Voltaram à rua nesta terça-feira as manifestações que têm colocado a França a ferro e fogo. Os motivos imediatos são a reforma das pensões e a utilização pelo Governo do artigo 49.3 da Constituição que lhe permite impor uma lei sem a aprovação do Parlamento. Mas as mobilizações já são mais que uma luta social sobre as reformas: transformaram-se numa rejeição política do macronismo.
O jogo de Macron, de impor as novas regras das pensões contra a vontade popular e o próprio Parlamento, apostando em levar ao desespero e à derrota um movimento com apoio claramente maioritário, pode dar origem a uma insurreição ainda maior que consiga derrotar a nova lei ou pode entregar o poder à extrema-direita.
A situação francesa é reveladora. O golpe do Presidente e do seu governo é a demonstração simultânea do isolamento da sua proposta, que não consegue seguir o circuito normal da decisão nas instituições, e da disponibilidade do poder para a escalada autoritária e repressiva. Macron e o bloco social que representa é minoritário, sabe que é minoritário, mas quer fazer prova da sua capacidade de avançar com medidas neoliberais mesmo que elas não tenham qualquer respaldo popular.
O seguro eleitoral de Macron foi a concentração em si do voto contra a possibilidade da extrema-direita ir para o poder, como se ele fosse um fiel da balança da República contra o fascismo, mas nem por isso a sua política mudou a base social a que responde. A extrema-direita é necessária ao “centrismo” para sacar maiorias eleitorais sob chantagem. Mas é depois a extrema-direita que governos como o de Macron alimentam, com uma política de exasperação do campo popular, de ataque a direitos (sempre com a retórica da inevitabilidade e da “sustentabilidade” do Estado), de deslegitimação da mobilização sindical e da esquerda política. As provocações de Macron foram ao ponto de ter equiparado os manifestantes aos assaltantes do Capitólio.
Esmagar a esquerda e as organizações populares, polarizando com a extrema-direita alimentada socialmente pelo Governo, para depois utilizar o fantasma da extrema-direita em momento eleitoral: é esta a aposta de Macron, a sua estratégia consciente, a sua política de classe. Só que quando se governa contra o sufrágio popular e a vontade maioritária e se tenta condenar ao fracasso as mobilizações de rua e a ação coletiva, tentando demonstrar que elas não valem nada, não contam e não são caminho, fecham-se as portas a alternativas democráticas e abre-se a porta à extrema-direita.
É uma estratégia cínica, democraticamente trágica e que não tem como resultar eternamente. Mas a bifurcação que Macron abriu em França talvez possa ser lição para outros países e talvez a insurreição social tenha ainda a capacidade de constituir-se em alternativa política. Oxalá aconteça. Só a derrota do macronismo por esse campo insubmisso poderá salvar a democracia.
Artigo publicado em expresso.pt a 29 de março de 2023