A "estreia" do filme que tornou mundialmente conhecido este "senhor da guerra" ugandês ao atingir em duas semanas cerca de 80 milhões de visualizações no Youtube, juntou milhares de pessoas (entre 5 mil a 35 mil segundo os relatos recolhidos pelo jornal inglês Guardian) em frente ao lençol branco que serviu de tela num jardim da localidade de Lira, a norte de Kampala.
Enquanto o filme decorria, a reação negativa da assistência foi crescendo e quando o filme acabou já voavam pedras e os organizadores tiveram de fugir do local para evitar o pior. As imagens da campanha da ONG Invisible Children motivaram a repulsa das vítimas de Joseph Kony, sobretudo na parte em que divulgam o merchandising da campanha - com a venda de um kit com cartazes, crachás e pulseiras com o nome de Kony - e apelam a donativos em dinheiro.
"As pessoas perguntavam: para quê dar a estes criminosos o estatuto de celebridades? Porque não ouvir as queixas das vítimas que sofreram?", contou ao Guardian Victor Ochen, da organização humanitária Ayinet, que organizou a projeção. Um repórter da al-Jazzera ouviu uma mulher a comparar a situação com a venda de parafernália de Osama Bin Laden logo após o 11 de setembro. "Por melhor intencionada que fosse, seria vista como muito ofensiva para muitos americanos", declarou ao jornalista.
As intenções desta campanha que se tornou viral na internet também têm estado sob escrutínio, tal como a sua promotora Invisible Children. As críticas apontam o facto de Joseph Kony já não representar hoje uma ameaça para a população ugandesa, encontrando-se fugido na República Centro-Africana já sem o seu exército, após a repressão dos militares ugandeses apoiados pelos Estados Unidos. Por outro lado, aquela ONG gastou no ano passado apenas 32% do seu orçamento de 9 milhões de dólares em programas em África, gastando os restantes 68% em salários e produção de filmes. Mas só nos primeiros dias desta campanha, a ONG vendeu mais de meio milhão de "kits de ação" com cartazes, crachás e pulseiras por 30 dólares cada, ou seja, arrecadou 15 milhões de dólares numa semana.
Para além disso, a Invisible Children não esconde o seu apoio às intervenções militares do exército ugandês, também alvo de acusações de tortura, violação e saques nas localidades por onde passa. Uma das vozes críticas da campanha foi raptado aos 14 anos e transformado em criança-soldado do Exército de Libertação do Senhor. Anywar Ricky Richard, que hoje dirige a organização Amigos dos Órfãos no norte do Uganda, reconhece a ação da Invisible Children na educação de outros homens que foram raptados em crianças, mas diz "discordar totalmente com a sua abordagem da ação militar como um meio para acabar com o conflito", preferindo o regresso das duas partes à mesa das negociações.
Ugandeses vítimas de Joseph Kony furiosos com cibercampanha
16 de março 2012 - 18:26
O vídeo "Kony 2012" tornou-se um fenómeno no youtube, mas aqueles que sofreram na pele a violência do Exército de Resistência do Senhor ficaram revoltados quando o viram pela primeira vez esta semana no norte do Uganda. Os organizadores tiveram de fugir da chuva de pedras.
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Kony 2012: uma campanha bem intencionada ou pró-militarista? Foto Avakian/Flickr