Quem já, num local de trabalho, tentou organizar uma luta, constatou que a divisão é quase sempre o obstáculo. «Eu até fazia greve, mas de certeza que mais ninguém faz»; «Eu assinava, mas o resto das pessoas tem medo». Quando não é o medo, é a ignorância, a bajulação, a alienação. O mal está sempre no outro. Mesmo quando as lutas se iniciam, não é raro os mais combativos apontarem baterias aos mais reticentes ― em vez de os procurarem convencer, acusam-nos. Atacam-se os vizinhos que, por vários motivos, não entram na luta. Em vez do explorador, as energias da luta viram-se contra os explorados. Governos, patrões e administrações ficam-se a rir.
A divisão é normal. É a expressão mais comum da dominação de classe, prima-irmã da alienação, do desânimo e do ceticismo. O oportunismo e o sectarismo dão roupagens ideológicas a estes sentimentos. Quem não está disponível para, pacientemente, os enfrentar, não está preparado para a luta. Nomeadamente, a sindical.
Por algum motivo, em várias línguas, sindicato é sinónimo de união. Unir quem trabalha em torno da consciência da sua força e dignidade é a tarefa estratégica do sindicalismo. Por isso, o velho Engels vaticinava: «os sindicatos são escolas de comunismo». Ou deveriam ser, ultrapassando o corporativismo, as agendas particulares, a cooptação pelos de cima, o sectarismo mútuo. Outro dos nossos mestres, Zé Mário Branco, alertava que o «querer vencer sozinho» mais não é do que a expressão da ideologia dominante no nosso seio ― e por isso, acrescento, todas as vitórias táticas conseguidas à custa da união da classe trabalhadora preparam derrotas estratégicas.
Mas tudo isto é muito comum.
Na divisão há responsabilidades de todas as partes. Mas quem assume posições maioritárias tem sempre responsabilidades acrescidas. Não obstante, minorias inconformadas, muitas vezes, contentam-se em sê-lo, abdicando de alterar o estado de coisas; satisfazem-se com nichos de influência, sob a capa de radicalismo. É uma espiral: direções maioritárias apontam o dedo à autoproclamação radicalista, para justificar o ramerrame costumeiro; frações inconformadas culpam as primeiras pelas insuficiências das suas iniciativas, angariando descontentamentos, adaptando-se à confortável irresponsabilidade. Cria-se uma unidade entre opostos que fomenta a fragmentação e facilita a vida aos exploradores.
Quem não encontra exemplos destas dinâmicas na luta social (e política) atual?
A unidade de verdade dá trabalho. Implica construir canais de comunicação, relações de confiança entre as partes (mesmo que permeadas de divergências e tensões), assim como flexibilidade e paciência para construir calendários de luta em comum. Sem isto, apelos unitários funcionam como armas divisionistas: o famoso apelo público «convocámos um protesto para determinado dia, convidamos as restantes organizações a estarem presentes» é um truque. Apelos públicos podem ter lugar, mas sem um verdadeiro trabalho unitário são apenas teatro. Enganam alguns e autossatisfazem. Mas dividem.
A atual situação política pode tornar-se um vácuo político perigoso, à medida que a inflação corroa as bases da maioria absoluta. Já vimos noutros países como a implosão do centro abre espaço para a ascensão da reação. É essa a aposta de todos os protagonistas da direita: guerreiam, mas saberão unir-se no poder. A nossa aposta deve ser numa polarização alternativa, à esquerda. As greves e mobilizações recentes e em curso mostram que pode haver base para esta construção. Mas ninguém vai vencer esta luta sozinho. Portanto, trabalhemos para a unidade.