Francisco Louçã apontou como exemplos do “colapso sistémico” do SNS a Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, que está a “estender a mão a um peditório às famílias dos utentes”, e “um hospital do distrito de Aveiro, que cobra uma caução de 15 euros a cada pessoa que vá visitar o seu familiar" ali internado.
Francisco Louçã falava neste domingo na sessão de encerramento do “Encontro com a Ciência”, que decorreu no Planetário do Porto, e em que intervieram também Marisa Matias e José Soeiro.
Segundo a agência Lusa, o coordenador da comissão política do Bloco referiu que “quatro meses depois da sabotagem orçamental, o SNS não consegue responder às suas necessidades e vai acumulando problemas e dificuldades numa engrenagem que está atingida pelo subfinanciamento e pela sua incapacidade” e frisou que “não haverá democracia substantiva em Portugal se não houver um SNS que torna as pessoas iguais perante a dificuldade”.
Francisco Louçã disse que esta situação demonstra como “seria necessário pôr as contas em dia” e afirmou que através de um orçamento de base zero poderia haver a certeza de que “não se gasta dinheiro a mais, que se gasta o necessário da forma mais eficiente possível”.
O coordenador da comissão política do Bloco lembrou também a proposta feita pelo partido de prescrição de medicamentos por denominação comum internacional e da escolha do utente pelo genérico, o que permitia “ao Estado poupar 100 milhões de euros e poupar às famílias 200 milhões de euros” e faria “uma grande diferença no contexto das dificuldades orçamentais portuguesas, permitindo dar uma primeira resposta” a casos como o da Maternidade Alfredo da Costa.
Francisco Louçã defendeu que Portugal “não pode nunca aceitar a regra do quanto pior melhor e não pode aceitar a regra da terra queimada”, como “abandonar o SNS para dizer que ele é caro de mais”.
O dirigente do Bloco salientou que a 5 de junho o que interessa é “fazer escolhas concretas, propostas concretas, discutir grandes questões da democracia”: “Interessa muito pouco a que horas é feito cada telefonema e cada encontro nocturno entre personagens da nossa vida política, mas interessa muito saber se o financiamento da maior maternidade do país é ou não resolvido, interessa certamente muito saber se os nossos hospitais têm capacidade para responder às necessidades das pessoas”, concluiu.
Na sessão de encerramento, José Soeiro referiu que existe em Portugal “um contingente significativo de pessoas, jovens e não só, altissimamente qualificadas que são tratadas como um problema em que não sabemos o que fazer com eles” e afirmou que esse contingente altamente qualificado, precisa de ser tratado “não só como um recurso, mas como um dos motores principais da transformação da economia e da sociedade”.
José Soeiro falou também dos bolseiros, “que não têm direito a ser considerados trabalhadores”, “que não têm direitos laborais, nem direito a uma carreira na investigação”, condenando “a falsa ideia de que o problema do mercado de trabalho é a rigidez, ou seja direitos a mais” e afirmando que “a ciência e a investigação científica permitir-nos-ão perceber que o problema do emprego não é um problema da rigidez laboral, mas um problema da qualificação”.
A eurodeputada Marisa Matias destacou que é muito importante “voltar a colocar no centro da discussão” e nas opções políticas “o conhecimento pelo bem comum que todos devemos usufruir em igualdade de circunstâncias”, em oposição à “governação da ciência pela via do mercado” e ao tratamento do conhecimento como mercadoria. Sublinhou ainda a necessidade de se combater “o mecanismo cada vez maior de concentração dos financiamentos ao nível do poder [europeu]” e o “esvaziamento daquilo que são os espaços periféricos, nomeadamente de países como Portugal”.