“Os republicanos estão dispostos a destruir a economia para recuperar o poder”

10 de julho 2021 - 16:03

O Partido Republicano é hoje uma força extremista que está embrulhada em crenças extremas e irracionais. Para além de boicotar a administração Biden, coloca em perigo a democracia e ameaça o ambiente. Entrevista a Noam Chomsky a C.J. Polychroniou no TruthOut.

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Noam Chomsky. Foto de Andrew Rusk.
Noam Chomsky. Foto de Andrew Rusk.

O Partido Republicano de hoje em dia é uma força extremista que já não cumpre os requisitos de um partido político do mainstream e que seguramente já não está interessado na política “normal”. De facto, o atual GOP [abreviatura de "Grand Old Party", como também é conhecido o Partido Republicano nos EUA] está tão embrulhado em crenças extremas e irracionais que até os partidos e movimentos europeus de extrema-direita, incluindo a União Nacional de Marine Le Pen parecem ser, em comparação, convencionais.

A identidade política do GOP tem sido dramaticamente moldada pelo ex-presidente Donald Trump mas estas mutações recentes não teriam sido possíveis se não houvesse já uma variedade de grupos na sociedade e cultura dos EUA (incluindo supremacistas brancos, cristãos evangélicos de direita e ativistas da Segunda Emenda, para nomear apenas alguns deles) que têm defendido desde há muito pontos de vista extremistas e “proto-fascistas” acerca da forma como o país deve ser governado e que valores deve promover. Para eles, Trump era e continua a ser a “grande esperança branca” da América.

Neste contexto, a base eleitoral de Trump – que continua a acreditar na ideia de uma eleição roubada e a apoiar os esforços do GOP de Trump para erradicar a teoria crítica sobre a raça das escolas e restringir o direito de voto – diz muito acerca da natureza antidemocrática e ameaçadora do GOP atual.

Na entrevista que se segue, o ativista e académico mundialmente reconhecido Noam Chomsky explica o que pode acontecer ao Partido Republicano e porque até está mais em jogo do que a própria democracia se as forças “proto-fascistas” inspiradas por Trump regressarem ao poder.


C.J. Polychroniou: Durante as últimas décadas, o Partido Republicano passou uma série de transformações ideológicas – desde o conservadorismo tradicional ao reacionarismo e finalmente ao que se pode definir como “proto-fascismo” no qual a irracionalidade se tornou a força motriz. Como se explica o que aconteceu ao GOP?

O teu conceito “proto-fascismo neoliberal” parece-me caracterizar de forma bastante precisa a atual organização republicana – fico hesitante em chamar-lhe “Partido” porque isso pode sugerir que teriam algum interesse em participar honestamente no política parlamentar normal. É mais adequado, penso, a análise de Thomas Mann e Norman Ornstein, analistas políticos do American Enterprise Institute, de que o Partido Republicano moderno se transformou numa “insurgência radical” com desdém pela participação democrática. Esta foi feita antes das marteladas de Trump-McConnell nos últimos anos, que nos conduz mais vigorosamente a esta conclusão.

O termo “proto-fascismo neoliberal” consegue apreender bem tanto as características do partido atual como a sua distinção do fascismo do passado.

A sua dedicação à forma mais brutal de neoliberalismo revela-se nos registos legislativos, sendo decisiva a subordinação do partido ao capital privado, o inverso do fascismo clássico. Mas os sintomas fascistas estão lá, incluindo o racismo extremo, a violência, a adoração do líder (enviado por Deus, de acordo com o Secretário de Estado Mike Pompeo), a imersão num mundo de “factos alternativos” e um frenesim de irracionalidade.

E também de outras formas como os esforços extraordinários dos estados geridos pelos Republicanos para suprimir nas escolas o ensino do que não esteja em conformidade com as suas doutrinas supremacistas brancas. Há leis a ser aplicadas para banir o ensino de “teoria crítica sobre raça”, o novo demónio, substituindo o comunismo e o terrorismo islâmico como a praga da idade moderna. “Teoria crítica sobre raça” é a nova frase feita para assustar que designa o estudo dos fatores estruturais sistémicos e culturais da infame história de 400 anos de escravatura e da persistente repressão racista. A devida doutrinação nas escolas e nas universidades deve banir esta heresia. O que verdadeiramente aconteceu durante 400 anos e que está muito vivo hoje em dia deve ser apresentado como um desvio da verdadeira América, pura e inocente, como é feito nos estados totalitários bem geridos.

