A economia política do choque

porMaria J. Paixão

20 de março 2026 - 14:23
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Muito do quadro geopolítico atual pode ser compreendido a partir da doutrina do choque. A Administração Trump está empenhada em criar uma espécie de estado de choque global capaz de viabilizar o fascismo em casa e a pilhagem além fronteiras.

Em 2007, depois de décadas de investigação, Naomi Klein publicou a “Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo de Desastre”, na qual estabelece um paralelismo entre a terapia electroconvulsiva e o tipo de intervenção socioeconómica associado ao “capitalismo de desastre”.

A narrativa começa por revisitar as experiências médicas de Donald Ewen Cameron, um dos psiquiatras envolvidos no projeto secreto da CIA ‘MKUltra’, destinado a desenvolver técnicas de controlo psíquico e de tortura física e psicológica. Os manuais da CIA desenvolvidos com base nas investigações de Cameron explicavam como quebrar a resistência dos prisioneiros e forçá-los a fazer concessões que não fariam de outra forma: o sujeito que é colocado numa situação extrema de choque e desorientação sofre uma temporária rutura psíquica que lhe retira a capacidade de se autocompreender e de compreender o mundo em seu redor; e durante esse estado de choque transitório, torna-se muito mais permeável à sugestão e à obediência.

Duas décadas depois do início do aberrante MKUltra, Milton Friedman viria a desenhar e implementar um tipo de intervenção económica que mimetizava, precisamente, os ensinamentos de Cameron: uma “terapia de choque económica”. Segundo Friedman, a ocorrência de uma crise profunda, geradora de caos e desorientação, abre uma janela de oportunidade para a implementação de programas de transformação radical da estrutura económica de um país. Nas palavras do próprio, em momentos de rutura social, o “politicamente impossível torna-se politicamente inevitável”. O trauma coletivo seria, portanto, o facilitador fundamental da engenharia socioeconómica.

Ao longo do livro, Klein procura demonstrar que a história das mais recentes décadas do capitalismo é uma história de sucessivos choques, sem os quais a imposição do neoliberalismo como ideologia hegemónica não teria sido possível. O laboratório da doutrina de Friedman foi, claro, o Chile de Pinochet, onde a conjugação entre a violência assassina e a implementação de um radical programa de liberalização da economia foi mais explícita. Todavia, com o decurso do tempo, às experiências mais brutais (onde, certamente, se incluem as ditaduras sul-americanas da década de setenta, as invasões estadunidenses do Iraque e a economia genocida de Israel), vieram juntar-se outras modalidades de implementação da doutrina do choque, que, em vez de recorrer a formas extremas de violência física, alavancam outro tipo de eventos disruptivos para inculcar agressivos programas de transformação social e económica. Paradigmáticos desta versão da doutrina do choque são, desde logo, as intervenções do FMI e do Banco Mundial nos países da Periferia, os programas neocoloniais e segregacionistas de resposta a eventos climáticos extremos e as políticas de austeridade implementadas no Centro.

Ora, depois desta síntese breve, não será surpreendente afirmar que muito do quadro geopolítico atual pode ser compreendido a partir da doutrina do choque. Os mais recentes capítulos da acelerada decomposição da ordem internacional são, aliás, especialmente cristalinos a esse respeito: das tarifas alfandegárias ao sequestro de Maduro, passando pelo bloqueio criminoso a Cuba e pela guerra ilegal ao Irão, a Administração Trump está empenhada em criar uma espécie de estado de choque global capaz de viabilizar o fascismo em casa e a pilhagem além fronteiras. Isto enquanto desvia as atenções do caso Epstein e do seu próprio fracasso em entregar ao povo americano a re-industrialização prometida. O horizonte de navegação é claro: tornar o “politicamente impossível” em “politicamente inevitável”, com o auxílio indispensável do complexo militar-industrial. Depois da glória do neoliberalismo globalista na década de noventa, a doutrina do choque tem continuado a servir projetos de radical transformação social que, embora assumam roupagens diversas (mais ou menos conservadoras ou libertárias), partilham a mesma essência – garantir condições para a contínua e exponencial acumulação capitalista.

