Manuel Afonso

Manuel Afonso

Assistente editorial e ativista laboral e climático

A mais-valia, diz-nos o autor do Capital, é aquela parcela de trabalho não paga pelos patrões. E acrescentava que, para esticar essa parcela, os donos do capital podem tentar aumentar a mais-valia absoluta (baixando salários) ou a relativa (aumentando as horas de trabalho sem pagar mais por isso).

Cada local exige um hábito, uma técnica, um sacrifício diferente no momento de panfletar ― de distribuir panfletos, boletins, comunicados. Tal como cada momento da vida política: uma greve, uma campanha eleitoral, um cinzento dia aleatório.

A atual situação política pode tornar-se um vácuo político perigoso, à medida que a inflação corroa as bases da maioria absoluta. A nossa aposta deve ser numa polarização alternativa, à esquerda. Mas ninguém vai vencer esta luta sozinho. Portanto, trabalhemos para a unidade.

Pelos piores motivos, parece-se (re)abrir-se uma frente de batalha em que esta aliança entre o movimento climático e o mundo do trabalho se pode consolidar. O ministro fóssil, Costa e Silva, já anunciou a contraofensiva da exploração do gás, desrespeitando até a lei de bases do clima.

Não assistimos ainda a uma explosão social. Há várias explicações que se conjugam: a expectativa do aumento do salário mínimo, os acordos feitos pelo governo com sindicatos e patrões... Há um outro obstáculo sobre o qual temos de falar: o corporativismo sindical.

A campanha para as eleições do mid-term nos EUA, em novembro próximo, serviram para estimular o trumpismo neste combate. Desde há um ano que políticos republicanos têm denunciado títulos disponibilizados nas bibliotecas públicas, sobretudo as escolares.

Só quando milhares saírem à rua para exigir uma saída para a crise que faça os mais ricos pagar por ela, esta ideia ganhará força, podendo obter vitórias. E como fazer? A fé na espontaneidade, alimentada pela indignação e alavancada pelas redes sociais, é insuficiente. É preciso organizar, planear, unir.

É como uma droga, uma droga dura. Aliena, divide, desgasta e faz muito mal à saúde. Circula entre nós a rodos, invisível. Trabalha silenciosamente. É o produtivismo mórbido que corre solto em tantos locais de trabalho, contaminando-nos.

Surpreendidos, alguns órgãos de comunicação noticiaram que “o perfil” das novas gerações trabalhadoras está a mudar. Lá fora, há já meses que se fala do quiet quitting ― ou “sair de fininho” em bom português ―, tão-só a tendência crescente de não desempenhar tarefas para lá do horário.

Vemos por estes dias tantas e tantos a trabalhar ao pico do sol na construção civil, oficinas, cozinhas ou estufas em trabalhos físicos e exigentes. Para quem vive a trabalhar, o negacionismo climático é um luxo inacessível.