O que falta ao “proto-fascismo” é a ideologia: o controlo social da ordem social, incluindo os empresários e o controlo do partido sobre o Estado com o líder máximo no comando. Isto pode mudar. A indústria alemã e a finança pensaram nos primeiros tempos que podiam usar os nazis como instrumento para massacrar os trabalhadores e a esquerda ao mesmo tempo que continuavam a mandar. Aprenderam que não seria assim. A divisão atual entre a direção tradicional empresarial e o partido dirigido por Trump sugere algo semelhante mas apenas remotamente. Estamos longe das condições que levaram ao poder Mussolini, Hitler e os seus apoiantes.

Sobre a força motriz da irracionalidade, os factos são inescapáveis e deveriam preocupar-nos profundamente. Apesar de não podermos atribuir apenas a Trump o crédito por este feito, ele certamente mostrou grande capacidade de cumprir com uma tarefa desafiante: implementar políticas para benefício do seu principal círculo de apoio, que são as grandes fortunas e o poder das maiores empresas, enquanto ludibria as vítimas para o adorarem como o seu salvador. Não é um feito fácil e induzir uma atmosfera de total irracionalidade foi um instrumento primário, um pré-requisito.

Devemos distinguir a base eleitoral, agora praticamente no bolso de Trump, da hierarquia política (o Congresso) – e distinguir ambas de uma elite mais obscura que governa realmente o Partido, McConnell e sócios.

As atitudes da base eleitoral são verdadeiramente sinistras. Já descontando o facto de que uma ampla maioria dos eleitores de Trump acreditarem que as eleições foram roubadas, a maioria também acredita que “o modo de vida tradicional americano está a desaparecer tão depressa que talvez tenhamos de usar a força para o salvar” e 40% assumem uma posição mais forte: “se os líderes eleitos não protegerem a América, o povo deve fazê-lo por si próprio, até se for preciso através de ações violentas”. Talvez isto não seja não surpreendente dado que um quarto do republicanos acreditam que “o governo, os meios de comunicação social e o mundo financeiro são controlados por um grupo de pedófilos adoradores satânicos que gerem uma operação global de tráfico sexual infantil”.

O pano de fundo são preocupações mais realistas sobre o desaparecimento do “modo de vida tradicional americano”: um mundo cristão e supremacista branco no qual os negros “sabem qual é o seu lugar” e onde não há infeções de “elementos desviantes” que apelam aos direitos dos homossexuais e outras obscenidades semelhantes. Essa forma de vida tradicional está mesmo a desaparecer.

Há também elementos de realismo em várias das teorias das “grandes substituições” que parecem preocupar grande parte da base de Trump. Colocando de lado absurdos acerca da imigração e das conspirações das elites, uma simples análise à distribuição dos nascimentos basta para mostrar que a dominação branca está em declínio.

Também devemos lembrar-nos das raízes profundas destas preocupações. Entre os fundadores do país, havia duas figuras distintas do Iluminismo, um dos quais desejava que o novo país ficasse livre dos “borrões ou misturas”, vermelhos ou negros (Jefferson), enquanto o outro sentia que os alemães e suecos talvez devessem ser barrados de entrar no país porque são demasiado “morenos” (Franklin). Os mitos da origem anglo-saxónica foram dominantes ao longo do século XIX. Tudo isto para além do racismo virulento e das suas manifestações horrorosas.

As preocupações sobre cultos satânicos são perigosas o suficientes mas outras crenças profundamente irracionais têm muito mais consequências. Uma das revelações mais ameaçadoras dos últimos dias foi uma observação pouco notada no último relatório do grupo da Universidade de Yale que monitoriza as atitudes sobre as alterações climáticas – o eufemismo para o aquecimento do planeta que vai acabar com a vida humana organizada na Terra ao não ser que seja controlado em breve. O relatório descobriu que “no último ano, houve um declínio acentuado nas percentagens tanto de republicanos liberais/moderados quando de republicanos conservadores que acreditam que desenvolver fontes de energia limpa deve ser uma prioridade do presidente e do Congresso. Os números atuais estão nos mínimos históricos desde que a pergunta foi pela primeira vez colocada em 2010”.

Entretanto, as notícias quotidianas providenciam informação acerca de novos desastres potenciais – por exemplo, o lançamento de estudos, a 11 de junho, que indicam um colapso acelerado de um enorme glaciar na Antártida que pode elevar o nível do mar em 48,768 centímetros – junto com a nota dos cientistas de que “o futuro ainda está em aberto – se as pessoas fizerem o que é preciso para mudar”.

Não o farão, enquanto as atitudes reportadas se mantiverem. Se não forem vencidas, estas podem ser um beijo da morte se a estratégia atual do Partido Republicano for bem sucedida a colocar os destruidores de volta ao poder. A estratégia é bem simples: não interessa o mal que se faça ao país e à sua própria base eleitoral, é preciso assegurar que a administração Biden não pode fazer nada para remediar os graves problemas domésticos e fazer passar legislação do tipo Jim Crow para bloquear o voto das pessoas racializadas e pobres, contando com a anuência do sistema judicial reacionário que McConnell-Trump instalaram com sucesso.

