O movimento contra-ataca

29 de dezembro 2022 - 15:20

O movimento climático tem sido um dos mais ativos na contestação do sistema económico vigente. Radicalizar é a palavra de ordem neste campo. Por Andreia Galvão.

porAndreia Galvão

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Foto Alisdare Hickson/Flickr

O movimento climático tem sido um dos mais ativos na contestação do sistema económico vigente e das suas práticas exploratórias, no sentido ambiental e social. 2022 não foi um ano de exceção, embora os resquícios da vivência pandémica tenham estado evidentes nos ajuntamentos sociais e na consequente organização. No entanto, podemos verificar neste ano algumas tendências que se podem aprofundar (ou não) em debates dentro do movimento e na sua intervenção do panorama generalizado da sociedade.

As COP são para quem? 

A COP 27, que decorreu no Egito este ano, foi alvo de críticas, como de costume em termos de resposta à crise climática. A sua contestação foi mais reduzida, devido às condições de acesso ao país e às normas policiais que impediram que muitos jovens estivessem presentes ou que se manifestassem - não impediram, no entanto, que estivessem presentes na cimeira 637 lobistas da indústria fóssil. António Guterres, no seu habitual desespero no que toca ao tópico da ação climática, provocou ao longo da convenção a urgência de um "acordo ambicioso e fiável”. O prolongamento deste encontro internacional permitiu a criação de um fundo de perdas e danos aos países da linha-da-frente, medida há muito exigida pelos movimentos e ativistas do Sul Global. Este fundo, embora insuficiente, tem uma importância crucial para a solidariedade internacional e para as políticas de adaptação do território. A sua atribuição efetiva e aplicação deverá ser escrutinada e continuará a alimentar o debate sobre reparação histórica, o colonialismo, etc.

No entanto, como referiu Guterres no final da COP, “o tempo de falar sobre perdas e danos acabou. Precisamos de ação. Ninguém pode negar a escala de perdas e danos que vemos em todo o mundo. O mundo está a arder e a afogar-se perante os nossos olhos. Exorto todas as partes a mostrar o que veem e obtêm.”

 Protestos junto à COP27 no Egito. Foto Friends of the Earth International.

Sobre a COP15, cimeira para a proteção da biodiversidade global, chegam-nos críticas de organizações portuguesas como a Liga para a Proteção da Natureza (LPN) que, embora reconheça avanços positivos, critica o documento final como "fraco e sem sentido de urgência.”. Será possível um maior ênfase destes movimentos de conservação para o olho público com o agudizar da crise climática e a inevitável perda de vida natural.

Mudança de táticas

Radicalizar é a palavra de ordem neste campo. Parte do movimento jovem global do Fridays For Future (FFF) junta-se agora no movimento “End Fossil Occupy”, que ambiciona ocupar escolas e faculdades por todo o mundo, numa ação coordenada contra o capitalismo fóssil que, no caminho, questiona o papel das instituições de ensino neste momento histórico. 

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Movimento de “Ocupas: fim ao fóssil” em Portugal. Foto da campanha Fim ao Fóssil: Ocupa!

As ações de desobediência não-violenta têm feito parte da matriz do movimento climático do Norte Global - a intervenção da Extinction Rebellion é um exemplo disso. Outras organizações têm usado estas táticas também para captar a atenção mediática - não passaram despercebidas as ações do “Just Stop Oil” nos museus mais conceituados do mundo.

Alguns autores, por outro lado, começam a advogar a destruição física de infraestruturas poluentes como tática de luta climática. Exemplo disso é Andreas Malm, autor sueco do bestseller “How to blow up a pipeline”. Esta questão tem sido muito fraturante dentro do movimento mas uma coisa é certa: em 2023 podemos contar com uma maior diversidade de táticas.

As crises do custo de vida

A guerra na Ucrânia e as suas consequências económicas (inflacionárias) têm aprofundado desigualdades. Verifica-se numa redução do poder de compra real, na dificuldade de acesso a bens essenciais e, em particular, nos preços elevados da energia (consequência também da redução de importação de gás russo, no caso da Europa). Apesar disso, a indústria do óleo e do gás tem beneficiado fortemente com esta situação - a Galp, por exemplo, prevê distribuir 900 milhões de euros em dividendos aos seus acionistas, provando como tem lucrado com a crise. O capitalismo fóssil volta a beneficiar da exploração social, adiando as medidas para a resolução da crise climática. É na resistência a este encurralamento que o movimento climático pode responder, dando ênfase às questões da desigualdade de classe.

2023 está quase a começar. É importante relembrar que as ações, as políticas que efetivarmos neste momento terão um efeito definitivo na história da Humanidade - é esse sim, a verdadeira escala do seu impacto. É nossa responsabilidade deixar um legado de luta e uma possibilidade de existência aos que vierem depois de nós.

Andreia Galvão
Sobre o/a autor(a)

Andreia Galvão

Estudante e ativista da Greve Climática Estudantil.