Na tarde desta terça-feira, Mariana Mortágua apresentou as primeiras “evidências” que saltam à vista do trabalho de uma Comissão de Inquérito que “já fez a sua prova de vida”, depois de apenas três audições. A dirigente bloquista lança críticas quer à gestão privada anterior da TAP, quer à forma como o governo do Partido Socialista geriu todo este dossier.
Sobre a gestão privada da companhia aérea, a “evidência” que pode ser já retirada das informações a que se passou a ter acesso é que esta “canibalizou a empresa, utilizando os seus recursos em benefício próprio”. Mariana Mortágua lista como exemplo disso os acordos de pré-reforma com antigos administradores do tempo de David Neeleman no valor de 1 milhão e 200 mil euros, os contratos de consultadoria com Fernando Pinto a 67 mil euros por mês no valor de 1 milhão e 600 mil euros, o negócio de prestação de serviços aos acionistas através Atlantic Gateway para além dos salários que recebiam no valor de 4,3 milhões de euros.
Sabe-se agora também que a TAP “pediu uma auditoria para tentar perceber de que forma é que estes administradores nomeados pelo acionista privado retiraram para proveito próprio milhões de euros numa empresa que tinha participação pública”; que a empresa “pagou a mais os 53 aviões que comprou por ordem de David Neelemen”; que há pareceres jurídicos que dizem que David Neeleman “retirou da TAP, através de contratos com a Airbus, mais de 200 milhões de euros que utilizou para capitalizar a própria TAP”. “Portanto estamos a falar numa utilização de recursos da TAP para os acionistas privados liderados por David Neeleman”, acrescenta.
Mas a deputada quer também responsabilizar o governo do Partido Socialista porque este “não esteve à altura da importância da TAP”. Igualmente aqui, são vários os exemplos que encontra desta conclusão: “pela informalidade com que a empresa era gerida; pela forma como a demissão de Alexandra Reis acontece sem que ninguém tivesse percebido que havia o estatuto de gestor público, pela forma como o governo tratava das viagens do presidente da República e como isso era comunicado à própria TAP; pela forma como a CEO da TAP foi demitida, tendo havido uma reunião antes com o ministro das Finanças que lhe pediu a sua resignação mas não lhe dizendo que a ia demitir”, pelo facto de ter havido uma reunião entre o Grupo Parlamentar do PS e a CEO da TAP”, o que “é obviamente excessivo”.
Assim, “a TAP não pode ficar refém de um privado que a canibaliza ou de um governo que não está à altura da sua importância para o país”. E Mariana Mortágua quer que o Primeiro-ministro “assuma as suas responsabilidades”, devendo “explicações sobre tudo”. Isto porque “vimos vários ministros a rodar ao longo deste processo” mas o primeiro-ministro “sempre chamou a si a questão da TAP” e é portanto “importante que diga agora ao país como é que vai garantir que não seremos confrontados de novo com este tipo de informações que são um vexame”, sendo que a empresa “não foi respeitada pelo acionista público pela forma como foi gerida pelo governo".
A deputada recordou ainda que o primeiro-ministro “nomeou um amigo seu”, Diogo Lacerda Machado, primeiro “para negociar a nacionalização da TAP” e depois “para ser administrador da TAP”.