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Rússia colocou alertas para turistas negros

Autoridades distribuem guias nos aeroportos, hotéis e pontos turísticos onde é sugerido que se evite “atrair atenção não falando alto na sua língua mãe ou andar nas ruas se bebeu. Se é africano, árabe, descendente de asiáticos ou tem a pele escura, tenha cuidado, particularmente à noite”. Por Carta Capital.
Hulk foi alvo de insultos racistas em praticamente todos os jogos enquanto integrava o plantel do Zenit de São Petersburgo.

Ninguém ocupava o banco do lado quando Sauanne Bispo, 32 anos, se sentava no Metro em Moscovo, na Rússia. Uma vez, ofereceu o seu lugar a uma senhora. O vagão estava cheio, mas a mulher recusou. Quando outro homem fez a mesma oferta, a russa aceitou na hora.

A empresária passou dois meses por lá como voluntária da AIESEC (uma organização mundial de estudantes) e sentiu todo o preconceito pela sua negritude. “Já visitei 26 países. A Rússia é linda, mas foi o pior deles. Não era uma impressão minha. Eu tinha medo nas ruas. Chegaram a oferecer-me dinheiro pensado que eu era prostituta”, afirma.

A má experiência motivou a baiana a abrir a Go Diaspora que oferece destinos alternativos de intercâmbio. A agência oferece opções de estudos em 44 países, entre eles, Jamaica, Trindade e Tobago, Senegal e Namíbia. “Quero que as pessoas se sintam à vontade”.

A Rússia é de facto um país racista. Basta atender à orientação de Tamara Pletnyova, presidente da Comissão Parlamentar para Família, Mulheres e Crianças do Congresso russo, para que as mulheres evitem relações sexuais com estrangeiros "de outras raças". O perigo é tornarem-se mães solteiras com crianças mestiças – dois factores que, segundo ela, as colocariam em situação vulnerável na sociedade russa.

E a sociedade russa responde da mesma forma. Um estudo de opinião elaborado por economistas suecos perguntou aos russos – e a cidadãos de outros 79 países – se eles gostariam de ter vizinhos de “raças diferentes”. Quase 20% deles disseram não.

Em comparação, só 5% dos canadianos, australianos, latinos, britânicos, americanos, neozelandeses disseram incomodar-se com vizinhos de “raças diferentes da sua”. Na outra ponta, estavam a Índia e a Jordânia como os menos tolerantes (com mais de 40% a rejeitar morar “perto de pessoas de outras raças”).

Justamente por isso, existem guias a serem distribuídos em aeroportos, hotéis e pontos turísticos, a orientação é: “evitar atrair a atenção não falando alto na sua língua mãe ou andar nas ruas se bebeu [obviamente não funciona durante o Mundial de Futebol]. Se é africano, árabe, descendente de asiáticos ou tem a pele escura, tenha cuidado, particularmente à noite”.

Racismo no futebol

Nos jogos russos da época 2016/2017, houve 89 incidentes racistas e de extrema-direita, de acordo com novos dados reunidos pelo SOVA Center, organização que desenvolve estudos sobre nacionalismo e racismo na Rússia. Em dois anos, o país acumulou 200 casos.

Equipas de futebol do país chegaram até a ser suspensas devido a casos de racismo. Em 2015, o CSKA, o mais tradicional do país, teve parte do estádio fechado após os seus adeptos repetirem cânticos racistas contra o Anzhi, equipa da região do Cáucaso. Uma faixa simulava o escudo da equipa com a frase "planeta animal."

Um dos mais famosos jogadores brasileiros a queixar-se de racismo foi o avançado Hulk [que passou pelo FC Porto], que jogou durante quatro anos no Zenit, equipa de São Petersburgo, segunda maior cidade da Rússia. "Acontece [insultos racistas vindos das arquibancadas] em quase todo jogo na Rússia, mas o mundo não ouve sobre isso porque eles tentam manter em silêncio", contou em 2015, aos jornalistas após um treino. "Eu vejo acontecendo o tempo inteiro. Costumava me deixar muito bravo, mas agora eu apenas mando beijos aos torcedores e tento não me incomodar", concluiu.

 Dois anos depois, ao se transferir para o futebol chinês, o jogador declarou que não havia mais racismo na Rússia. Segundo as declarações de Hulk, os adeptos deixaram de incomodá-lo, no seu último ano por lá, e, por conta da ausência de casos de racismo durante a Taça das Confederações, não acreditava que os negros teriam problemas durante o Campeonato Mundial de Futebol.

Ainda assim, o historial do país fez com que o ministério dos Negócios Estrangeiros do Brasil emitisse uma recomendação para brasileiros que vão assistir aos jogos do Mundial: “viajar com grau moderado de cautela”. Sobre xenofobia e discriminação, o ministério dos Negócios Estrangeiros alerta que “ataques contra minorias são uma dura realidade do país, mas raramente evoluem para violência física. Casos de skinheads e outros gangues organizados podem ser mais graves”.

Já a Fare, agência antirracista europeia, elaborou um guia  para os visitantes de minorias étnicas que vão ao Mundial. O documento recorda que “as verificações de identidade baseadas em perfil étnico pela polícia são comuns, especialmente se parecer ser da Ásia Central ou árabe; um polícia pode pedir-lhe os documentos de identificação aleatoriamente na rua; controlos de identidade são muito comuns no metro de Moscovo e São Petersburgo para quem é de uma minoria étnica; pode ser solicitado a passar por um detetor de metais e ter o conteúdo das suas malas verificado”.

Negros: figuras raras

Quase sempre russos abordam Marcela Anunciação, 29 anos, para tirar fotos. ““Na semana passada estava próxima à Praça Vermelha e em cerca de 10 minutos umas cinco pessoas me pediram para tirar fotos com eles”, conta a professora de inglês e português, que mora há um ano e sete meses na Rússia. “No Brasil eu sou só mais uma mulher negra de cabelos afro e aqui eu sou ‘a’ mulher negra de cabelos afro. É bem fácil de ver o quanto as pessoas ficam surpresas e curiosas”, ressalta.

Ela não sente racismo – só curiosidade. Afinal, negros são minoria na Rússia.  Num país com 140 milhões de habitantes, estimativas apontam que haja apenas 70 mil negros por lá.

Um levantamento do Harvard Institute for Economic Research mostra que a Rússia é um dos países menos diversos etnicamente no mundo, no mesmo grupo de países como China.  Japão e as Coreias são os mais homogéneos etnicamente, enquanto países africanos são os menos, com destaque para a Somália. Os países das Américas também tendem a ser etnicamente mais diversos.

É que não houve escravidão na Rússia. Os negros chegaram só na década de 1920 quando a então União Soviética recebeu os primeiros estudantes estrangeiros, atraídos por universidades consideradas boas e baratas.

Quando Nikita Khrushchev chegou ao poder, no final dos anos 1950, começou uma política para apoiar os estados recém-independentes na África, Ásia e América Latina, oferecendo-lhes oportunidades de estudar na União Soviética. O objetivo era disseminar o socialismo no mundo em desenvolvimento e transformar pessoas que adquiriram sua educação no país em bons amigos do seu povo.

Apesar da ideologia oficial de amizade dos povos, os estudantes estrangeiros também experimentaram formas duras de racismo, sendo alvo de assédio e reprimidos.

Por conta da ausência de negros e de contacto dos russos com o tema, a Fare lembra que já houve casos de apoios a nações africanas – só que, curiosamente, usavam black power ou black face, consideradas racistas e banidas noutros países.

“Os russos podem ser menos sensíveis nos vocabulários considerados racistas e muitas vezes não têm tato quando comunicam com pessoas negras ou asiáticas; andando pelas ruas de cidades menores, é mais provável que você veja os olhares e seja submetido à curiosidade. Pode nem sempre ser agressivo na intenção”, ressalta o alerta da FARE.

Artigo publicado em Carta Capital.

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