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Paul Krugman: O que a Grécia ganhou

Para o economista Prémio Nobel de 2008, a Grécia saiu muito bem das negociações com o Eurogrupo, “embora as grandes lutas ainda estejam por vir. E, por sair-se bem, a Grécia fez um favor ao resto da Europa”.
Foto de José Carlos Barretta, flickr.

Esta é a tradução da nota de Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia de 2008, no seu blog do New York Times:

O que a Grécia ganhou

Na semana passada, depois de muito drama, o novo governo grego chegou a um acordo com seus credores. No início desta semana, os gregos preencheram alguns detalhes sobre a forma como pretendem cumprir os termos. Então, como correu?

Bem, se acreditasse em muitas das notícias e artigos de opinião dos últimos dias, pensaria que foi um desastre - que foi uma "rendição" por parte do Syriza, a nova coligação de governo em Atenas. Algumas fações dentro do Syriza, aparentemente, também acham. Mas não foi. Pelo contrário, a Grécia saiu das negociações muito bem, embora as grandes lutas ainda estejam por vir. E, por sair-se bem, a Grécia fez um favor ao resto da Europa.

Para entender o que aconteceu, é preciso entender que o principal ponto de discórdia envolve apenas um número: o tamanho do superavit primário grego, a diferença entre as receitas do governo e as despesas do governo sem contar os juros da dívida. O superavit primário mede os recursos que a Grécia está, na realidade, a transferir para os seus credores. Tudo o resto, incluindo o tamanho nominal da dívida – que, neste momento, é um número mais ou menos arbitrário, com pouco impacto sobre o montante que esperam que a Grécia pague - apenas interessa na medida em que afeta o superavit primário que a Grécia é forçada a executar.

A Grécia executar qualquer excedente - dada a crise do nível de depressão e o efeito dessa depressão nas receitas - é um feito notável, o resultado de sacrifícios incríveis. No entanto, o Syriza sempre foi claro que pretende manter um superavit primário modesto. Se está zangado por as negociações não terem dado lugar a uma reversão total da austeridade, uma viragem para o estímulo fiscal keynesiano, não estava a prestar atenção.

A questão era saber se a Grécia seria forçada a impor ainda mais austeridade. O governo grego anterior tinha concordado com um programa em que o superavit primário iria triplicar nos próximos anos, o que implicava um imenso custo para a economia e as pessoas da nação.

Por que razão algum governo concordaria com algo assim? Medo. Essencialmente, os líderes sucessivos na Grécia e noutros países devedores não se atreveram a desafiar as exigências extremas dos credores, por medo de serem punidos - de os credores cortarem a sua liquidez, ou, pior ainda, de implodirem o seu sistema bancário se se recusassem a cortes cada vez mais duros no orçamento.

E o atual governo grego recuou e concordou em apontar para esses excedentes que arrasam a economia? Não, isso não aconteceu. Na verdade, a Grécia ganhou uma nova flexibilidade para este ano, e a linguagem sobre os excedentes futuros foi obscura. Pode significar qualquer coisa ou nada.

E os credores não 'tiraram o tapete' à Grécia. Em vez disso, eles disponibilizaram o financiamento necessário para o país nos próximos meses. Isto é, se preferir desta forma, colocar a Grécia numa trela curta, e significa que a grande luta sobre o futuro ainda está por vir. Mas o governo grego não sucumbiu à pressão, e isso por si só é uma espécie de vitória.

Então, qual a razão para os relatos negativos? Para ser justo, a política fiscal não é o único problema. Existiam e existem também argumentos sobre matérias como a privatização de bens públicos, tendo o Syriza concordado em não inverter negócios já concluídos, e regulação do mercado de trabalho, já que parte da "reforma estrutural" da era da austeridade aparentemente vai permanecer. O Syriza também concordou em combater a evasão fiscal, embora seja para mim um mistério por que razão a cobrança de impostos é suposto ser uma derrota para um governo de esquerda.

E, como já referi, ao fazê-lo, a Grécia fez um favor ao resto da Europa. Lembre-se, no pano de fundo do drama grego está uma economia europeia que, apesar de alguns números positivos ultimamente, ainda parece estar a escorregar para uma armadilha deflacionária. A Europa como um todo precisa desesperadamente de acabar com a loucura da austeridade, e esta semana têm existido alguns sinais ligeiramente positivos. Notavelmente, a Comissão Europeia decidiu não multar a França e a Itália por excederem as suas metas de défice.

A cobrança dessas multas teria sido insana face à realidade do mercado; a França pode contrair um empréstimo por cinco anos, a uma taxa de juro de 0,002 por cento. É isso mesmo, 0,002 por cento. Mas já vimos muita loucura semelhante nos últimos anos. Temos de nos perguntar se a história grega desempenhou um papel neste surto de razoabilidade.

Entretanto, a primeira verdadeira revolta de um devedor contra a austeridade começa bem, mesmo que ninguém acredite nisso. Qual é a tradução grega de "Mantenha a calma e continue"?


Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net.

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