A economia política do capitalismo neofeudal só pode ser a economia política do choque

Afastando-nos ligeiramente do quadro histórico-cultural que Klein tomou como referência, compreendemos que o choque, enquanto tecnologia de engenharia social, é hoje mais do que uma estratégia ao serviço da agenda neoliberal. Num mundo em que a estabilidade e a ordem são conceitos do passado, o choque é o novo normal. A economia política do capitalismo neofeudal só pode ser a economia política do choque.

Numa era pós-industrial, de mercantilização total, incluindo das relações humanas e dos bens imateriais, em que o sistema planetário começa a entrar em rutura, a dinâmica expansiva do Capital entra em processo de asfixia. Só o choque permanente pode alimentar um sistema moribundo.

Refrações da doutrina do choque podem, por isso, ser encontradas por todo o lado, desde o nível mais macro até ao nível micro do quotidiano. No plano internacional, a nova era de agressão mais não é do que a manifestação visível de uma disputa global por poder e recursos – é a modalidade mais ensaiada de todas: quebrar o povo para a seguir pilhar. No quadro europeu, a encenação de uma ameaça existencial vinda de leste e de um conflito civilizacional, tem permitido à elite político-económica impor uma economia de guerra, por via da qual procurará contrariar a irrelevância progressiva do continente. Por cá, o desmantelamento do Estado Social continua a ser feito à boleia de micro-choques cada vez mais pungentes. Depois dos programas de austeridade que, vergando o povo trabalhador, permitiram a privatização e liberalização dos setores essenciais da vida coletiva, assistimos hoje ao desenrolar da fase final do plano de mercantilização total. Na saúde, por exemplo, o caos é manufaturado todos os dias para que a privatização do Serviço Nacional de Saúde se apresente como “politicamente inevitável”.

Neste admirável mundo novo, a questão fundamental é velha: o que fazer? Friedman compreendeu um aspeto crucial da (r)evolução social: quando uma crise eclode, abre-se uma janela de oportunidade para a transformação radical; e por essa janela entrará o conjunto de ideias que demonstrar a mais pronta capacidade de organizar a resposta. Para Friedman, o choque podia ser infligido intencionalmente, com o intuito de gerar trauma coletivo e assim criar condições para fazer avançar um projeto de sociedade em que a pessoa é reduzida a mercadoria, sem dignidade além do seu valor produtivo. Esse desfecho não é, todavia, inevitável.

O nosso tempo continuará a ser, certamente, um tempo de crises sucessivas, desencadeadas pelo processo de rutura sistémica em curso. Impõe-se, por isso, a construção de um projeto de transformação radical alternativo. À esquerda, os momentos de crise têm sido vividos como momentos de resistência sobrevivencialista. Perante a ameaça da extrema-direita que tenta salvar o capitalismo de si próprio, a resposta tem sido a defesa do statuos quo – o Estado Social, o Direito Internacional, a democracia representativa liberal. Pelo caminho, a direita apropriou-se do monopólio do radicalismo. A economia política do choque continuará a condenar essa estratégia ao fracasso, convocando-nos a reapropriar a narrativa emancipatória.

Contra o keynesianismo de guerra e a destruição do Estado Social, é preciso organizar a resposta socialista e abrir mão da postura defensiva

O combate por um serviço público de saúde universal, por exemplo, não pode fazer-se defendendo o modelo existente, estruturalmente condenado à rutura. O SNS por que vale a pena lutar é outro – de autogestão democrática e libertação das amarras quer do negócio da saúde quer da burocracia tecnocrata. Contra o keynesianismo de guerra e a destruição do Estado Social, é preciso organizar a resposta socialista e abrir mão da postura defensiva.

Maria J. Paixão
Sobre o/a autor(a)

Maria J. Paixão

Professora universitária. Deputada municipal do Bloco em Coimbra.
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