Israel

O colapso do sionismo

30 de junho 2024 - 14:41

Estamos a assistir a um processo histórico - ou, mais exatamente, ao início de um - que provavelmente culminará na queda do sionismo. E, se o meu diagnóstico estiver correto, estamos também a entrar numa conjuntura particularmente perigosa.

por

Ilan Pappé

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Ilan Pappé
Ilan Pappé.

O ataque do Hamas de 7 de outubro pode ser comparado a um terramoto que atinge um velho edifício. As fissuras já se começavam a notar, mas agora são visíveis nas próprias fundações. Mais de 120 anos após a sua criação, poderá o projeto sionista na Palestina - a ideia de impor um Estado judeu num país árabe, muçulmano e do Médio Oriente - estar perante a perspetiva de um colapso? Historicamente, há uma infinidade de fatores que podem provocar o colapso de um Estado. Pode resultar de ataques constantes de países vizinhos ou de uma guerra civil crónica. Pode seguir-se ao colapso das instituições públicas, que se tornam incapazes de fornecer serviços aos cidadãos. Muitas vezes, começa por ser um processo lento de desintegração que ganha ímpeto e que, num curto espaço de tempo, faz ruir estruturas que pareciam sólidas e inabaláveis.

A dificuldade reside em detetar os primeiros indicadores. Neste artigo, vou argumentar que estes são mais claros do que nunca no caso de Israel. Estamos a assistir a um processo histórico - ou, mais exatamente, ao início de um - que provavelmente culminará na queda do sionismo. E, se o meu diagnóstico estiver correto, estamos também a entrar numa conjuntura particularmente perigosa. Porque assim que Israel se aperceber da magnitude da crise, desencadeará uma força feroz e desabrida para a tentar conter, como fez o regime do apartheid sul-africano nos seus últimos dias.

1.

Um primeiro indicador é a divisão da sociedade judaica israelita. Atualmente, esta é composta por dois campos rivais que não conseguem encontrar um terreno comum. A clivagem tem origem nas contradições da definição do judaísmo como nacionalismo. Embora a identidade judaica em Israel tenha por vezes parecido um mero tema de debate teórico entre fações religiosas e seculares, tornou-se agora uma luta sobre o carácter da esfera pública e do próprio Estado. Esta luta está a ser travada não só nos meios de comunicação social, mas também nas ruas.

Um dos campos pode ser designado por "Estado de Israel". É constituído por judeus europeus e seus descendentes, mais seculares, liberais e, na sua maioria, mas não exclusivamente, de classe média, que foram fundamentais para a criação do Estado em 1948 e nele permaneceram hegemónicos até ao final do século passado. Não nos enganemos, a sua defesa dos "valores democráticos liberais" não altera o seu compromisso com o sistema de apartheid que é imposto, de várias formas, a todos os palestinianos que vivem entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. O seu desejo fundamental é que os cidadãos judeus vivam numa sociedade democrática e pluralista da qual os árabes sejam excluídos.

O outro campo é o "Estado da Judeia", que se desenvolveu entre os colonos da Cisjordânia ocupada. Goza de um apoio crescente no país e constitui a base eleitoral que garantiu a vitória de Netanyahu nas eleições de novembro de 2022. A sua influência nos escalões superiores do exército e dos serviços de segurança israelitas está a crescer exponencialmente. O Estado da Judeia quer que Israel se torne uma teocracia que se estende por toda a Palestina histórica. Para isso, está decidido a reduzir ao mínimo o número de palestinianos e prevê a construção de um Terceiro Templo no lugar de al-Aqsa. Os seus membros acreditam que isso lhes permitirá renovar a era dourada dos reinos bíblicos. Para eles, os judeus laicos são tão heréticos como os palestinianos, caso se recusem a participar neste projeto.

Os dois campos tinham começado a confrontar-se violentamente antes de 7 de outubro. Durante as primeiras semanas após o ataque, pareciam esquecer as suas diferenças face a um inimigo comum. Mas isso era uma ilusão. Os combates de rua reacenderam-se e é difícil antever o que poderá levar a uma reconciliação. O resultado mais provável já se está a desenrolar diante dos nossos olhos. Mais de meio milhão de israelitas, representando o Estado de Israel, abandonaram o país desde outubro, o que indica que o país está a ser engolido pelo Estado da Judeia. Este é um projeto político que o mundo árabe, e talvez mesmo o mundo em geral, não tolerará a longo prazo.