O partido não é uma causa perdida. Os democratas ajudaram ao falhar em providenciar uma alternativa construtiva que responda às necessidades e justas aspirações de muitos dos que aderiram às bandeiras de Trump. Isso pode mudar. Para além disso, há mudanças de atitudes entre os jovens republicanos, até mesmo entre os evangélicos mais jovens, uma parte importante da base republicana desde os 1970.

Nada é irremediável.

No que diz respeito à hierarquia política, há pouco a dizer. Com exceções marginais, abandonaram qualquer traço de integridade. Os votos atuais são uma indicação clara: oposição total republicana a medidas que sabem que vão favorecer a sua base eleitoral de forma a assegurar-se de que a administração Biden não consiga alcançar nada.

A capitulação mais abjeta da hierarquia política foi sobre o aquecimento global. Em 2008, o candidato presidencial republicano John McCain tinha uma plataforma climática limitada no seu programa e os republicanos no congresso estavam a ponderar defender legislação deste tipo. O conglomerado da energia Koch respondeu à força e qualquer vestígio de independência foi extinto. Isto tornou-se evidente nas últimas primárias republicanas de 2016, pré-Trump: negacionismo a 100% de que o que está a acontecer esteja a acontecer ou, pior, dizer que talvez esteja mas que vamos correr para o desastre sem pedir desculpas (como disse John Kasich que foi honrado pela sua integridade com um convite para falar na Convenção Democrata de 2020).

 

Não consigo levantar qualquer objeção ao que disseste mas estou um pouco perplexo com a insistência de Biden em tentar fazer pontes com os republicanos em alguns dos maiores temas que o país enfrenta. O bipartidarismo não é um sonho impossível?

Não completamente. O líder da maioria democrata Chuck Schumer conseguiu um triunfo bipartidário. Abandonando o compromisso anterior sobre aquecimento global, Schumer juntou-se ao republicano Todd Young para disfarçar um programa de política industrial limitado no interior de um projeto de lei de "ódio à China" que apelava aos sentimentos chauvinistas compartilhados. Os republicanos garantiram que componentes significativos como o financiamento da National Science Foundation seriam reduzidos. Young celebrou o triunfo declarando que “quando as gerações futuras de americanos olharem as novas fronteiras”, não verão “uma bandeira vermelha plantada” aí mas a nossa, vermelha, branca e azul.

Que melhor razão poderia haver para tentar reanimar a produção interna ao mesmo tempo que se tenta minar a economia chinesa – num momento em que a cooperação é um pré-requisito para a sobrevivência. Entretanto, o Departamento de Defesa de Biden está a reorientar recursos e a planear a guerra com a China, uma forma de loucura que foi analisada em detalhe no número um da revista Committee for a Sane U.S.-China Policy.

 

Trump transformou o Partido Republicano num culto de personalidade. É por isso que os líderes republicanos bloquearam a criação de uma comissão para investigar o ataque de 6 de janeiro contra o Capitólio?

Trump conseguiu capturar a base eleitoral mas a hierarquia política enfrenta um dilema. Há muito tempo que a elite partidária tem sido um clube de homens ricos aproveitando-se do poder dos negócios ainda mais do que os democratas, ainda que estes tenham abandonado a classe trabalhadora nos anos 1970, se tenham tornado um partido de Wall Street e dos profissionais ricos. O mundo dos negócios estava disposto a tolerar as palhaçadas de Trump enquanto ele os servisse leamente – apesar de com algum desagrado, uma vez que ele manchava o seu projeto de “empresas com alma”. Mas para setores decisivos, o 6 de janeiro foi demais.

Os tipos como McConnell que dirigem o partido estão presos entre uma base eleitoral irada obediente a Trump e os mestres da economia que servem. Uma comissão de inquérito, se fosse no mínimo honesta, iria aprofundar esta divisão que eles procuram forma de encobrir para que o partido, tal como existe hoje, sobreviva.

 

Mentiras, propaganda e restrição dos direitos de voto tornaram-se os princípios de governo do GOP atualmente. Em que medida e como terão impacto no clima político em geral e no futuro do que resta de democracia nos Estados Unidos em particular?

A estratégia altamente eficaz de Trump de legitimar “factos alternativos” baseou-se numa enxurrada interminável de mentiras, mas algumas afirmações verdadeiras flutuavam nos destroços. Uma foi o seu comentário de que os republicanos não conseguem nunca ganhar uma eleição justa. Este é um problema real para o clube dos homens ricos. É difícil adornar os votos com o slogan “Quero-vos roubar, votem em mim”. Isto deixa poucas opções. Uma é impedir que as “pessoas erradas” votem. Outra é moldar o programa partidário de forma que a política esteja disfarçada pelos apelos aos “temas culturais”. Ambas foram seguidas ativamente. Trump deu a estas práticas um toque particular vulgar, ao seu estilo habitual, mas não as inventou.

