Na passada terça-feira, a Shell colocou uma sondagem na sua conta do Twitter. Perguntava “o que é que estão dispostos a mudar para ajudar a reduzir emissões?” e apresentava quatro alternativas: compensar emissões, deixar de voar de avião, comprar um veículo elétrico ou aderir à eletricidade renovável.
A história desta operação de limpeza de imagem por parte de quem quer parecer verde poderia ter acabado logo ali com uma participação reduzida de 199 pessoas na sondagem. Mas tornou-se viral dadas as respostas que acusaram empresa de manipulação.
Entre elas estava a ativista ambiental Greta Thunberg. A jovem criadora das greves climáticas estudantis escreveu o seguinte: “Não sei quanto a vocês mas eu certamente estou disposta a responsabilizar as empresas de combustíveis fósseis por destruírem conscientemente as futuras condições de vida para inúmeras gerações por lucro e depois tentarem distrair as pessoas e impedir uma verdadeira mudança sistémica através de intermináveis campanhas de greenwash”, um termo utilizado pelos ambientalistas para descrever a forma como várias empresas poluidoras tentar limpar a imagem, parecendo ambientalmente responsáveis, apesar de manterem as suas piores práticas. Mais de 49 mil pessoas “gostaram” da publicação.
I don’t know about you, but I sure am willing to call-out-the-fossil-fuel-companies-for-knowingly-destroying-future-living-conditions -for-countless-generations-for profit-and-then-trying-to-distract-people-and-prevent-real-systemic-change-through-endless greenwash-campaigns. https://t.co/O3ReJPv81Q
— Greta Thunberg (@GretaThunberg) November 2, 2020
Ainda maior repercursão teve a resposta da recém-reeleita congressista norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez. Os “gostos” já excederam os 390 mil e continuam a somar-se. Esta figura conhecida da esquerda do Partido Democrata escreveu: “Estou disposta a responsabilizar-vos por mentirem acerca das alterações climáticas durante 30 anos, quando já sabiam secretamente durante este tempo que as emissões de combustíveis fósseis iriam destruir o nosso planeta”.
I’m willing to hold you accountable for lying about climate change for 30 years when you secretly knew the entire time that fossil fuels emissions would destroy our planet https://t.co/ekj1Va1Cp0
— Alexandria Ocasio-Cortez (@AOC) November 2, 2020
Estas duas respostas são apenas uma amostra dos cerca de 7,5 mil comentários (até ao momento) dados à pergunta da Shell. A esmagadora maioria alinham pelo mesmo diapasão. Vários cientistas do clima também se deram ao trabalho de responder à empresa. Katharine Hayhoe foi uma delas, mas o seu comentário foi escondido. Escreveu: “Responsabilizar-vos pelos 2% de emissões globais acumulativas de emissões de gases com efeitos de estufa, o equivalente a todo o meu país de origem, o Canadá. Quando tiverem um plano concreto para tratar disso, terei todo o prazer em conversar convosco acerca do que estou a fazer para reduzir as minhas emissões pessoais”.
A sondagem só esteve online oito horas. Depois foi encerrada com a Shell a concluir que “mudar o sistema energético requer que toda a gente faça a sua parte.” Acrescentaram ainda que “pela nossa parte, como dissemos na semana passada, a Shell irá remodelar o seu portfólio de bens e produtos para cumprir as exigências de uma energia mais verde dos nossos clientes nas próximas décadas”.
Mas terá sido Bill Weir, o correspondente principal da CNN para questões climáticas, quem melhor terá resumido o espírito das respostas à publicação: “É como se Freddy Krueger perguntasse o que estão disponíveis a fazer para dormirem melhor”.
This is like Freddy Krueger asking what you’re willing to change to get better sleep. https://t.co/NA7WcsZMPG
— Bill Weir (@BillWeirCNN) November 2, 2020