O século XX foi o século do petróleo. Não é possível compreender os Trinta Anos Gloriosos do Ocidente, a ascensão dos EUA como potência hegemónica imperial e a evolução do capitalismo global sem compreender a função de charneira do petróleo.
Dobrado o primeiro quarto do século XXI, a pervasividade do petróleo nas nossas vidas coletivas tem-se tornado mais clara do que nunca. A guerra ao Irão, desencadeada pelos EUA e por Israel, reverberou por todo o globo precisamente em virtude da instabilidade provocada nos mercados petrolíferos. A rapidez com que as consequências do desvario genocida israelo-americano se fizeram sentir mesmo onde as relações com os envolvidos são ténues é, aliás, especialmente instrutiva. Desde logo, é curioso notar que o preço da energia disparou até nos mercados nacionais com menor dependência de combustíveis fósseis – é o caso, inclusive, do sistema elétrico português, cujo mix apresenta, comparativamente, uma proporção de renováveis não despicienda. Depois, os impactos têm-se feito sentir também nos Estados com maior autossuficiência energética e que, portanto, são menos dependentes de importações de combustíveis fósseis – assim se tem verificado nos próprios EUA, que, apesar da provisão interna, não escapam à escalada dos preços. E por fim, a velocidade da contaminação setorial anunciada é espantosa, verificando-se um aumento generalizado preços até nos setores mais improváveis. Tudo isto, note-se, à boleia da histeria dos mercados, que não corresponde sequer a uma escassez real de petróleo.
Ora, se o petróleo tem este poder de abalar o mundo, nele estará, porventura, a chave para compreender o momento presente e para o superar. O petróleo substituiu o carvão como principal fonte energética, na viragem do séc. XIX para o séc. XX, porque, na então nascente era das máquinas, apresentava as caraterísticas ideais para alimentar a voracidade expansionista do sistema capitalista: elevada densidade energética, portabilidade e flexibilidade química. O Capital encontrava, finalmente, um combustível capaz de o libertar, pelo menos em parte, das amarras do espaço, do tempo e da força de trabalho humana. A conjugação entre o desenvolvimento tecnológico e a transição para o uso do petróleo como fonte de energia representou, por isso, um momento de viragem para a acumulação capitalista. Além disso, e pelos mesmos motivos, nasce e agiganta-se a indústria petroquímica, que transformou o petróleo na mais importante matéria-prima, introduzindo-o em tudo o que nos rodeia – na nossa roupa (feita de fibras sintéticas), na nossa comida (produzida com uso de fertilizantes), nas nossas casas e, enfim, em todos os produtos que contêm algum componente de plástico…
Neste Admirável Mundo Novo, a indústria petrolífera tornou-se a trave-mestra da produção capitalista global. A vanguarda do imperialismo estadunidense, que se sedimenta progressivamente no rescaldo das duas grandes guerras do séc. XX, é composta pelas então apelidadas “Sete Irmãs” – as setes gigantes petrolíferas que dominaram o mercado global durante o período de composição da nova ordem internacional liderada pelos EUA. A atuação em cartel permitiu-lhes controlar a quase totalidade das reservas globais de petróleo e transformar definitivamente o mundo. A dominação oligárquica das Setes Irmãs viria a encontrar oposição já nas décadas de 50 e 60, na sequência dos processos de descolonização, que geraram, em muitos Estados recém-independentes, um ímpeto nacionalizador das principais indústrias e recursos naturais, incluindo, claro está, a indústria petrolífera. O exemplo paradigmático do espírito desse tempo será, porventura, a nacionalização do setor petrolífero iraniano, operada pelo governo de Mohammad Mosaddegh, que, na sequência dessa decisão, viria rapidamente a ser deposto por um golpe de Estado promovido pelas potências estrangeiras que até ali controlavam a extração do “outro negro”.
No rescaldo da reconfiguração geopolítica resultante dos processos de descolonização, o domínio global da indústria fóssil entra numa nova etapa, em que se interlaça de forma estreita com a revolução neoliberal do final do século. O fim do padrão dólar-ouro, a financeirização da economia global, a globalização da produção e a privatização e liberalização dos setores essenciais das economias nacionais criaram as condições para afirmação do imperialismo monetário. O dólar passava, assim, a ser o principal instrumento de subjugação e poder. Emerge, neste contexto, um conceito que veicula de forma particularmente elucidativa a essência da nova era do imperialismo capitalista: o petrodólar. Tendo deixado de controlar diretamente uma parcela significativa das reservas de petróleo mundiais, a hegemonia dos EUA passou a repousar sobre a denominação do petróleo em dólares, o que lhe tem permitido alimentar a sua megalomania militar-industrial, enquanto mantém a maior dívida externa do mundo.
Este percurso simplificado pelo século do petróleo é suficiente para demonstrar que o estádio de desenvolvimento do capitalismo em que nos encontramos tem a sua força motriz na específica configuração do imperialismo contemporâneo que se alimenta a petróleo. A subsistência dos EUA como superpotência não pode, por isso, ser desligada do seu posicionamento no centro do triângulo que articula a globalização da produção capitalista, a financeirização da economia global e a dependência universal de combustíveis fósseis.
Embora esta posição sempre tenha sido mantida com recurso a todo o leque de formas de violência imperialista (da promoção de golpes de Estado às guerras por interposto, passando pelos bloqueios comerciais e pela agressão direta), assistimos hoje ao descontrolo do Império. A fascização interna e a agressão externa são sintomas da decadência acelerada da posição hegemónica dos EUA no plano internacional. Com efeito, pode já ser afirmada como marca distintiva do séc. XXI a erosão da hegemonia dos EUA no sentido gramsciano do termo, assistindo-se à (re)emergência de polos alternativos de efervescência ideológico-cultural. Paralelamente, as dinâmicas que têm suportado a dominação externa repercutiram-se num processo interno de desindustrialização sem retorno, que atira a classe trabalhadora estadunidense para o empobrecimento contínuo. Por isso, a Administração norte-americana depara-se hoje com um dilema existencial: a preservação do domínio do dólar, sem o qual a economia nacional colapsa, só pode ser garantida à custa das condições de vida dos americanos. A encruzilhada não podia ser mais pungente: salvar o capitalismo ou salvar a democracia.
É, precisamente, neste contexto que devem ser compreendidas as mais recentes derivas expansionistas de Donald Trump. Das terras raras e minerais críticos da Ucrânia até ao petróleo da Venezuela e do Irão, incluindo a guerra tarifária à China, os EUA procuram reafirmar o seu domínio sobre a cadeia global de produção energética. Os sucessivos choques desencadeados permitem às empresas americanas arrecadar receitas extraordinárias, disciplinar mercados e concentrar poder. E dado o funcionamento dos mercados energéticos globais, os efeitos pretendidos são alcançados sem que seja necessária uma escassez real de petróleo e demais hidrocarbonetos – o choque é suficiente.
Fica, assim, claro que a elite americana escolheu salvar o capitalismo fóssil de que depende a sua posição imperialista, deixando extinguir o que restava da democracia interna. Pelo caminho, povos inteiros são massacrados com as mais variadas formas de agressão.
Por cá, a subserviência da elite europeia deixou de ser meramente confrangedora; é também criminosa. O que temos visto tem, pelo menos, a virtualidade de pôr fim a quaisquer ilusões que ainda subsistissem: também entre nós, aqueles que estão enredados na teia do Império optarão por salvar o capitalismo, em vez de salvar a democracia. Crise atrás de crise, o óbvio continua silente: a autodeterminação dos povos europeus começa onde a nossa dependência fóssil acabar.