“Quando um profissional de saúde reivindica condições de trabalho está a defender a saúde”

28 de julho 2023 - 15:48

Mariana Mortágua esteve presente na luta dos enfermeiros dos hospitais privados, um setor com “muita precariedade, baixos salários, longas horas de trabalho”. A propósito do SNS, acusou ainda o Ministério da Saúde de fazer um “simulacro de negociações”.

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Mariana Mortágua na luta dos enfermeiros dos hospitais privados.

Os enfermeiros dos hospitais privados estão esta sexta-feira em greve. Para mostrar a solidariedade do Bloco de Esquerda para com a sua “luta muito corajosa”, Mariana Mortágua marcou presença na manifestação que fizeram no Hospital dos Lusíadas em Lisboa.

A coordenadora da Comissão Política do Bloco traça o quadro de um setor com “muita precariedade, baixos salários, longas horas de trabalho”. Os enfermeiros saem do SNS porque este “dá poucas condições de trabalho e sobretudo horários excessivos com pouco salário” são aliciados para o privado por “um pouco melhores” mas quando chegam a setor “o que encontram é precariedade, horários mais longos e salários muito abaixo daquilo que achavam que iam ter porque depois também não progridem na carreira”. Isto “para além também dos problemas de outsourcing, subcontratatação”.

A situação é, assim, de “uma corrida para o fundo” em que, por um lado, “o público não paga bem, não retém profissionais, os profissionais saem para o privado” e, por outro, “o privado aproveita-se depois também não dando condições laborais e o país vai ficando também cada vez mais precário, com cada vez menos salários e estes grupos privados da saúde vão ganhando muito dinheiro porque estão cobrar aos utentes transformados em clientes valores astronómicos por serviços prestados por enfermeiros precários e mal pagos”.

Para o Bloco, “não existe nenhuma razão, no público ou no privado para devermos tolerar práticas de precariedade e de baixos salários”. E isto “ainda mais” assim o é “num negócio da saúde que dá muitos lucros às empresas e acionistas privados”. Lucros que, insiste Mariana Mortágua, “vêm de dois sítios”: da exploração dos “utentes transformados em clientes que pagam estes serviços” e dos “salários muito precários, longas horas de trabalho e trabalhadoras extenuadas”.

De forma a quebrar este ciclo, é preciso “que o público faça a sua parte” de forma a “reter estes profissionais” e a “puxar para cima todas as condições de trabalho”.

Questionada pela comunicação social por sobre as reuniões negociais de outros profissionais de saúde com o Ministério da Saúde, a porta-voz bloquista defendeu que o governo” tem feito simulacro de negociações” e “um conjunto de provocações aos sindicatos”, dizendo “vamos negociar mas não há nem propostas concretas, nem propostas que os profissionais possam aceitar”. Face à principal reivindicação dos profissionais que é que “trabalham demasiadas horas para muito pouco salário”, este responde: “podemos dar algum aumento salarial desde que vocês trabalhem mais horas ainda”. Isto quando, por exemplo, “os médicos trabalham três meses de horas extraordinárias por ano”. Pelo contrário, “a única forma de respeitar profissionais de saúde é aceitar que têm de ter um horário de trabalho compatível com a sua vida familiar, lazer, bem-estar, e serem pagos por isso e não é isso que está em cima da mesa”, concluiu.

Mas a deputada não culpa apenas o ministro da saúde. Este “faz o mesmo que faz o ministro das Finanças: pode-se negociar desde que não aumente a despesa estrutural”, recorrendo muitas vezes a cortes de despesa “de gaveta”.

A dirigente bloquista respondeu ainda a uma pergunta sobre se as greves na saúde não seriam demasiadas e se não estariam a afetar os utentes. Mariana Mortágua contrapõe que “as greves dos profissionais da saúde são greves pela saúde: as dos profissionais do SNS são greves pelo SNS e as dos profissionais do privado são greves pela saúde no privado”.

E são “sobre as condições de trabalho dos profissionais mas também sobre o acesso a serviços por parte dos utentes”. Porque “serviços que são baseados em profissionais extenuados, em burnout, mal pagos, com turnos impossíveis, são maus serviços para os utentes”. Tal como “serviços que não têm profissionais suficientes porque os profissionais que temos emigram ou vão para outras áreas porque estão cansados de ser precários, trabalhar demasiado e receber pouco são maus serviços para os utentes”. Por isso, concluiu, “de cada vez que um profissional de saúde reivindica condições de trabalho está a defender a saúde”.