Os fabricantes dos “químicos eternos” utilizados em produtos como frigideiras antiaderentes e vestuário impermeável sabiam dos perigos que os seus materiais representavam mais de quarenta anos antes do público em geral, de acordo com documentos anteriormente secretos da indústria. Seguindo a mesma cartilha das grandes tabaqueiras, incluindo a supressão da sua própria investigação, as empresas conseguiram impedir a regulamentação durante décadas, enquanto os químicos cancerígenos se tornavam omnipresentes na água, no ar e no solo.
Os principais fabricantes já estão a gastar milhares de milhões para resolver processos judiciais para lutar contra as regulamentações federais norte-americanas, incluindo as regras ambientais de referência propostas esta Primavera. Os reveladores documentos da indústria, analisados num novo estudo de investigadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), poderão reforçar as tentativas de responsabilizar as empresas pela contaminação generalizada de produtos químicos que demoram centenas de anos a decompor-se. O fabricante 3M prepara-se para pagar 10 mil milhões de dólares para entrar num acordo sobre as queixas de poluição de milhares de sistemas públicos de água, mas o custo da limpeza dos produtos químicos na água potável em todo o país deverá ultrapassar os 400 mil milhões de dólares.
Introduzidos numa variedade de bens de consumo a partir da década de 1950, os compostos de per e polifluoroalquilo, ou PFAS, estão associados a uma diminuição da fertilidade, a atrasos no desenvolvimento e a vários tipos de cancro.
Embora os riscos para a saúde humana se tenham tornado amplamente conhecidos durante a última década, os fabricantes sabiam, pelo menos desde 1970, que os compostos eram “altamente tóxicos quando inalados e moderadamente tóxicos quando ingeridos”, de acordo com os documentos da indústria obtidos através de litígio e analisados por investigadores de saúde pública da UCSF.
As autoridades estatais e os grupos de consumidores estão a instar a Agência de Protecção Ambiental (EPA) a finalizar os primeiros padrões obrigatórios para os PFAS na água potável, após décadas de adiamento devido aos grupos industriais. Dois grandes fabricantes, a 3M e a DuPont, relataram ter gasto um total combinado de mais de 3,8 milhões de dólares em lóbi sobre o tema dos químicos, incluindo a regulamentação dos PFAS, no ano passado.
Entretanto, dezenas de estados estão atualmente a considerar legislação que proíbe a sua utilização em produtos quotidianos. A exposição aos PFAS é tão generalizada que os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) estimam que os químicos estejam presentes no sangue de 97% dos americanos.
“O diabo que eles conheciam”
Uma onda crescente de processos litigiosos, incluindo as ações judiciais lançadas pelos procuradores-gerais do Novo México e de Washington na semana passada, centra-se em alegações de que a DuPont, a 3M e outros fabricantes “sabiam ou deviam saber” dos potenciais danos causados pelos seus produtos.
Os documentos recentemente disponíveis, analisados pelos investigadores da UCSF, estabelecem que os fabricantes não só tinham conhecimento destes riscos, como tomaram medidas para os encobrir.
Durante a década de 1970, um laboratório financiado pela DuPont efetuou uma série de estudos para testar os efeitos da exposição ao revestimento químico Teflon. O laboratório já tinha estabelecido que as dispersões de Teflon podiam ser altamente tóxicas quando inaladas, de acordo com um memorando da DuPont de 1970. Testes subsequentes revelaram que os ratos expostos a níveis baixos desenvolviam fígados dilatados; os cães injectados com níveis mais elevados morriam no espaço de dois dias.
Mas em vez de comunicar estas descobertas aos reguladores federais, como exigido por lei, a empresa adotou uma estratégia de comunicação que equiparava a toxicidade dos químicos ao sal de mesa comum. Em 1980, inquéritos aos trabalhadores da DuPont e da 3M revelaram que as trabalhadoras grávidas expostas aos produtos químicos estavam a dar à luz bebés com anomalias nos olhos e nos canais lacrimais. Apesar de assegurar aos trabalhadores que não tinham descoberto “nenhuma prova de defeitos congénitos”, a empresa retirou discretamente as mulheres das áreas de elevada exposição.
Nas décadas seguintes, à medida que as provas de efeitos nocivos aumentavam, as empresas pressionaram os reguladores para as ajudarem a mitigar as consequências. Depois de um painel de peritos externos ter apresentado recomendações à EPA, em 2006, que consideravam o PFAS um “provável carcinogéneo para os seres humanos” e apelavam à adoção de regulamentos mais rigorosos, o vice-presidente da DuPont escreveu aos executivos da empresa um plano para controlar a narrativa.
“A única voz que pode cortar as histórias negativas é a voz da EPA”, lê-se numa mensagem de correio eletrónico de fevereiro de 2006. Esta mensagem continuava enumerando os tópicos de discurso propostos para a agência, incluindo que os produtos de consumo que utilizavam Teflon eram seguros para uma utilização continuada.
A EPA parece ter obedecido, dizendo aos consumidores em março de 2006 que não precisavam de deixar de utilizar os seus produtos anti-aderentes.
Em março deste ano, a EPA propôs regulamentos inovadores que estabelecem limites para os compostos PFAS na água potável, embora esses limites ainda sejam superiores ao que muitos defensores da saúde pública dizem ser seguro beber. A 3M e a Chemours Company, que se separou da DuPont em 2015, apresentaram comentários contrários às regras, que se espera sejam finalizadas no próximo ano.
Os autores do estudo da UCSF comparam as táticas das empresas químicas com a campanha de décadas das grandes tabaqueiras para enterrar a investigação desfavorável e semear desinformação no discurso sobre a saúde pública.
“Tal como as grandes tabaqueiras, os grandes fabricantes de produtos químicos têm um interesse financeiro em suprimir as provas científicas da nocividade dos seus produtos, mantendo a perceção pública de que os seus produtos são seguros”, de acordo com o estudo. “O facto de os EUA não transferirem o ónus da prova para a indústria no que diz respeito à política química significa que podemos estar sempre a perseguir o diabo que eles conheciam, em vez de defender a saúde pública desde o início.”
Rebecca Burns é jornalista no Lever.
Publicado originalmente na Jacobin. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.