O coordenador do Bloco de Esquerda visitou esta terça-feira o hospital do Barreiro e aproveitou para antecipar o debate que trará Paulo Portas ao parlamento, por iniciativa da bancada bloquista, para explicar aos deputados o guião da reforma do Estado e o novo pacote de austeridade.
Questionado pelos jornalistas sobre uma entrevista de Mário Soares, onde diz que Paulo Portas está a ser vítima de chantagem no Governo por causa do negócio dos submarinos e outro material militar, João Semedo afirmou que "a grande chantagem é em torno da dívida, que nos diz que temos de cortar salários para pagar aos nossos credores. Essa é a principal chantagem que o Governo faz sobre o povo português".
"A reforma do Estado que o Governo tem vindo a anunciar é uma dupla mentira. Em primeiro lugar, o Estado não tem despesa a mais - a média da despesa do Estado com a administração central, saúde e escola pública é inferior à média da União Europeia. A segunda mentira é que não se trata de uma reforma para melhorar o Estado, mas sim para reduzi-lo ao mínimo dos mínimos, despedindo milhares de funcionários públicos, professores e profissionais de saúde. Isto não é reformar o Estado, é dar cabo do Estado", acrescentou João Semedo.
No debate com Paulo Portas, o Bloco irá defender que "o Estado português não é um Estado gordo, é um Estado que cumpre uma função social importantíssima que o Bloco de Esquerda não quer ver reduzida nem desvalorizada", mas também mostrar solidariedade com a resistência dos trabalhadores ao desmantelamento dos serviços públicos essenciais. "Compreendemos perfeitamente que os funcionários públicos e os professores tenham decidido fazer uma greve. Essa greve é do interesse do conjunto da sociedade portuguesa", defendeu o coordenador bloquista.
"As esquerdas terão inteligência e sensibilidade suficiente para convergir"
João Semedo aproveitou ainda para destacar a iniciativa que na noite de quinta-feira irá juntar as esquerdas contra a austeridade na Aula Magna, com intervenções de dirigentes do Bloco, PCP e PS, para além de Mário Soares, Rosário Gama e Sampaio da Nóvoa.
"Para o Bloco de Esquerda, o fim da troika e do memorando exige a convergência da esquerda", sublinhou Semedo, revelando que "aceitámos com convicção e entusiasmo o convite para esta sessão contra a austeridade". O coordenador do Bloco garante ter confiança "em que as esquerdas terão inteligência e sensibilidade suficiente para convergir naquilo que é necessário para acabar com a austeridade e acabar este governo".
"A nossa expetativa é que será um grande momento de afirmação das esquerdas contra a austeridade. Estamos muito confiantes que será uma jornada muito importante para o isolamento da política do Governo. Se não nos libertarmos da política deste Governo, não nos libertaremos da crise", concluiu Semedo.
O recente recuo do Governo, que já admite pedir o adiamento das metas acordadas com a troika, significa para Semedo que "a política de austeridade não permite reduzir nem o défice nem a dívida e que quanto mais o Governo insiste na austeridade para reduzir o défice, mais longe ficamos de cumprir todos os défices que este Governo tem negociado com a troika".
"Não há saída da crise sem renegociação da dívida. Sem reduzirmos a dívida, continuaremos a pagar juros absolutamente incomportáveis", resumiu o coordenador do Bloco no fim da visita ao Hospital do Barreiro, onde reuniu com a administração do Centro Hospitalar, que afastou a ameaça de encerramento do serviço de Oncologia. "O Serviço de Oncologia, a par da área materno-infantil, é a jóia da coroa deste hospital e não faria nenhum sentido desfigurar ou amputar esse serviço. O Conselho de Administração deu-nos a garantia que o serviço de Oncologia é para continuar com o mesmo padrão de qualidade", revelou Semedo aos jornalistas.