Depois de na sexta-feira o presidente da Comissão Episcopal Portuguesa, o bispo José Ornelas, ter recusado o afastamento preventivo dos sacerdotes denunciados por abusos sexuais e dos bispos que terão encoberto essas atividades, no domingo foi a vez do cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, vir defender que o afastamento preventivo "é uma pena muito grave, é a mais grave que a Santa Sé poderá dar e é a Santa Sé que a poderá dar".
Opinião diferente tem o bispo emérito das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, que em entrevista a RTP defendeu o afastamento preventivo dos padres acusados e a responsabilização dos bispos que ocultaram casos de abusos sexuais.
As palavras do responsável máximo da hierarquia católica caíram mal junto dos promotores da iniciativa que permitiu formar a comissão independente que recolheu casos de abuso sexual na instituição católica. E também dos católicos que na semana passada tinham reclamado medidas concretas à Conferência Episcopal e viram o seu pedido ignorado na reunião dos bispos. O jornalista Jorge Wemans disse ao Público que a Igreja deu "um passo atrás" nesse caminho, ao não apresentar medidas concretas. E reclama uma "reflexão sobre o exercício do poder na Igreja e o profundo clericalismo que a domina" e que é precisamente onde "reside a possibilidade de abusos".
Para o psiquiatra Daniel Sampaio, um dos membros da comissão independente agora extinta, assistimos na sexta-feira a "uma conferência de imprensa dececionante. A Igreja não se colocou do lado das vítimas e, nesta questão, é fundamental pensarmos nas vítimas em primeiro lugar". Em entrevista ao Público, responde a Ornelas quando afirmou que só lhe foi entregue uma lista de nomes sem acusação. "Não deveria haver surpresa nenhuma: os senhores bispos foram avisados, por diocese, da lista desses abusadores. Nunca pusemos nenhum nome cá fora, nem das vítimas nem dos abusadores. Só podíamos ter uma lista de nomes. Agora compete à Igreja e ao Ministério Público – se assim o entenderem. Essas entidades é que têm de aprofundar as investigações", afirma Sampaio, que também defende o afastamento preventivo desses padres. "No meu ponto de vista pessoal, como psiquiatra, é natural que o comportamento se possa repetir. Devem ser suspensos e, se forem inocentes, voltam ao ministério", defende.
"Insensibilidade atroz", "não se nota compaixão": católicos indignam-se com resposta da hierarquia
Também ouvido pelo mesmo jornal, Nuno Caiado, o primeiro subscritor da primeira carta aberta à Igreja, fala de "uma resposta equivocada" e lamenta que "as questões éticas, primeiro, e as questões morais, depois, pareçam ter ficado soterradas pelas questões do direito, quer canónico, quer civil". Também a resposta de Ornelas quanto à possibilidade de indemnizar as vítimas, fazendo isso depender de um processo cível, foi vista por este católico como "insensibilidade atroz". Embora não considere as indemnizações a melhor solução, Caiado diz que fazê-las "depender de um processo nos tribunais civis parece-me uma coisa extraordinária e inaudita".
"Eu não consegui vislumbrar nada de concreto. Houve uma fuga sistemática para as questões legais. Está aqui um problema moral", disse à SIC Lisete Fradique, do movimento Nós Somos Igreja, apelando aos bispos que encobriram abusos que tenham "a coragem de sair" pelo seu próprio pé. Apesar do pedido de desculpas às vítimas, "não se nota compaixão" na postura de Ornelas, prossegue esta católica que se afirma "chocada" com o anúncio de um memorial por ocasião das Jornadas Mundiais da Juventude. "Isto é uma dor imensa. Misturar estas duas coisas. Deveria ser algo de recolhido. Quem foi abusado estará a reviver toda a experiência", afirmou.
No plano político, a reação à resposta da Conferência Episcopal veio pela voz de Catarina Martins. "Não consigo explicar como é possível os bispos terem achado que podiam fazer aquela conferência de imprensa, que não tenham percebido o insulto enorme a todas as pessoas católicas deste país", afirmou a coordenadora do Bloco de Esquerda.
"Se a igreja quer fechar os olhos, o país não pode fechar os olhos. E é preciso uma nova comissão independente e uma comissão independente que dê segurança às vítimas para fazerem as suas denúncias. E dê também segurança ao país, que ao proteger as vítimas e ao tirar consequências do que aconteceu, seja também capaz de tornar visível o encobrimento terrível que a igreja católica fez e continua a fazer", acrescentou.