Durante a apresentação de candidatura autárquica de Odivelas, que teve lugar esta sexta feira no Pavilhão Polivalente deste concelho, o coordenador do Bloco de Esquerda teceu críticas às medidas de incentivo fiscal ao investimento apresentadas na quinta feira pelo ministro das Finanças Vítor Gaspar, frisando que o Governo pretende “aplicar um golpe de mágica”.
“Há muito tempo que estava negociado com a Sra Merkel este investimento na economia nacional. É um investimento muito interesseiro, porque é exactamente assim, com esta circulação de capitais, que se constrói uma Europa a duas velocidades, ou seja, os países que têm défices alimentam os superavits dos outros”, avançou João Semedo.
Segundo o coordenador do Bloco de Esquerda, “este financiamento que agora é prometido à economia portuguesa significa, de facto, que um país mais fraco, mais débil e em dificuldades, vai alimentar o capital, as finanças do país que domina hoje a política na Europa – a Alemanha. E, por isso, esse programa de investimento de um banco público alemão na nossa economia não significa outra coisa que não seja, mais uma vez, uma ajuda interesseira”.
“Há em Pedro Passos Coelho e no Governo uma tentativa de aplicar um golpe de magia e fingir que acabou o tempo de austeridade e que agora é altura de crescer. Não existe nenhum corte com a austeridade, mas sim um reforçar de austeridade”, afirmou, adiantando que o que o executivo pretende fazer, “falando tanto da economia e da felicidade com que vai encher as empresas do país, é fazer deslocar a nossa atenção da segunda vaga de austeridade, mais brutal ainda, que está em preparação”, e que atingirá essencialmente os funcionários públicos e reformados pensionistas.
“Não há qualquer discrepância entre PSD e CDS-PP sobre cortes nas pensões”
Para João Semedo, o “jogo político sobre o presente e o futuro dos reformados e dos pensionistas” levado a cabo pelo governo “ é desumano e, por isso, indecoroso, lastimável e lamentável”, sendo que “não há qualquer discrepância entre PSD e CDS-PP nesta matéria”. “Toda esta querela, toda esta mistificação em torno das reformas e das pensões pretende fazer esquecer essa concordância”, referiu.
Na realidade, e conforme avançou o dirigente bloquista, “o governo já decidiu aplicar uma sobretaxa sobre as reformas e as pensões”, ainda que tenha vindo a avançar que só aplicará esta medida em “último recurso”. “Num governo cujo primeiro recurso, de há dois anos a esta parte, é sempre ir ao bolso dos cidadãos, incluindo os pensionistas e reformados, alguém acredita que só em último recurso vão impor essa taxa?”, questionou o deputado.
“Cavaco Silva sempre foi um mau presidente da República”
Referindo-se à entrevista dada por Miguel Sousa Tavares ao Jornal de Negócios sob o título "Beppe Grillo? Nós já temos um palhaço. Chama-se Cavaco Silva”, e que levou o presidente da República a pedir a abertura de um inquérito à Procuradoria Geral da República, o coordenador nacional do Bloco de Esquerda frisou que este episódio teve “alguma piada, mas pouca relevância política”.
“Para o Bloco de Esquerda, Cavaco Silva sempre foi um mau presidente da República”, adiantou, lembrando que, este, “tem suportado um governo – do PSD/CDS-PP – que tem desgraçado o país e que tem destruído a vida de milhares e milhares de famílias”.
“Mas para dizermos que Cavaco Silva é um péssimo presidente da República não precisamos de compará-lo com ninguém e, muito menos, compará-lo com aqueles que merecem toda a nossa simpatia, como é o caso dos palhaços”, ironizou o dirigente bloquista.
Todos a Belém
João Semedo salientou, durante a sua intervenção, a importância da participação na iniciativa contra o empobrecimento e a exploração, que foi convocada pela CGTP para este sábado, pelas 15h30, junto ao Palácio de Belém.
Para o deputado do Bloco de Esquerda, este protesto é “muito oportuno, porque na presidência da República está o fio que sustenta este governo e é também esse fio que a luta social, a luta política, a luta das esquerdas precisa de cortar para que o executivo caia mais depressa e mais depressa nos libertemos deste massacre político que é o governo de Cavaco Silva, de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas”.
Afirmando que “essa manifestação não esgota, de forma alguma, todo o protesto contra as consequências da austeridade que grassa por este país fora”, João Semedo apelou ainda à mobilização para a manifestação internacional de 1 de junho.
Nas suas intervenções, os candidatos à Câmara Municipal e à Assembleia Municipal de Odivelas, João Curvelo e José Falcão, respetivamente, fizeram ainda um balanço do mandato do executivo camarário, tendo sido referido o despesismo desta autarquia, ao mesmo tempo que são abandonados projetos de interesse para a população.
Cláudia Elias, candidata independente que também integra a lista do Bloco à Câmara Municipal de Odivelaas, frisou que participar neste "projecto do Bloco de Esquerda representa um grande desafio mas também uma honra. Um desafio por poder abraçar uma luta pela qualidade de vida da população de Odivelas, pela transparência dos negócios que se fazem em nome deste município mas que pouco ou nada servem a quem aqui vive. E uma honra por poder estar ao lado de pessoas que acreditam na mudança. Que acreditam numa sociedade mais justa e igualitária”.
Na sua intervenção, a candidata criticou ainda a “privatização da distribuição do abastecimento de água, da rede de esgotos e da recolha de resíduos sólidos”, recordando que a mesma foi “imposta à população, comprometendo o futuro de várias gerações”.