A honestidade do mal

porMaria J. Paixão

14 de janeiro 2026 - 14:31
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Esta nova apresentação do mal, que já não é a fachada liberal do passado, exige a concomitante reorganização de todas as forças políticas e sociais que se batem pela emancipação dos povos e pela dignidade. É hora de recusar debater no campo dos agressores disfarçados de cavalheiros.

Em 1963, Hannah Arendt publicava uma versão compilada do relato jornalístico que, ao longo do ano, havia publicado no The New Yorker. As quatro peças de Arendt relatavam o julgamento de Adolf Eichmann, líder nazi encontrado na Argentina pela Mossad e julgado, em Jerusalém, por um tribunal especial israelita. A obra de Arendt, intitulada “Eichmann em Jerusalém”, vinha à estampa com o curioso subtítulo “Uma reportagem sobre a banalidade do mal”. Embora nunca referindo a célebre expressão ao longo do relato, através da apreciação que foi fazendo do caráter e da defesa apresentada por Eichmann, Arendt desconstruiu o mito do mal patológico e inumano. Eichmann era, afinal, um homem banal que cometeu atrocidades inqualificáveis. Além desta conclusão, que, por si só, já lhe teria valido a polémica e a indignação pública, Arendt debruçou-se ainda sobre outros aspetos controvertidos: desde o caráter encenado do julgamento, cuja legalidade questionou abertamente, até ao colaboracionismo judeu durante o Holocausto. A celeuma em torno do livro cresceu prontamente, com Arendt a ser acusada de “culpar a vítima” e, claro, de ser uma “judia que odeia judeus”, sobretudo em virtude dos seus comentários cáusticos sobre as autoridades sionistas.

Independentemente dos juízos que possam tecer-se sobre as considerações e a visão de Arendt, a descrição que ‘Eichmann em Jerusalém’ apresenta do próprio Eichmann, da sociedade alemã durante o Terceiro Reich e do funcionamento do tribunal israelita encapsula o espírito do séc. XX em termos que merecem atenção detida. O mal era, de facto, banal; tal como foi com inconsequente banalidade que as sociedades ocidentais se reestabeleceram no rescaldo do horror.

A lisura e a polidez foram, ao longo do século passado, as fachadas exemplares da barbárie. As mais bem formadas e culturalmente instruídas elites europeias e americanas ouviam Bach e Mozart, discutiam literatura e filosofia e organizavam tertúlias majestosas enquanto lá fora os inocentes eram chacinados e os filhos dos operários se matavam em combate. E tudo isto envolvido em elaboradas doutrinas intelectuais justificativas das mais vis atrocidades. Depois do armistício ter vindo poupar a parca humanidade que ainda subsistia no continente europeu, a maior parte dessas pessoas cultas e eloquentes manteve-se a fazer o que fazia melhor: apresentar um ar impoluto enquanto encaminha os povos para a destruição mútua. As narrativas sobre a pureza da raça ou o patriotismo ético foram substituídas pela grande narrativa sobre a superioridade dos valores ocidentais. Afinal, foram esses valores que, polidamente, as armas levaram, à força, até à América Latina, ao Sudeste Asiático, ao Médio Oriente…

O que os últimos anos têm trazido de novo não é, portanto, a violação inaudita de uma ordem de direito e justiça que existiu outrora. A fachada imaculada das proclamações solenes em cartas de direitos humanos e da alegada amizade entre as nações continuou a dissimular a desordem e o horror. Na periferia do sistema mundial, para os povos secularmente massacrados, o humanismo ocidental continuou a representar uma forma de hegemonia sangrenta. O que a aceleração destrutiva dos últimos anos nos trouxe de novo foi, isso sim, a postergação definitiva da polidez das elites mundiais. De Netanyahu a Trump, o que nos choca não são as políticas, é o tom. Nenhum destes novos senhores da guerra tem pejo em declarar, pública e abertamente, os seus intentos – operar uma limpeza étnica na Palestina ou açambarcar os recursos dos territórios estrangeiros.

O mal tornou-se, portanto, honesto, além de banal. Não é que a agressão ao território venezuelano e o sequestro do seu chefe de Estado sejam uma singularidade da Administração Trump. Basta pensar no longo historial de intervenções estadunidenses durante as décadas de 60 e 70 do século passado, da Indonésia ao Chile, ou nas mais recentes incursões no Afeganistão e no Iraque. A grande singularidade do cenário que se tem desenrolado perante os nossos olhos nos últimos dias é o facto de Trump ser um bruto orgulhoso da sua desfaçatez. Não tentou mascarar o objetivo da intervenção na Venezuela apelando a uma qualquer retórica etérea sobre direitos humanos, ditaduras e a grande supremacia moral da civilização ocidental. Disse, simplesmente, ao que ia: petróleo.

Esta nova apresentação do mal, que já não é a fachada liberal do passado, exige a concomitante reorganização de todas as forças políticas e sociais que se batem pela emancipação dos povos e pela dignidade. É hora de recusar debater no campo dos agressores disfarçados de cavalheiros. Perante o genocídio em Gaza, continua a pairar petulantemente nos setores que se auto-qualificam como moderados a pergunta: “mas condenam o Hamas?”. E agora, numa versão requentada, perante a tomada de uma nação soberana por um governo estrangeiro, o emissário máximo da moderação hipócrita, Paulo Rangel, ousou devolver aos jornalistas a pergunta sobre a ilicitude internacional da atuação da Administração Trump com a congénere questão: “mas não condenam o regime de Maduro?”.

O erro fatal da classe política europeia, que a condena à irrelevância, é pensar que ainda está no século passado, a fingir sobriedade, sensatez e superioridade civilizacional. Enquanto Trump repete, para que não haja dúvidas, que está na Venezuela para se servir do petróleo (e que fará o mesmo na Gronelândia), Rangel e Montenegro envergonham-nos falando em direitos humanos e democracia, numa tentativa ridícula de legitimar o ilegitimável. Entre a perversidade declarada de Trump e a polidez fingida de Rangel, a lição para as forças progressistas é clara: as últimas décadas em que nos deixámos ser capturados pelo debate da moderação e da virtude encenadas foram as décadas em que os brutos de extrema-direita aproveitaram para ocupar o lugar do combate, apostando na honestidade crua de que as pessoas estão sedentas.

Nestes novos tempos, cada discussão sobre o regime de Maduro em que nos deixamos enredar, é menos uma oportunidade de afirmar a defesa resoluta e incondicional da soberania e autodeterminação dos povos. Sem ‘mas’ e, certamente, sem falsas equivalências morais. Perante a honestidade do mal, a assertividade é um imperativo ético. Continuar a aceitar discutir, no campo dos condicionalismos falsamente legitimantes, com aqueles que ainda insistem na hipocrisia respeitável, implica deixar os déspotas a falar sozinhos.

Em certa medida, o mal é hoje mais banal do que nunca, porque é honesto. Não iremos combatê-lo em cima do muro, a tentar não ferir suscetibilidades e a manter a compostura. À exceção de uma elite política europeia decrépita e desacreditada, todos admitem que esse jogo está mais do que esgotado. Não deixemos que nos encurralem nos ‘mas’ e nas ‘condenações’ bacocas. Seguindo o exemplo de Arendt, tenhamos coragem para assumir uma posição de força sem pedir desculpa, contrapondo a integridade à maldada desvariada.

Maria J. Paixão
Sobre o/a autor(a)

Maria J. Paixão

Professora universitária. Deputada municipal do Bloco em Coimbra.
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