Nesta sexta-feira, 10 de março de 2017, realizou-se uma sessão do Bloco de Esquerda em Braga sob o lema “Pela integração de todos os precários do Estado”, em que intervieram Catarina Martins e Pedro Soares. Diversas pessoas precárias do Estado deram o seu testemunho: Ana Filipa Faria, administrativa da universidade; Ana Couto, enfermeira e delegada sindical; Maria Manuel Cunha, terapeuta da fala; Aurora Oliveira, ama; Ricardo Sequeira, professor; Maria Sameiro Brito, auxiliar educativa. José Soeiro respondeu a questões colocadas na sessão.
“Recuperação de rendimentos precisa do combate à precariedade ou não será eficaz”

Na sua intervenção, a coordenadora do Bloco de Esquerda começou por lembrar que os acordos do Bloco à esquerda foram para tirar a direita do governo e para recuperar rendimentos de quem vive do seu trabalho (salários e pensões). E relacionou esses objetivos com a precariedade do trabalho, questionando: “pode-se recuperar rendimentos se não se combater a precariedade laboral no nosso país?”
“O Bloco pensa que não. Por muito que haja avanços para recuperar rendimentos, quem tem um contrato precário ganha sempre menos salário”, afirmou Catarina Martins, sublinhando que “ficará sempre na situação mais frágil”, “nunca sabe como vai ser o dia seguinte”, “tem de aceitar o que ninguém devia ser obrigado a aceitar porque tem medo de ficar sem o seu salário”.
“Por muita legislação que alteremos para redistribuir rendimento, como quem está numa situação precária vê sempre os seus direitos ofendidos, nunca recupera esse rendimento porque o patrão, seja o Estado ou o privado, arranjará forma de pôr essas pessoas fora do que foi legalmente consagrado”, realçou a deputada.
“Para parar o empobrecimento é preciso combater a precariedade”, frisou Catarina Martins.
Obrigar a que o banco público invista na economia que cria emprego
A coordenadora do Bloco de Esquerda pronunciou-se, em segundo lugar, sobre os prejuízos da Caixa Geral de Depósitos, começando por salientar que estes prejuízos agora apresentados (1.859 milhões de euros) não são do ano passado, mas em que “o governo da direita os tinha posto para debaixo do tapete e só agora foi feito um plano de recapitalização. É a assunção do que já era verdade e a direita tentou esconder”.
Considerando que é necessário “perguntar como é que foram feitos” e que sendo verdade que “uma boa parte tem a ver com a crise financeira”, a deputada criticou: “é também verdade que a CGD, durante anos, deu créditos a uns poucos grupos económicos e a uns poucos milionários deste país que nunca pagaram o que devem”.
“Enquanto quem vive do seu trabalho e ganha um salário miserável faz o esforço, que pode e que não pode, para pagar a sua prestação à habitação, uns poucos grupos económicos usaram a CGD para jogos de poder e nunca pagaram o que deviam”, enfatizou a deputada.
Catarina Martins apontou então: “quando vemos estes buracos temos de dizer que daqui para a frente exigimos duas coisas: a primeira, é responsabilizar quem fez o buraco financeiro; a segunda é poder discutir, a partir de agora, como é que a Caixa trabalha com toda a transparência e obrigar a que o banco, que tem dinheiro público, invista o dinheiro na economia que cria emprego”.
Portas giratórias entre poder político e poder económico
Em terceiro lugar, Catarina Martins pronunciou-se sobre as últimas notícias acerca das “transferências para offshores que nunca foram publicadas”.
“A própria existência de offshores e que um país como Portugal permita transferências para offshores insulta qualquer um de nós que vive do seu trabalho e paga tantos impostos e vê pessoas que ganham tantos milhões a não pagar imposto e a esconder o seu dinheiro”, afirmou a coordenadora bloquista.
A deputada lembrou então os “dez mil milhões de euros que não foram publicados – uma história que ainda está muito mal explicada e que ainda é preciso perceber exatamente de quem é a responsabilidade”.
Destacou a notícia de que “Paulo Núncio trabalhou para o escritório de advogados que ajudava a empresa venezuelana que fez estas transferências”, alertou que “ainda não temos as respostas para tudo” e que “devemos fazer perguntas antes de tirar conclusões”, e apontou:
“Convenhamos que a porta giratória entre o poder político e o poder económico tem sido a forma como é feito o assalto económico, o assalto à riqueza do nosso país por uns poucos contra a grande maioria”.
“Como sempre temos dito no Bloco de Esquerda, não acreditamos que o problema seja a falta de capacidade do nosso país, acreditamos que o problema está sempre na má distribuição”, sublinhou ainda Catarina Martins.