Soares dos Santos ganha 108 vezes mais do que os seus trabalhadores

28 de outubro 2014 - 8:54

Estudo revela que a desigualdade salarial é subestimada o que, segundo defende o Nobel da Economia Paul Krugman, se deve ao facto de os mais ricos dos ricos serem virtualmente “invisíveis” para o resto da população. No caso português, os CEO’s das grandes empresas ganham, em média, 53 vezes mais do que os restantes trabalhadores.

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Foto retirada da página de facebook das Promoções Pingo Doce.

O estudo “How Much (More) Should CEOs Make? A Universal Desire for More Equal Pay” (“Quanto (mais) devem ganhar os CEO? Um desejo universal de mais igualdade nos salários”), citado pelo jornal Público, “analisa como é que a perceção das pessoas em relação à desigualdade de salários praticada nas grandes empresas compara com a realidade”.

Para esse efeito, foi levado a cabo um inquérito em 40 países no qual são colocadas duas questões essenciais, que se prendem com qual é a perceção das pessoas no que respeita à diferença entre os salários dos presidentes executivos (CEO) e os dos trabalhadores não qualificados e, por outro lado, qual deveria ser, na opinião das mesmas, essa disparidade.

O trabalho, da autoria dos economistas Sorapop Kiatpongsan e Michael I. Norton, conclui que os CEO’s são ainda mais bem pagos do que aquilo que se poderia imaginar e que a desigualdade salarial ultrapassa todas as expectativas.

O trabalho, da autoria dos economistas Sorapop Kiatpongsan e Michael I. Norton, conclui que os CEO’s são ainda mais bem pagos do que aquilo que se poderia imaginar e que a desigualdade salarial ultrapassa todas as expectativas.

No que concerne a Portugal, os inquiridos defenderam que a remuneração dos presidentes executivos não deveria ser mais do que cinco vezes superior àquela que é auferida pelos restantes trabalhadores. Contudo, a realidade é bastante diferente. Nas grandes empresas, os CEO ganham, em média, 53 vezes mais.

A desigualdade salarial não é, no entanto, exclusiva de Portugal. Nos EUA, os CEO ganham 354 vezes mais do que os trabalhadores não qualificados e na Alemanha as remunerações dos presidentes executivos são 147 vezes maiores.

Salário de Soares dos Santos é 108 vezes superior ao dos seus trabalhadores

Pedro Soares dos Santos, CEO da Jerónimo Martins desde abril de 2010, e que veio ainda substituir, no final de 2013, o seu pai, Alexandre Soares dos Santos - o segundo português mais rico, com uma fortuna avaliada em 2,8 mil milhões de dólares -, na presidência do grupo, ganhou, no ano passado, 108 vezes mais do que a média dos trabalhadores da empresa.

 Recordemos que, em 2012, a Sociedade Francisco Manuel dos Santos SGPS da família Soares dos Santos foi a empresa privada que recebeu mais benefícios (80 milhões de euros). Por outro lado, a família Soares dos Santos e as empresas que controla têm-se destacado pelos esquemas que utilizam para fugir ao pagamento de impostos.

 No segundo lugar do pódio ocupado pelas empresas em que se regista maior disparidade salarial entre CEO’s e restantes trabalhadores surge a Sonae. O CEO do grupo, Paulo de Azevedo, filho de Belmiro de Azevedo – o terceiro português mais rico – aufere um salário 92 vezes superior ao dos restantes trabalhadores.

Pedro Soares dos Santos e Paulo de Azevedo, que, manifestamente, seguem as pegadas dos seus progenitores, praticam nas suas empresas uma política de baixos salários e de exploração laboral.

Ricos são virtualmente “invisíveis” para o resto da população

É a “invisibilidade” dos mais ricos dos ricos que impede que o protesto contra a desigualdade - que é cada vez mais gritante - ganhe maior amplitude.

Referindo-se aos resultados do estudo de Kiatpongsan e Norton, publicado pela Harvard Business School, o prémio Nobel da Economia Paul Krugman defendeu que a disparidade entre a perceção sobre a desigualdade salarial e a realidade está relacionada com o facto de os mais ricos dos ricos serem virtualmente “invisíveis” para o resto da população, uma vez que “estão totalmente afastados das vidas das pessoas comuns”.

“Nós até podemos ver, e sentirmo-nos incomodados com, jovens universitários a conduzirem carros de luxo. Mas não vemos gestores de fundos a irem do trabalho para as suas enormes mansões nos Hamptons de helicóptero”, referiu o economista na sua coluna no The New York Times, defendendo que é essa “invisibilidade” que impede que o protesto contra a desigualdade - que é cada vez mais gritante - ganhe maior amplitude.