especial israelita. A obra de Arendt, intitulada “Eichmann em Jerusalém”, vinha à estampa com o curioso subtítulo “Uma reportagem sobre a banalidade do mal”. Embora nunca referindo a célebre expressão ao longo do relato, através da apreciação que foi fazendo do caráter e da defesa apresentada por Eichmann, Arendt desconstruiu o mito do mal patológico e inumano. Eichmann era, afinal, um homem banal que cometeu atrocidades inqualificáveis. Além desta conclusão, que, por si só, já lhe teria valido a polémica e a indignação pública, Arendt debruçou-se ainda sobre outros aspetos controvertidos: desde o caráter encenado do julgamento, cuja legalidade questionou abertamente, até ao colaboracionismo judeu durante o Holocausto. A celeuma em torno do livro cresceu prontamente, com Arendt a ser acusada de “culpar a vítima” e, claro, de ser uma “judia que odeia judeus”, sobretudo em virtude dos seus comentários cáusticos sobre as autoridades sionistas.
Independentemente dos juízos que possam tecer-se sobre as considerações e a visão de Arendt, a descrição que ‘Eichmann em Jerusalém’ apresenta do próprio Eichmann, da sociedade alemã durante o Terceiro Reich e do funcionamento do tribunal israelita encapsula o espírito do séc. XX em termos que merecem atenção detida. O mal era, de facto, banal; tal como foi com inconsequente banalidade que as sociedades ocidentais se reestabeleceram no rescaldo do horror.
A lisura e a polidez foram, ao longo do século passado, as fachadas exemplares da barbárie. As mais bem formadas e culturalmente instruídas elites europeias e americanas ouviam Bach e Mozart, discutiam literatura e filosofia e organizavam tertúlias majestosas enquanto lá fora os inocentes eram chacinados e os filhos dos operários se matavam em combate. E tudo isto envolvido em elaboradas doutrinas intelectuais justificativas das mais vis atrocidades. Depois do armistício ter vindo poupar a parca humanidade que ainda subsistia no continente europeu, a maior parte dessas pessoas cultas e eloquentes manteve-se a fazer o que fazia melhor: apresentar um ar impoluto enquanto encaminha os povos para a destruição mútua. As narrativas sobre a pureza da raça ou o patriotismo ético foram substituídas pela grande narrativa sobre a superioridade dos valores ocidentais. Afinal, foram esses valores que, polidamente, as armas levaram, à força, até à América Latina, ao Sudeste Asiático, ao Médio Oriente…
O que os últimos anos têm trazido de novo não é, portanto, a violação inaudita de uma ordem de direito e justiça que existiu outrora. A fachada imaculada das proclamações solenes em cartas de direitos humanos e da alegada amizade entre as nações continuou a dissimular a desordem e o horror. Na periferia do sistema mundial, para os povos secularmente massacrados, o humanismo ocidental continuou a representar uma forma de hegemonia sangrenta. O que a aceleração destrutiva dos últimos anos nos trouxe de novo foi, isso sim, a postergação definitiva da polidez das elites mundiais. De Netanyahu a Trump, o que nos choca não são as políticas, é o tom. Nenhum destes novos senhores da guerra tem pejo em declarar, pública e abertamente, os seus intentos – operar uma limpeza étnica na Palestina ou açambarcar os recursos dos territórios estrangeiros.
O mal tornou-se, portanto, honesto, além de banal. Não é que a agressão ao território venezuelano e o sequestro do seu chefe de Estado sejam uma singularidade da Administração Trump. Basta pensar no longo historial de intervenções estadunidenses durante as décadas de 60 e 70 do século passado, da Indonésia ao Chile, ou nas mais recentes incursões no Afeganistão e no Iraque. A grande singularidade do cenário que se tem desenrolado perante os nossos olhos nos últimos dias é o facto de Trump ser um bruto orgulhoso da sua desfaçatez. Não tentou mascarar o objetivo da intervenção na Venezuela apelando a uma qualquer retórica etérea sobre direitos humanos, ditaduras e a grande supremacia moral da civilização ocidental. Disse, simplesmente, ao que ia: petróleo.
Esta nova apresentação do mal, que já não é a fachada liberal do passado, exige a concomitante reorganização de todas as forças políticas e sociais que se batem pela emancipação dos povos e pela dignidade. É hora de recusar debater no campo dos agressores disfarçados de cavalheiros. Perante o genocídio em Gaza, continua a pairar petulantemente nos setores que se auto-qualificam como moderados a pergunta: “mas condenam o Hamas?”. E agora, numa versão requentada, perante a tomada de uma nação soberana por um governo estrangeiro, o emissário máximo da moderação hipócrita, Paulo Rangel, ousou devolver aos jornalistas a pergunta sobre a ilicitude internacional da atuação da Administração Trump com a congénere questão: “mas não condenam o regime de Maduro?”.
O erro fatal da classe política europeia, que a condena à irrelevância, é pensar que ainda está no século passado, a fingir sobriedade, sensatez e superioridade civilizacional. Enquanto Trump repete, para que não haja dúvidas, que está na Venezuela para se servir do petróleo (e que fará o mesmo na Gronelândia), Rangel e Montenegro envergonham-nos falando em direitos humanos e democracia, numa tentativa ridícula de legitimar o ilegitimável. Entre a perversidade declarada de Trump e a polidez fingida de Rangel, a lição para as forças progressistas é clara: as últimas décadas em que nos deixámos ser capturados pelo debate da moderação e da virtude encenadas foram as décadas em que os brutos de extrema-direita aproveitaram para ocupar o lugar do combate, apostando na honestidade crua de que as pessoas estão sedentas.
Nestes novos tempos, cada discussão sobre o regime de Maduro em que nos deixamos enredar, é menos uma oportunidade de afirmar a defesa resoluta e incondicional da soberania e autodeterminação dos povos. Sem ‘mas’ e, certamente, sem falsas equivalências morais. Perante a honestidade do mal, a assertividade é um imperativo ético. Continuar a aceitar discutir, no campo dos condicionalismos falsamente legitimantes, com aqueles que ainda insistem na hipocrisia respeitável, implica deixar os déspotas a falar sozinhos.
Em certa medida, o mal é hoje mais banal do que nunca, porque é honesto. Não iremos combatê-lo em cima do muro, a tentar não ferir suscetibilidades e a manter a compostura. À exceção de uma elite política europeia decrépita e desacreditada, todos admitem que esse jogo está mais do que esgotado. Não deixemos que nos encurralem nos ‘mas’ e nas ‘condenações’ bacocas. Seguindo o exemplo de Arendt, tenhamos coragem para assumir uma posição de força sem pedir desculpa, contrapondo a integridade à maldada desvariada.