2.

O segundo indicador é a crise económica de Israel. A classe política não parece ter qualquer plano para equilibrar as finanças públicas no meio de perpétuos conflitos armados, para além de se tornar cada vez mais dependente da ajuda financeira dos EUA. No último trimestre do ano passado, a economia registou uma queda de quase 20%; desde então, a recuperação tem sido frágil. A promessa de Washington de 14 mil milhões de dólares não irá provavelmente inverter esta situação. Pelo contrário, o fardo económico só se agravará se Israel levar por diante a sua intenção de entrar em guerra com o Hezbollah, ao mesmo tempo que intensifica a atividade militar na Cisjordânia, numa altura em que alguns países - incluindo a Turquia e a Colômbia - começaram a aplicar sanções económicas.

A crise é ainda agravada pela incompetência do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, que canaliza constantemente dinheiro para os colonatos judeus na Cisjordânia, mas parece incapaz de gerir o seu Ministério. O conflito entre o Estado de Israel e o Estado da Judeia, juntamente com os acontecimentos de 7 de outubro, leva entretanto uma parte da elite económica e financeira a transferir os seus capitais para fora do Estado. Os que pensam em transferir os seus investimentos constituem uma parte significativa dos 20% de israelitas que pagam 80% dos impostos.  

3.

O terceiro indicador é o crescente isolamento internacional de Israel, que se vai tornando gradualmente um Estado pária.  
Este processo começou antes de 7 de outubro, mas intensificou-se desde o início do genocídio.Reflecte-se nas posições inéditas adotadas pelo Tribunal Internacional de Justiça e pelo Tribunal Penal Internacional. Anteriormente, o movimento global de solidariedade com a Palestina conseguiu galvanizar as pessoas para participarem em iniciativas de boicote, mas não conseguiu fazer avançar a perspetiva de sanções internacionais. Na maioria dos países, o apoio a Israel permaneceu inabalável entre o establishment político e económico.  

Neste contexto, as recentes decisões do TIJ e do TPI - de que Israel pode estar a cometer genocídio, de que tem de parar a sua ofensiva em Rafah, de que os seus líderes devem ser detidos por crimes de guerra - devem ser vistas como uma tentativa de ouvir os pontos de vista da sociedade civil global, em vez de se limitarem a refletir a opinião das elites. Os tribunais não atenuaram os ataques brutais contra a população de Gaza e da Cisjordânia. Mas contribuíram para o crescente coro de críticas dirigidas ao Estado israelita, que cada vez mais vêm tanto de cima como de baixo.

4.

O quarto indicador, interligado com o anterior, é a mudança radical entre os jovens judeus de todo o mundo. Após os acontecimentos dos últimos nove meses, muitos parecem agora dispostos a abandonar a sua ligação a Israel e ao sionismo e a participar ativamente no movimento de solidariedade com a Palestina. As comunidades judaicas, em particular nos EUA, proporcionaram outrora a Israel uma imunidade eficaz contra as críticas. A perda, ou pelo menos a perda parcial, deste apoio tem implicações importantes para a posição global do país. A AIPAC ainda pode contar com os sionistas cristãos para prestar assistência e reforçar os seus membros, mas não será a mesma organização formidável sem um eleitorado judeu significativo. O poder do lóbi está a diminuir.

5.

O quinto indicador é a fraqueza do exército israelita. Não há dúvida de que as FDI continuam a ser uma força poderosa, com armamento de última geração ao seu dispor. No entanto, as suas limitações foram reveladas a 7 de outubro. Muitos israelitas acham que o exército teve muita sorte, pois a situação poderia ter sido muito pior se o Hezbollah se tivesse juntado a um ataque coordenado. Desde então, Israel mostrou que está desesperadamente dependente de uma coligação regional, liderada pelos EUA, para se defender do Irão, cujo ataque de advertência, em abril, envolveu o lançamento de cerca de 170 drones e mísseis balísticos teleguiados. Mais do que nunca, o projeto sionista depende da entrega rápida de enormes quantidades de fornecimentos dos americanos, sem os quais não poderia sequer combater um pequeno exército de guerrilha no sul.

