No caso de não resistir aos pedidos de demissão surgidos com a notícia das ameaças a uma jornalista do Público, o legado de Miguel Relvas fica presente numa das últimas cerimónias públicas em que participou. Na passada sexta-feira, já perseguido pela imprensa em busca de declarações sobre as ameaças, Relvas entregou o Colar de Honra do Mérito Desportivo ao agente de jogadores Jorge Mendes, que através da Gestifute tem uma carteira de clientes avaliada em mais de 500 milhões de euros. A condecoração atribuída num despacho de Miguel Relvas levantou polémica por surgir na altura em que a justiça investiga o empresário no caso duma transferência de 9 milhões de euros paga pelo Manchester United por um jogador que até então fizera apenas uma época na terceira divisão portuguesa.
A mão de Relvas na Lusa e RTP
Os dez meses de mandato de Miguel Relvas como ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares ficam marcados pelas notícias de ligações a interesses financeiros vindos de Angola e do Brasil, dois países em que o Governo aposta para vender boa parte das participações do Estado em empresas. Mas o todo-poderoso ministro não se coibiu de interferir na gestão das empresas da sua tutela, como a RTP ou a Lusa. Foi ele que anunciou em primeira mão que a empresa não iria renovar o contrato de parceria com a Euronews e logo em agosto surgiu no semanário Expresso a notícia do convite de Relvas ao jornalista Mário Crespo para ir substituir Vítor Gonçalves como correspondente da RTP em Washington. Crespo desmentiu o convite e meses depois a RTP abriu um concurso para o cargo, a que concorreram 18 jornalistas até 27 de março. Em declarações ao Correio da Manhã, Mário Crespo não escondeu a tristeza por não ter sabido do concurso. Na Lusa, também em agosto, o ministro ordenou cortes na delegação de Paris, que levaram à saída do correspondente Pedro Rosa Mendes. Cinco meses depois, Rosa Mendes foi afastado dos microfones da Antena 1 a seguir a uma crónica demolidora do programa da RTP que juntou em Luanda o ministro Relvas e a elite angolana da política e negócios.
Emigrar para ter "visão cosmopolita do mundo"
Relvas pode ter sido o responsável por trazer de volta ao seu país o jornalista emigrado, mas isso não evitou que em novembro voltasse a ser alvo de todas as críticas, quando saiu em defesa do apelo do secretário de Estado do Desporto e Juventude para que os jovens desempregados saíssem da sua "zona de conforto" e fizessem as malas para "além fronteiras". “Também nesta matéria é importante que se tenha uma visão cosmopolita do mundo”, defendeu Relvas, em alternativa à "visão pobre" dos que se insurgiram contra a solução que o Governo apresenta aos jovens sem emprego. “Nós temos hoje uma geração extraordinariamente bem preparada, na qual Portugal investiu muito. A nossa economia e a situação em que estamos não permite a esses activos fantásticos terem em Portugal hoje solução para a sua vida activa. Procurar e desafiar a ambição é sempre extraordinariamente importante”, acrescentou o ministro, levantando novo coro de críticas.
Mais de mil freguesias ameaçadas de extinção
Politicamente, estes episódios em que Relvas se viu envolvido não o desgastaram tanto como a sua proposta de reforma do Poder Local, que passa pela eliminação de mais de mil freguesias em todo o país e que deu o mote à manifestação de protesto que trouxe 200 mil pessoas a Lisboa no fim de março. O ministro conseguiu juntar contra si autarcas de todas as áreas partidárias, incluindo a sua que é maioritária nas Câmaras e Juntas de Freguesias. E tornou-se no membro do Governo a receber a maior vaia no decorrer no mandato, ao participar em dezembro no encerramento do Congresso da Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE). Metade dos 1600 congressistas abandonaram mesmo a sala para não ouvir o ministro e os que ficaram foram pontuando a sua intervenção com protestos.
“Há quase 1600 juntas que recebem transferências do Estado inferiores a 25.000 euros” e, no entanto, só em senhas de presença do executivo “gastam 10.000″, teria dito Miguel Relvas aos congressistas, segundo boa parte da imprensa. Na verdade, esta parte do discurso vinha escrita e foi entregue aos jornalistas, mas o clima hostil que se vivia no Portimão Arena não aconselhava a provocação. Relvas foi prudente e saltou essas linhas no discurso, mas quando os jornalistas lhe perguntaram a razão deu a mesma resposta que usou meses depois sobre os sms e emails recebidos do ex-espião da Ongoing: nem se tinha apercebido disso.