Da luta de classes à luta de gerações? Os jovens e o pacote laboral

porMaria J. Paixão

31 de maio 2026 - 14:41
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Querer mobilizar os jovens contra a restante classe trabalhadora para defender um pacote laboral que eterniza a precariedade é uma tentativa de engenharia social vergonhosa.

Nos últimos anos temos assistido à fabricação de um novo sujeito político: os jovens. Nunca se falou tanto de jovens, dos seus problemas e de políticas dedicadas especificamente à juventude. Deteta-se, aliás, uma certa sinalização da virtude neste campo: um discurso ou programa político que não faça menção aos jovens é imediatamente denunciado.

Esta evolução no discurso tem sido acolhida por uma parte significativa da própria juventude, que se sente realmente representada por essa categoria identitária. Essa autoidentificação é compreensível no quadro socioeconómico e cultural em que crescemos: a apregoada geração “mais qualificada de sempre” vê-se agora na posição de ser a primeira geração a viver pior que os seus pais. Esta dinâmica transversal de descensão social gera, como é evidente, uma afinidade particular.

Importa, todavia, questionar o mérito e os objetivos deste discurso. É que a categoria ‘jovens’ apresenta várias insuficiências enquanto conceito articulador da ação política. Em primeiro lugar, não permite agregar de forma sustentada um grupo sólido de pessoas, dado fundar-se num estatuto pessoal transitório. É-se jovem apenas temporariamente. Ao que acresce, como é evidente, a questão eterna de saber até que idade se é jovem, à qual está associada a exigência de operar um corte que gera, inevitavelmente, insatisfação. Em segundo lugar, embora não descurando a idade como determinante da vulnerabilidade individual, este não parece ser o fator decisivo. De facto, de um modo geral,  a classe, a raça/etnia, a orientação sexual ou o género tendem a determinar mais significativamente a posição social de cada pessoa. Desde logo, as oportunidades, o capital social e a segurança material dependerão muito mais da pertença de classe do que da juventude – o que não obsta, como é evidente, que este e outros fatores se intersetem com a classe e criem quadros mais complexos de desigualdade social. E em terceiro lugar, os problemas hoje comummente associados aos jovens são, na realidade, problemas transversais a todas as faixas etárias. É o que sucede, nomeadamente, com a habitação, o emprego ou o custo de vida. Quando muito, estes problemas afetam especialmente os jovens por uma mera aleatoriedade conjetural: começando agora a sua vida ativa, vivem mais de perto as transformações ocorridas na estrutura económica nos últimos anos.

Ora, assim sendo, são duas as conclusões que se impõem: (1) dar resposta aos problemas dos jovens passa, não por políticas identitárias dirigidas exclusivamente a pessoas de certa faixa etária, mas por políticas transversais que levem a sério os problemas estruturais da sociedade; (2) o sujeito político ‘jovem’ é uma ficção, que serve os interesses estratégicos dos setores políticos que o mobilizam muito mais do que serve os próprios jovens.

Num país onde quase 40% dos trabalhadores com menos de 30 anos têm vínculos precários (o 4.º com maior precariedade jovem na UE) é insultuoso que a resposta oferecida aos jovens trabalhadores seja mais precariedade, travestida de flexibilidade

Este maniqueísmo e os interesses que o justificam têm ficado especialmente claros no contexto da discussão em torno do pacote laboral. O Governo tem propagandeado o conjunto de medidas de “flexibilização” e “modernização” propostas como dirigidas especialmente aos jovens. A Ministra do Trabalho tem reiterado que as novas gerações já não querem um emprego para a vida, o que justifica a porta aberta, pela reforma proposta, à eternização da precariedade e à regressão nas garantias legais de segurança laboral. Recentemente, no encerramento do Congresso da JSD decorrido nos dias 23 e 24 de maio, o Primeiro-Ministro apelou aos jovens que apoiassem o pacote laboral, usassem o seu poder de persuasão e não se deixassem influenciar.

Esta insistência em mobilizar os jovens para apoiar o pacote laboral só pode ter um objetivo: criar uma cisão geracional que obscurece os interesses comuns de todos os trabalhadores – sejam eles “jovens” ou não. Hoje, como sempre, a estratégia é a mesma: dividir a classe trabalhadora para fazer esmorecer a contestação. A diferença em relação a outras investidas divisionistas do passado é que esta abordagem geracional cria uma narrativa apelativa: de um lado, o passado, o proletariado clássico e a resistência à mudança; do outro, o futuro, o dinamismo e a irreverência jovens e a modernização.

Sob as promessas de modernização e flexibilização encontram-se, todavia, exatamente as mesmas dinâmicas responsáveis pela situação indigna em que se encontra a maioria dos trabalhadores portugueses, incluindo os jovens: mais precariedade e menos segurança, alimentando uma corrida para o fundo que potencia os baixos salários e os horários prolongados. Num país onde quase 40% dos trabalhadores com menos de 30 anos têm vínculos precários (o 4.º com maior precariedade jovem na UE) é insultuoso que a resposta oferecida aos jovens trabalhadores seja mais precariedade, travestida de flexibilidade. Querer mobilizar os jovens contra a restante classe trabalhadora para defender um pacote laboral que eterniza a precariedade é uma tentativa de engenharia social vergonhosa.

Ao fabricar esta luta de gerações artificial, o governo atira os jovens para um caricato cenário ao estilo Hunger Games: devemos sentir-nos privilegiados por termos sido selecionados para combater contra os nossos companheiros numa disputa mutuamente destrutiva. De facto, à geração dos precários é pedido que assuma a vanguarda da luta a favor da precariedade, contra as gerações que, antes de nós, combateram para que o trabalho fosse digno e seguro.

A nossa resposta deve ser clara: não aceitamos a farsa da flexibilidade à custa do poder sobre as nossas próprias vidas; não aceitamos ser instrumentalizados contra outros trabalhadores e os nossos interesses comuns; e, certamente, não aceitamos que nos digam como devemos pensar e que sonhos devemos ter. Com a greve geral à porta, inundemos as ruas dessa clareza.

Maria J. Paixão
Sobre o/a autor(a)

Maria J. Paixão

Professora universitária. Deputada municipal do Bloco em Coimbra.
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