É uma crise para a nossa classe, não para a deles. Para eles, são lucros recorde (…) a crise por que passamos não acontece porque não existe riqueza suficiente. É porque eles, esses sacanas gananciosos, arrebanharam toda a riqueza!
Zarah Sultana, deputada do Labour Party, num comício da campanha Enough is Enough em Liverpool.
Nos locais de trabalho o tema é incontornável. Nos longos dias que se arrastam no fim do mês, quando chegam os recibos de vencimento, no fim da semana seguinte, em que pouco sobra depois de pagas as contas. Os preços sobrem e os salários não acompanham. Não dá para viver assim.
E não é só no trabalho: é no supermercado, é nos transportes, é em casa. É incontornável.
Isto, num momento em que não só há emprego, como muitas empresas lutam para conseguir contratar trabalhadores e para que os que já têm não saiam para empresas que pagam apenas ligeiramente mais. Por ora, o medo do desemprego não é o dique que trava as lutas.
Em teoria, a situação é propícia à mobilização. Não por acaso, houve recentemente iniciativas que procuraram recriar protestos semelhantes às «manifestações inorgânicas» que encheram as ruas na última crise, convocadas através das redes sociais. Mas sem resultados. A insatisfação não se transformou numa luta ampla, geral. Estamos de punhos cerrados, mas com as mãos nos bolsos.
Dentro de meses, a luta pode ser mais difícil. Os aumentos dos juros, pelo BCE e não só, anunciam uma ofensiva recessiva: os poderosos querem sangrar a sociedade para combater a inflação. Se o aumento dos preços será travado, não sabemos. Mas o desemprego e o medo social aumentarão. Talvez seja esse o objetivo principal.
Assim, a janela de oportunidade não está aberta indefinidamente. Uma avalanche recessiva poderá retrair as lutas. Quando o tema, nos locais de trabalho, for o risco dos despedimentos, em vez da necessidade de melhores salários, estaremos pior. E pior, desenganemo-nos, não é melhor.
A hora é agora. Demais é demais. Só quando milhares saírem à rua para exigir uma saída para a crise que faça os mais ricos pagar por ela, esta ideia ganhará força, podendo obter vitórias. E como fazer? A fé na espontaneidade, alimentada pela indignação e alavancada pelas redes sociais, é insuficiente. É preciso organizar, planear, unir.
Do Reino Unido vem-nos um bom exemplo, já noticiado aqui no Esquerda.net: a campanha Enough is Enough. Impulsionada por sindicatos, organizações de bairro e figuras da esquerda, esta frente unitária já pôs nas ruas milhares de pessoas, em manifestações e comícios. Apoiam-se e apoiam as importantes greves em curso no país ― carteiros, transportes, estivadores. Organizam comícios e manifestações, ligam-se a iniciativas populares de apoio alimentar, marcam presença nos piquetes de greve. E, com os pés nas várias lutam, elevam-nas e unem-nas. Uma plataforma de cinco exigências é a base para isso: 1. Aumento real dos salários; 2. Redução dos preços da energia; 3. Fim da pobreza alimentar; 4. Casas decentes para toda a gente; 5. Taxar os mais ricos.
Por cá, as greves estão a aumentar, ainda que não tenham (para já) atingido a força do Reino Unido. Nos primeiros seis meses, aumentaram 80% face ao ano passado. Só nos últimos dias, existiram na distribuição (Pingo Doce, Minipreço, Sonae, etc.), nos transportes Alsa, na Promotorres, na Caetano Fórmula e na Euroresinas. Na Schnelleke, a patronal recuou num despedimento coletivo pressionada por uma greve de dois dias.
Na esquerda, temos também feito o nosso trabalho. O Bloco, mas não só, tem denunciado os superlucros das grandes empresas, colocando no centro do debate a sua taxação, ao mesmo tempo que denuncia as medidas pífias do Governo. Esse é o caminho.
Já para o dia 15, a CGTP convocou uma manifestação nacional pelo aumento dos salários, trabalhemos para que seja um ponto de partida para um Outono de lutas.
E será possível, apesar das diferenças, subir a parada, inspirados no movimento inglês? Organizar, planificar e unir? Juntar forças em torno de pontos comuns, unindo estes e outros protagonistas? A possibilidade está aí e a hora é agora. Porque demais é demais!
Artigo atualizado a 10 de outubro de 2022, às 17h55