Atualmente, a população judaica tem uma perceção generalizada da falta de preparação e da incapacidade de Israel para se defender. Ela levou a uma grande pressão no sentido de eliminar a isenção militar para os judeus ultra-ortodoxos - em vigor desde 1948 - e começar a recrutá-los aos milhares. Isso não fará grande diferença no campo de batalha, mas mostra bem qual é a escala do pessimismo em relação ao exército - que, por sua vez, aprofundou as divisões políticas em Israel.

6.

O último indicador é a energia renovada entre a geração mais jovem de palestinianos. Esta geração está muito mais unida, organicamente ligada e com uma visão mais definida das suas possibilidades do que a elite política palestiniana. Dado que a população de Gaza e da Cisjordânia é das mais jovens do mundo, este novo grupo terá uma enorme influência no curso da luta de libertação. Os debates que têm lugar entre os grupos de jovens palestinianos mostram que estão preocupados com a criação de uma organização genuinamente democrática - seja uma OLP renovada, seja uma nova organização - que tenha uma visão de emancipação contrária à campanha da Autoridade Palestiniana para ser reconhecida como Estado. Parecem favorecer uma solução de um Estado em vez de um modelo desacreditado de dois Estados.

Serão eles capazes de dar uma resposta eficaz ao declínio do sionismo? Esta é uma pergunta difícil de responder. O colapso de um projeto de Estado nem sempre é seguido por uma alternativa mais brilhante. Noutros lugares do Médio Oriente - na Síria, no Iémen e na Líbia - vimos como os resultados podem ser sangrentos e prolongados. Neste caso, seria uma questão de descolonização, e o século passado mostrou que as realidades pós-coloniais nem sempre melhoram a condição colonial. Só a ação dos palestinianos pode fazer-nos avançar na direção certa. Acredito que, mais cedo ou mais tarde, uma fusão explosiva destes indicadores resultará na destruição do projeto sionista na Palestina. Quando isso acontecer, temos de esperar que um movimento de libertação robusto esteja lá para preencher o vazio.

Durante mais de 56 anos, o chamado "processo de paz" - um processo que não levou a lado nenhum - foi, na realidade, uma série de iniciativas americano-israelitas às quais os palestinianos eram convidados a reagir. Hoje, a "paz" deve ser substituída pela descolonização e os palestinianos devem poder articular a sua visão para a região, sendo os israelitas convidados a reagir. Esta seria a primeira vez, pelo menos desde há muitas décadas, que o movimento palestiniano assumiria a liderança na apresentação das suas propostas para uma Palestina pós-colonial e não sionista (ou qualquer que seja o nome da nova entidade). Ao fazê-lo, é provável que se inspire na Europa (talvez nos cantões suíços e no modelo belga) ou, mais corretamente, nas antigas estruturas do Mediterrâneo oriental, onde grupos religiosos secularizados se transformaram gradualmente em grupos etnoculturais que viviam lado a lado no mesmo território.  

Quer as pessoas gostem da ideia ou a receiem, o colapso de Israel tornou-se uma possibilidade palpável. Esta possibilidade deverá estar na base da discussão a longo prazo sobre o futuro da região. Será imposta na agenda à medida que as pessoas se aperceberem de que a tentativa de um século, liderada pela Grã-Bretanha e depois pelos EUA, de impor um Estado judeu num país árabe está lentamente a chegar ao fim. Foi suficientemente bem sucedida para criar uma sociedade de milhões de colonos, muitos deles atualmente de segunda e terceira geração. Mas a sua presença continua a depender, tal como quando chegaram, da sua capacidade de impor violentamente a sua vontade a milhões de pessoas autóctones, que nunca desistiram da sua luta pela autodeterminação e pela liberdade na sua terra natal. Nas próximas décadas, os colonos terão de abandonar esta abordagem e mostrar a sua vontade de viver como cidadãos iguais numa Palestina libertada e descolonizada.


Ilan Pappé é Professor de História e Diretor do Centro Europeu de Estudos da Palestina na Universidade de Exeter. É autor de vários livros, sendo os mais recentes The Biggest Prison on Earth: A History of the Israel Occupation of Palestine (Oneworld, 2015), The Idea of Israel (Verso, 2014) e The Modern Middle East; Uma história social e cultural (Routledge, 2014).

Artigo publicado no blogue Sidecar da New Left Review. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.
 

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