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Porque não voltamos à Lua há meio século?

“A razão pela qual há 50 anos se chegou à Lua não foi o avanço desinteressado da ciência”, afirma Miquel Sureda Anfres, investigador na Universidade Politécnica da Catalunha, que explica brevemente neste texto a corrida espacial nos anos 50 e 60, até 1969.
Neil Armstrong na Lua junto da Apolo 11 – foto da NASA
Neil Armstrong na Lua junto da Apolo 11 – foto da NASA

Este ano de 2019 comemoramos o 50º aniversário da ida do primeiro homem à Lua, na missão Apolo 111. Depois de cinco dias de viagem, a 21 de julho de 1969, Neil Armstrong abriu a escotilha do módulo lunar, desceu lentamente a escada e pisou a superfície empoeirada do nosso satélite, pela primeira vez.

O incrível é que apenas tinham passado 12 anos desde que a URSS pusera em órbita o primeiro satélite artificial da história. Isto significa que, em pouco mais de uma década, foi possível criar toda a tecnologia necessária para que três homens pudessem sair para o espaço frio e hostil, viajar 400 mil quilómetros de distância, passear na Lua e voltar para casa em condições sãos e salvos.

Fotografia de Buzz Aldrin por Neil Amstrong. Nasa
Fotografia de Buzz Aldrin por Neil Amstrong. Nasa

E depois, o quê? Tenho a certeza de que, se nessa época tivéssemos perguntado a engenheiros espaciais de todo o mundo, muitos teriam apostado que numa década o homem estaria em Marte. Mas, por incrível que pareça, desde o final do programa Apolo em 1972, apenas nos atrevemos ir à Estação Espacial Internacional, um pequeno laboratório que orbita a Terra a 400 quilómetros de altura com seis astronautas a bordo.

Sim, leram bem. Em 1969 fomos capazes de viajar 400.000 quilómetros no espaço, o equivalente a dar 60 voltas à Terra, e agora o máximo que podemos afastar-nos da superfície terrestre é 400 quilómetros, menos do que a distância de Barcelona a Madrid.

Para entender este paradoxo, é necessário dar um salto para trás no tempo. Preparados?

A corrida espacial

A história começa em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial. Os aliados vencem a guerra e os EUA e a URSS entram numa dura batalha para conseguir os restos do foguete V2, o primeiro míssil balístico de longo alcance do mundo. O foguete poderia levar quase 1.000 quilos de explosivos a 300 km de distância e foi responsável pela morte de mais de 7.000 pessoas, principalmente em Londres.

Foguete V2. Museu Imperial da Guerra

Foguete V2. Museu Imperial da Guerra

Terminada a guerra, os EUA e a URSS encontram vários V2 e começam a estudá-los exaustivamente, cada um por seu lado. Além disso, fazem todo o possível para levar para os seus países cientistas e engenheiros envolvidos no projeto dessa poderosa arma.

É assim que Wernher von Braun, um dos principais responsáveis do foguete V2 da Alemanha nazi, acaba a trabalhar para o exército norte-americano (em troca de um bom visto e de uma amnésia coletiva em relação ao seu passado como membro das SS).

Pelo seu lado, altos funcionários da URSS estão à procura de alguém que possa liderar o seu programa de desenvolvimento de mísseis. Um nome se destaca: Sergei Korolyov, que tinha demonstrado dotes excepcionais em foguetes amadores e parecia a pessoa ideal. Mas havia um pequeno problema: ele estava a apodrecer num gulag da Sibéria, vítima da grande purga de Stalin. Diante da necessidade, ele também foi perdoado em troca de prestar serviços à pátria.

Koroliov vs. Von Braun

Koroliov vs. Von Braun

A Guerra Fria tinha começado e os dois blocos tinham pressa de desenvolver os seus próprios mísseis para poder alcançar território inimigo em poucos minutos e quase sem oposição. No entanto, os mísseis também abriram a porta para novos veículos: lançadores espaciais, capazes de chegar ao espaço e colocar satélites e naves espaciais em órbita.

Assim, a conquista do espaço torna-se um novo cenário dessa guerra fria. Num primeiro momento, a URSS leva isso mais a sério do que os Estados Unidos e atinge primeiro. A 4 de outubro de 1957, põe em órbita o Sputnik, o primeiro satélite artificial da história.

Imagine como a notícia foi sentida nos EUA. Qualquer radioamador podia sintonizar aquele bipe e sabia que um satélite soviético estava a voar por cima da sua cabeça. Os americanos reagem à "crise do Sputnik", colocando muito mais recursos para recuperar o terreno perdido face à URSS. De facto, o mesmo Von Braun (o dos mísseis V2) passa a fazer foguetes para a NASA, o que, por outro lado, sempre foi o seu sonho.

Tudo isto não parece surtir muito efeito. Os soviéticos são os primeiros a lançar uma cadela para o espaço (a pobre Laika), a lançar em um homem (Yuri Gagarin), a lançar em uma mulher (Valentina Tereshkova) e a fazer um passeio espacial.

É nesse contexto que o presidente Kennedy faz um famoso discurso, em 1962, no qual compromete os Estados Unidos com um objetivo comum. (Ver vídeo no final do artigo)

A questão interessante desse discurso é que era a sério. Na década de 60 os EUA fizeram uma aposta brutal para atingir o objetivo de chegar à Lua antes dos soviéticos. Recursos quase ilimitados na forma de investimento, talento humano e instalações.

O final da história já todos conhecemos: a missão Apollo 11 certifica o fim da corrida espacial. Embora na minha opinião a União Soviética vencesse o combate por pontos, porque na verdade era a primeira em quase tudo, os Estados Unidos conseguem o KO quando Armstrong pisa a Lua.

Um futuro promissor?

Esta bonita história deixa claro que a razão pela qual há 50 anos se chegou à Lua não foi o avanço desinteressado da ciência. A verdade é que o que empurrou os Estados Unidos foi a corrida espacial no contexto da Guerra Fria. Isso significa: geopolítica, propaganda e supremacia militar.

Não é de surpreender que, desde essa conquista, os orçamentos da Nasa tenham caído para um décimo do que eram nos anos 60 do século passado. O objetivo era chegar à Lua em primeiro lugar e isso já tinha sido alcançado.

Evolução do orçamento da Nasa. Wikimedia

Evolução do orçamento da Nasa. Wikimedia

Atualmente, o surgimento de empresas privadas e novas agências espaciais, como a China, estão a obrigar os EUA, a Rússia e a Europa a despertar da sua letargia. Eu gostaria que assim fosse e que os planos apresentados para voltar à Lua na próxima década fossem realistas.

E então, Marte; e alguma lua de Saturno.

Mas é melhor parar de sonhar e continuar a fazer a minha parte para que sociedade volte a ver a exploração espacial como algo prioritário. E, daí, diretos às estrelas.

Artigo de Miquel Sureda Anfres, Investigador do L’AIRE - Laboratório de Investigação e Estudos Aeronáuticos e Industriais, Universidade Politécnica da Catalunha – BarcelonaTech. Publicado em theconversation.com. Tradução para português de Carlos Santos para esquerda.net


Nota do tradutor:

1 A chegada à Lua deu-se às quatro da manhã, segundo a hora de Lisboa, do dia 21 de julho de 1969.

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