Ramadão sem água e luz em Gaza

26 de agosto 2010 - 14:45

“Foram vários dias sem eletricidade nem água. Não podemos fazer nada, e agora o calor está insuportável”, disse Abu Fouad, de 83 anos, referindo-se aos cortes de energia na Faixa de Gaza. Por Eva Bartlett, da IPS.

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Com a rede de água e electricidade desfeita, as temperaturas em Gaza rondam os 35 a 40 graus centígrados, e a humidade chega a 65%. Foto Andreas H. Lunde/Flickr

Embora os palestinos que moram nesse território costeiro estejam acostumados aos apagões – devido, em parte, aos bombardeamentos israelitas que destruíram centrais eléctricas –, estes aumentaram em frequência e duração.



Por vários anos, os palestinos em Gaza sofrem cortes que podem durar entre seis e 14 horas. Mas agora podem estender-se por dias inteiros. A principal razão é uma suposta falta de combustível para a rede energética, combustível que, desde novembro de 2009, a Autoridade Nacional Palestina, com escritório na cidade cisjordana de Ramallah, tem a responsabilidade de comprar e transferir para Gaza.



Para piorar as coisas, Gaza sofre uma intolerável onda de calor e humidade. As temperaturas rondam os 35 a 40 graus centígrados, e a humidade chega a 65%. Umm Fouad, uma mulher de 64 anos, teve 15 filhos e, portanto, a sua saúde é frágil. Fica constantemente debilitada. “Faz muito calor. Não posso respirar. Estou exausta. Não tenho alívio, nem quando há electricidade, porque o ventilador de teto espalha ar quente. E agora, sem electricidade, durante tanto tempo, tudo fica mais quente e difícil”, afirmou.



O mês do Ramadão é um tempo de alegria para os muçulmanos, no qual realizam jejuns diários e celebram ceias à noite. Porém, esse é um dos mais duros que enfrenta a família de Abu Fouad. Além das perigosamente altas temperaturas e humidade, há preocupações práticas. “Não podemos fazer pão, não temos gás para cozinhar”, disse Umm Fouad.



“Passámos três dias sem água”, contou, por sua vez, Abu Jaber, de 45 anos, um dos muitos filhos de Abu Fouad. Seu apartamento fica no terceiro andar de um prédio onde o calor aumenta até ficar insuportável. “São 53 pessoas a viver neste edifício. Os nossos seis apartamentos precisam de aproximadamente 1.500 litros de água por dia para cozinhar, lavar roupa, fazer limpeza, tomar banho, sem contar a água para beber”, afirmou.



Como outros lares do bairro, o seu não tem ligação de água. Abu precisa acoplar uma mangueira na tubulação pública mais próxima, a cerca de 150 metros de distância, e estendê-la até os recipientes que instalou no telhado. “Precisamos de cinco ligações para levar a água até o tecto de casa”, explicou. Em toda a Faixa de Gaza, as canalizações de água foram afectadas pela falta de electricidade. Áreas inteiras ficam sem acesso a água durante os apagões.



A Organização das Nações Unidas disse que 43% da água na rede canalizada perde-se em fugas, e isso destaca a necessidade de reabilitá-las. No entanto, sob o duro cerco israelita, é impossível entrar material básico para os reparos. “Agora que os cortes de energia duram vários dias, o meu pai não pode trazer água para atender as necessidades da família”, disse Abu Jaber.



Abu Fouad explica a rotina que segue para manter os depósitos cheios. “No melhor dos casos, quando há electricidade, é preciso pelo menos uma hora para bombear a água para cada um dos tanques de 1.500 litros. Como são seis tanques, demora quase meio dia”. Mas isso quando há electricidade. Com os cortes, somos obrigados a esperar.



“Estou preocupado por todos em casa. Todos precisam de água. Como se lavarão para as orações? Como poderão refrescar-se com este calor?”, perguntou. “Todos chegam do trabalho ou da escola e esperam tomar um banho. Mas agora é difícil fazer isso”, acrescentou. Como muçulmano devoto, Abu Fouad também se preocupa com sua limpeza para orar. “Agora que é Ramadão, o mais importante é lavar-se. Não peço muito, só preciso limpar minhas mãos, o rosto e meu corpo antes de rezar, e rezo cinco vezes ao dia”, contou.



Abu Fouad não descansa esperando o regresso da energia eléctrica para encher os depósitos de água. “Não durmo muito. Era mais fácil não dormir quando era jovem, mas quando se está velho, e com este calor, eu sofro. Estou muito cansado, minhas articulações doem. Preciso descansar. Preciso de água”, afirmou.



Abu Jaber concorda quanto ao principal problema na casa. “A minha filha estuda longe, na universidade, e precisa imperiosamente de um computador com acesso à Internet”, disse. O seu filho de oito anos, Ahmed, também sofre com os apagões. “Ele está jejuando este ano. Também jejuou no ano passado, mas como agora não tem como se refrescar neste forte calor, para ele é difícil fisicamente”, contou Abu Jaber. O seu irmão mais novo, de 31 anos, não trabalha há vários anos. “Meu irmão abriu uma gelataria há alguns meses para trabalhar no verão e logo quando começava a ter clientes e recuperar o investimento, os cortes de energia agravaram-se”, acrescentou.

 


Artigo Envolverde/IPS