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Sahara Ocidental: Aminetu Haidar pede intervenção de Portugal

A activista saharaui apelou, esta segunda-feira, ao Governo português para “salvar a vida” de milhares de pessoas. José Manuel Pureza também defendeu que Portugal deverá usar estatuto de membro recém-eleito do Conselho de Segurança para mobilizar a ONU para a questão do Sahara Ocidental.
As forças militares de Marrocos atacaram o Acampamento Gdeim Izik, onde se encontravam cerca de 20 mil pessoas e que desde há quatro semanas constituía o maior protesto saharauí nos 35 anos de ocupação marroquina. Foto LUSA/EPA/HANDOUT

Aminetu Haidar, a activista pelos Direitos do Homem que se tem destacado na luta pela independência do Sahara Ocidental e que ficou mais conhecida quando, há cerca de um ano, fez uma greve de fome de 32 dias no aeroporto de Lanzarote (nas Ilhas Canárias), chegou a Portugal, no dia em que estava previsto o arranque das negociações entre Marrocos e a Frente Polisário em Nova Iorque, sob a alçada da ONU.

A activista será homenageada esta terça-feira, pela Universidade de Coimbra, através da atribuição da Medalha da universidade. José Reis, director da Faculdade de Economia, explicou à Lusa que esta proposta surge a partir do entendimento de que a Universidade tem também a missão de "estar atenta ao que se passa na defesa dos valores humanos, a actos que pela sua nobreza se destacam na sociedade".

Mas também esta segunda-feira, foi notícia a acção violenta das autoridades marroquinas e o seu ataque ao Acampamento da Liberdade, existente às portas da capital do Sahara Ocidental, El Aiun, onde se encontravam mais de 20 mil saharauis e que foi montado há um mês como forma de protesto e para exigir melhores condições de vida.

As forças marroquinas queimaram e destruíram as tendas do acampamento, provocando pelo menos 11 mortos, 723 feridos e 159 desaparecidos, anunciou o responsável da Frente Polisário para os Assuntos Externos, Mohamed Uld Salek. 

Ainda esta segunda-feira, em El Aiún, jovens saharauís, impedidos pelas forças marroquinas de se dirigirem ao acampamento, iniciaram uma autêntica intifada, erguendo barricadas, atirando pedras às forças ocupantes e queimando pneus e automóveis.

Segundo o jornal espanhol El País, as associações saharuis de defesa dos direitos humanos afirmam, contudo, que só quando os ânimos se acalmarem em El Aiun, aí sim, se conhecerão as consequências da violência das autoridades marroquinas. Por enquanto, a capital ocupada do Sahara Ocidental acordou num ambiente de tensão e aparente calma, após Marrocos ter declarado o recolher obrigatório na noite anterior.

Esta segunda-feira a companhia aérea marroquina Royal Air Maroc impediu doze jornalistas de órgãos de informação estrangeiros de viajarem de Casablanca para El Aiun para cobrir confrontos.

Aminetu Haidar acusa Marrocos de "massacrar povo saharaui"

Face à preocupante situação vivida em El Aiun, que não foi ainda condenada pela ONU ou pela União Europeia, Aminetu Haidar lançou um apelo ao Governo português, “que é agora membro do Conselho de Segurança da ONU, para salvar a vida de milhares de saharauis”, antes que “haja um massacre contra a população civil”.

“O Conselho de Segurança da ONU tem de exercer pressão sobre Marrocos para que respeite os direitos internacionais e o direito legitimo do povo saharaui à auto-determinação”, defendeu.

Preocupada e triste com o sucedido e sem contacto com outros activistas do acompanhamento, Aminetu Haidar disse que só quer que a mobilização portuguesa seja como quando foi por Timor-Lieste. “Sabemos o papel histórico que Portugal teve na mobilização popular dos portugueses a favor de Timor-Leste, por isso contamos muito com Portugal para juntar a sua voz a outras tantas que defendem a liberdade”, disse.

Bloco quer que Governo tome atitude semelhante à de massacre de Santa Cruz

O Bloco de Esquerda desafiou o Governo a tomar uma atitude relativamente à questão do Sahara Ocidental que seja semelhante à pedida à comunidade internacional aquando do massacre de Santa Cruz, em Timor-Leste.

Na opinião do líder parlamentar do Bloco, “é importante que o Governo português, através dos canais diplomáticos, faça saber a Marrocos da sua extrema preocupação pela gravidade da situação que se vive hoje no Sahara Ocidental”.

“Enquanto Estado recém-eleito para o Conselho de Segurança, como membro não-permanente se valha desse estatuto para mobilizar a ONU para uma posição ainda mais activa na moderação daquilo que é esta violência bruta por parte de Marrocos”, acrescentou José Manuel Pureza.

Pureza defende ainda que Portugal deve pugnar pela “satisfação do dever das Nações Unidas que é a garantia do direito à auto-determinação de todos os povos, neste caso do Sahara Ocidental”. 

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