São 3500 trabalhadores mais que ficarão sem emprego nesta Europa de 25 milhões de desempregados. Despedidos não, garante a administração do grupo que junta dois símbolos da indústria automóvel e da economia francesa, a Peugeot e a Citroen. Os trabalhadores ficarão ao abrigo do conceito de "mobilidade externa", isto é, serão alegadamente recolocados em unidades que, segundo sabem os sindicatos, têm "excesso de efetivos" de acordo com os padrões do grupo.
As organizações de trabalhadores em Aulnay-sous-Bois, no Departamento do Seine-Saint-Denis, mobilizam-se a nível local e central para responder a mais esta ofensiva. "Seremos o pior pesadelo do governo e da PSA", promete Ahmed Berrazzel, dirigente da central CGT na empresa. E lembra: "aqui quase todos votámos Hollande; e eu testemunho que no dia do debate entre as duas voltas Hollande me disse textualmente que 'se os franceses me escolherem impedirei a PSA de fechar a fábrica e receber-vos-ei'". Que efeitos terão estas promessas?
Os trabalhadores estão, apesar de tudo, na expectativa; mas o governo, assim desafiado frontalmente por um grupo onde o Estado tem injetado milhões de euros dos contribuintes, padece dos seus próprios complexos. Apesar de proferidas durante os anos noventa, as palavras do então primeiro ministro socialista e agora de novo ministro, Laurent Fabius, pesam ainda muito: "O Estado não pode tudo", reconheceu desastradamente numa ocasião semelhante.
O encerramento da fábrica de Aulnay integra-se no anúncio do despedimento de oito mil trabalhadores do grupo PSA até 2014, o que representa 10 por cento dos efetivos atuais.
O velho operário marroquino Mbarek Hafaoui, com 38 anos de casa, interroga-se sobre as razões que transformaram "esta fábrica que é a nossa vida, a quem temos amor" no seu "corredor da morte". Exatamente porque este "amor" é apenas e tão só "sobrevivência". Hafaoui chegou de Marrocos em plena euforia dos anos setenta, mas a felicidade ter emprego confundiu-se com um pesadelo que foi superando no dia-a-dia: as "bocas" sobre os factos de ser estrangeiro, árabe e de pele escura; a discriminação laboral imposta pelos capatazes por ser cidadão clandestino durante muito tempo, impedido de se sindicalizar, ameaçado de "ir de volta para o Hassan II" se regateasse salário ou reclamasse folgas. Folgas que poderia obter, de tempos a tempos, se oferecesse uma garrafa de Ricard ao responsável, sugestão com requintes de cinismo por saberem que ele, muçulmano, não poderia tocar em álcool. Agora, depois deste fio de anos, chega o despedimento, o "corredor da morte".
No entanto, o grupo PSA, no qual o Estado tem vindo a gastar milhões de euros dos franceses, distribuiu em 2011 cerca de 250 milhões de euros em dividendos os acionistas, entre os quais o Estado não figura. O grupo é orgulhosamente privado, rege-se pelas insondáveis e inquestionáveis normas "do mercado".
Na Assembleia Nacional há deputados que reagem, mas fora da esmagadora maioria socialista que sucede à esmagadora maioria sarkoziana. A Frente de Esquerda colocou imediatamente na ordem do dia uma proposta de lei que impeça as empresas que distribuem dividendos de receber subsídios do Estado. Parece elementar. Mas será que o Estado "que não pode tudo" poderá ao menos isso?
Reportagem Mediapart/Adaptação de José Goulão
Artigo publicado no portal do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu