ONG's alertam para subida do número de sem-abrigo em Portugal

24 de agosto 2011 - 11:49

A crescente procura de apoio para refeições por parte de famílias carenciadas preocupa os técnicos que dão resposta no terreno. As instituições solidárias falam num aumento de 20% a 30% dos pedidos nos últimos três anos.

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As ONG dizem não ser possível determinar com exactidão o número de sem-abrigo e os media falam em 3.000 em Lisboa e cerca de 2.000 no Porto. Foto Paulete Matos

“A maior parte são pessoas que estão sozinhas, perderam os empregos, têm dificuldades financeiras e vão pedir ajuda para tomar uma refeição”, explicou à agência Lusa o vice-presidente do Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (CASA), sublinhando que “o conceito de sem-abrigo, de acordo com o plano nacional, engloba essas situações”.



Apesar de os “tradicionais sem-abrigo, que dormem na rua”, não terem aumentado, nota-se “um aumento grande nas famílias e pessoas carenciadas”, acrescentou Nuno Jardim, calculando-o entre 20% a 30% desde 2008.



O Algarve, que “só por si, já é uma região pobre”, é também a região mais afectada, segundo Nuno Jardim, que vê o desemprego como a principal causa dos pedidos de ajuda crescentes que lhe têm chegado, embora separe duas situações diferentes: “Há pessoas que têm emprego e um tecto onde viver, mas o dinheiro que ganham vai todo para a casa ou para o quarto e acabam por não ter dinheiro para mais nada”, referiu Nuno Jardim, lembrando também que “também há questões de estrutura familiar que se desfaz totalmente e algumas pessoas não conseguem aguentar e vão parar à rua”.



O número real de sem-abrigo em Portugal é difícil de contabilizar, diz o o presidente da Cais, uma vez que “muitas vezes a contagem é feita a partir dos albergues e dos quartos pagos pela Segurança Social ou pela Santa Casa da Misericórdia, mas há um grande número de pessoas que vive em casas abandonadas, devolutas e pessoas que vivem de facto na rua”.



Henrique Pinto parte dos números avançados pela comunicação social - "falam em 3.000 em Lisboa e cerca de 2.000 no Porto" - e lembra que nos últimos dois anos foi possível tirar mil pessoas da rua no distrito do Porto, o que não é suficiente para compensar o surgimento de novos casos de miséria.



“A classe média é a que mais tem sofrido. Aqueles que já viviam na rua, agora têm uma sopa a menos, mas já eram pessoas numa situação de pobreza severa. Agora quem perdeu o trabalho, tem filhos, uma casa para pagar, não consegue viver”, declarou o presidente da CAIS à Lusa.



Também a AMI tentou contabilizar e estudar o fenómeno dos sem-abrigo em Portugal no ano passado, a partir das mais de 12 mil pessoas às quais prestou apoio. A maior parte (mais de 70 por cento) tem nacionalidade portuguesa, seguindo-se os naturais dos Países Africanos de Língua Portuguesa (PALOP), e os dos países de leste.



A maioria destes sem-abrigo (três em cada quatro) são homens entre os 40 e os 59 anos e nove em cada dez estão desempregados. Segundo a AMI, entre os principais motivos para a situação de pobreza estão o desemprego, os problemas familiares e doenças físicas. Do total de pessoas apoiadas pela instituição em 2010, a AMI calcula que os sem-abrigo "tradicionais" (ou sem tecto) sejam cerca de 700 pessoas.



A população sem-abrigo divide-se, de acordo com a Federação Europeia de Organizações Nacionais que Trabalham com Sem-Abrigo (FEANTSA), em quatro grandes grupos: sem-tecto (vivem na rua), sem casa (vivem em habitações temporárias), habitação precária (foram despejados) e habitação inadequada (estão em construções abarracadas).

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