José Soeiro

José Soeiro

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.

É inescapável: o debate político foi tomado por isto e, embalado pela agitação, decidi escrever também sobre Galamba e o seu ministério. Mas interessa-me outra história. Foi há três meses, que 130 trabalhadores da CP, tutelada diretamente por Galamba, deixaram de receber.

A busca pelo extraordinário dentro do previsível, pelo episódio de comicidade codificada ou de alvoroço planeado, premeia uma política que só sabe conceber-se entre a performance elitista e a publicidade, a provocação e o incidente repetitivo.

O regime próprio de "proteção social" dos advogados é o último resquício de uma organização corporativa neste campo e nega na prática, a cerca de 40 mil pessoas, os direitos básicos à segurança social que a Constituição prevê.

Quando se governa contra o sufrágio popular e a vontade maioritária e se tenta condenar ao fracasso as mobilizações de rua e a ação coletiva, fecham-se as portas a alternativas democráticas e abre-se a porta à extrema-direita. É o que está a acontecer em França.

Aos patrões não lhes basta que as margens de lucro aumentem, provocando a inflação. Mobilizam-se contra algumas das regras que podem trazer mais exigência de respeito nas leis do trabalho, invocando uma espécie de direito de veto que a Constituição não lhes atribui.

Sobrecarregar cuidadores informais até ao limite e permitir o florescimento sem regras do mercado, nomeadamente o clandestino, não é democraticamente aceitável. Responder com justiça social à crise dos cuidados é uma das questões mais importantes das próximas décadas.

A “humanidade em trânsito” constituída pelos migrantes em fuga é uma expressão maior dessas vidas quase “insepultáveis”, desta desumanização da morte com que a Europa tem convivido de modo tão cínico.

Quem julgue a realidade pelo verbo colorido destes oradores da direita, encontra Portugal à beira da revolução bolchevique. No entanto, o que temos é um pdf de 28 páginas com ideias sem forma de proposta de lei e em que a habitação continua a ser, no essencial, dependente de um mercado financeirizado.

Da imigração, Montenegro e Moedas querem o trabalho, claro, e o pretexto político para nos dividirem enquanto habitantes do mesmo país. A direita radicaliza-se.

Luís Montenegro encontrou-se com o presidente da CIP e aproveitou para declarar que o Parlamento está a "adulterar e contrariar" os princípios do acordo de rendimentos. Este incómodo resulta das deliberações tomadas sobre plataformas digitais e direitos dos trabalhadores na cessação do contrato.