A onda atual de legislação republicana do estilo Jim Crow é compreensível: a observação de Trump é exata e poderá vir a tornar-se ainda mais no futuro com os desafios demográficos e a tendência dos eleitores jovens para favorecerem a justiça social e os direitos humanos, também entre o republicanos. Estes esforços tornaram-se mais viáveis após o Tribunal de Roberts ter eliminado a Lei dos Direitos de Voto na decisão de Shelby em 2013, o que "preparou o terreno para uma nova era de hegemonia branca", como Vann Newkirk observou corretamente.

O deslocamento da política através de “temas culturais” podia já ser encontrado na estratégia sulista de Nixon. Com os democratas a começarem a apoiar legislação moderada sobre direitos civis, Nixon e os seus conselheiros reconheceram que podiam mudar o voto sulista para o lado republicano através de apelos racistas pouco disfarçados.

Sob Reagan houve também pouco disfarce; a retórica e práticas racistas eram-lhe naturais. Entretanto o estratega republicano nacionalista cristão Paul Weyrich convenceu facilmente a liderança política que ao abandonar a sua anterior posição “pró-escolha” e fingir opor-se ao aborto poderiam conseguir o voto católico do norte e o recém-politizado voto evangélico. O amor às armas depressa foi adicionado à mistura, tendo atingido agora pontos tão absurdos quando a recente decisão de Benitez de reverter a proibição de espingardas de assalto na Califórnia que seriam, afinal, pouco diferentes de navalhas do exército suíço [segundo Benitez]. Trump adicionou mais a esta mistura. Como os seus companheiros demagogos na Europa, percebeu bem que os refugiados podem ser usados para incentivar paixões xenófobas e medos. Os seus apelos racistas também foram além da norma.

Trump demonstrou um certo génio para explorar venenos que não correm muito abaixo da superfície da sociedade e cultura americana. Através disso, conseguiu capturar a base eleitoral republicana. A liderança partidária é dedicada à estratégia obstrucionista de sacrificar os interesses do país de forma a voltar a ganhar o poder. Isto deixa o país com um partido político funcional, ele próprio dilacerado entre a liderança neoliberal e uma base eleitoral jovem social-democrata.

A tua frase “o que resta da democracia americana” toca no ponto certo. Por muito que o século XVIII tenha sido progressista – e haveria muito que dizer acerca disso – seguindo os padrões atuais a democracia americana é profundamente defeituosa em formas que já se estavam a tornar claras para o fundador James Madison em 1791, quando escreveu a Jefferson a deplorar “a ousada depravação da época,” uma vez que os “corretores de bolsa se tornarão a guarda pretoriana do governo – ao mesmo tempo a sua ferramenta e o seu tirano; subornado pelas suas grandes quantias e intimidado por clamores e combinações.”

Esta poderia muito bem ser uma descrição dos anos mais recentes, particularmente porque o ataque neoliberal atingiu a inteiramente previsível consequência de colocar o Governo ainda mais sob o comando do poder privado do que antes.

As “grandes quantias” são também muito familiares. Vasta investigação da ciência política dominante mostrou que os “clamores e combinações” deixaram a maioria de eleitores sem representação porque os seus representantes seguem as vozes dos super-ricos, doadores bem abonados e lóbistas das empresas.

O estudo mais recente, usando técnicas sofisticadas de Inteligência Artificial, dissipa as “noções de que a opinião de qualquer pessoa sobre política pública fora dos 10 por cento dos americanos mais ricos ajuda de forma independente a explicar a política”. Thomas Ferguson, o académico principal do poder das “ferramentas e tiranos” do governo, conclui: “conhecer a área política, as preferências dos 10% mais ricos e as visões de uma mão cheia de grupos de interesses é suficiente para explicar mudanças políticas com uma precisão impressionante.”

Mas alguns vestígios de democracia permanecem, mesmo depois do assalto neoliberal. Provavelmente não por muito tempo se o “proto-fascismo” neoliberal estender a sua influência.

Mas o destino da democracia já não interessará muito se os proto-fascistas voltarem ao poder. O ambiente que sustenta a vida não consegue mais aguentar os destruidores da era de declínio Trump. Pouco mais irá interessar se os patamares irreversíveis forem ultrapassados.


Entrevista feita por C.J. Polychroniou publicada no TruthOut. Tradução de Carlos Carujo para o Esquerda.net.