O novo instrumento de medida desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e pela universidade de Oxford, conhecido por Índice Multidimensional de Pobreza (MPI, na sigla em inglês), vai substituir o Índice de Pobreza Humana, utilizado em todos os relatórios da agência desde 1997. O MPI será utilizado na edição que marcará o 20º aniversário do Relatório de Desenvolvimento Humano do Pnud, e permitirá medir a intensidade da pobreza, o que significa que bolsões de miséria ao redor do mundo podem ser directamente comparados e, de acordo com os pesquisadores, também aprimoradas as formas de combate a pobreza.
Segundo a directora da unidade de investigação da Universidade de Oxford, Sabina Alkire, o novo método observa uma combinação de dez factores, incluindo saúde, educação e padrão de vida, e procura identificar onde estes factores se sobrepõem em nível doméstico.
”Uma criança não vai à escola, mas esta criança pode também estar mal nutrida e seus pais talvez nunca tenham frequentado a escola. E existe uma escola? Então, as barreiras para que ela entre na escola são: um, há uma escola? Dois, os pais desta criança sabem o valor da educação escolar e de ajudar com os deveres de casa? E três, quando a criança está na escola, ela pode se concentrar e aprender? Porque ela pode estar mal nutrida e não ter capacidade de concentração. Por isso observamos como estas coisas acontecem simultaneamente em nível doméstico.”, exemplifica a investigadora.
Segundo o novo método, existem 1,7 mil milhões de pobres no mundo, 400 milhões a mais do que os identificados no actual cálculo da ONU, sendo que a maior parcela da população pobre está na Índia, ao contrário do que diz o senso comum que remete para a África. De acordo com a nova medida, mais de 50 por cento da população da Índia é pobre, contra 42% na antiga. Estas pessoas estão concentradas nos oito estados mais pobres da Índia e ultrapassam em número os países subsaarianos mais pobres, embora nestes a concentração de pobreza seja pior.
Para o especialista em cooperação e desenvolvimento Paul Hoebink o novo modelo ainda não é muito convincente visto que as diferentes causas de pobreza que o método enfoca são muito difíceis de serem mensuradas. ”Isso faz com que este modelo seja um pouco duvidoso. Claro que você pode medir um pouco. Você pode medir áreas que estão ameaçadas de enchente ou que parte do país é mais vulnerável a um terremoto ou tempestade tropical. Mas em geral estas medidas dependem do momento em que são feitas. Portanto, por um lado são cientistas competindo com ideias, por outro muitos destes aspectos multidimensionais são simplesmente muito difíceis de mensurar”, lembrando ainda que a forma de pensar a pobreza utilizada no MPI não é particularmente nova.
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