O jornal El País publicou esta quinta-feira gravações áudio que aprofundam o conhecimento do envolvimento do Partido Popular, utilizando o Ministério do Interior e informações forjadas por polícias, na criação de uma campanha com informações falsas para tentar destruir o Podemos.
No centro deste escândalo, como de vários outros, está o comissário José Manuel Villarejo, ex-polícia e ex-espião tanto para o Estado espanhol como a título privado, detido por vários casos de suborno, branqueamento de capitais e associação criminosa. Do seu currículo de espionagem ao serviço do Estado fazem parte, por exemplo, a participação no relatório Véritas, ao serviço do ministro do Interior Jose Luis Corcuera do PSOE, ao abrigo do qual se vigiaram juízes como Baltasar Garzón, políticos e jornalistas, ou a “Operação Catalunha” no âmbito da qual foram espiados dirigentes políticos catalães na tentativa de atacar o processo independentista.
Entre as gravações feitas pelo próprio comissário, apreendidas pela justiça mas até agora desconhecidas, há um diálogo entre ele e María Dolores de Cospedal, que era na altura ministra da Defesa e secretária-geral do PP, que o El País revela. Villarejo assume que os polícias “fizeram essa merda do relatório PISA que é lixo e com isso vacinaram-no”. Está falar do então líder do Podemos e de um relatório falso, denominado Pablo Iglesias S.A., enviado à imprensa em 2016 pela “polícia patriótica”, um grupo no interior da polícia dedicado a servir o PP, em que se acusava Iglesias de ser financiado ilegalmente pelo regime iraniano no valor de cerca de dois milhões de euros.
O comissário acrescenta que ainda tem um outro “tema do caraças contra o Podemos” (“un tema de la hostia” no original). Um relatório sobre supostas reuniões entre o Podemos, os serviços secretos cubanos e a ETA, feitas na Venezuela, que ele “ofereceu” a Francisco Martínez, então número dois do ministro do Interior Jorge Fernández Díaz, e que este não aproveitou. Cospedal responde-lhe “mas eu quero-o” porque “é uma bomba”. Villarejo acrescenta que “essa linha, que eu podia reconstruir para ti, claro, tudo isso vale dinheiro. Claro que vale dinheiro!” E Cospedal responde: “claro…”
Campanha sistemática de difamação contra o Podemos
O comissário explica ainda o fracasso de outra das operações contra o Podemos que foi a invenção de que Iglesias recebia verbas avultadas vindas do governo venezuelano. Segundo os diários de Villarejo, teria sido o inspetor José Ángel Fuentes Gago da “polícia patriótica” a viajar para os EUA por ordem do ministro do Interior, Jorge Fernández Díaz, para convencer um ex-ministro venezuelano e informador do governo dos EUA, Rafael Isea, a assinar um documento que pretendia envolver Iglesias como tendo recebido dinheiro venezuelano. Isea mais tarde denunciou as pressões vindas das autoridades espanholas, a ele e à sua família, para o fazer.
Um outro documento no mesmo sentido, uma suposta fatura recebida pelo Podemos no dia da sua criação, e publicado no jornal Ok Diário foi considerado falso pelos tribunais e a entidade bancária também negou a sua existência. O responsável pela divulgação foi Carlos Alberto Arias, imigrante venezuelano que assumiu ser informador da polícia e que tinha obtido uma autorização especial de residência assinada pelo número dois do Ministério do Interior um mês antes da divulgação do caso.
Desde que foi criado e começou a crescer, o Podemos foi alvo de uma campanha sistemática de difamação que, para além dos ataques políticos, passou pela cumplicidade de vários órgãos de comunicação social na publicação de notícias falsas vindas de fontes policiais, a que se seguiram acusações judiciais que foram caindo, depois de fazerem a esperada mossa, porque não tinham fundamento.
Gravações da secretária-geral do PP “são apenas mais outra prova dessa aliança antidemocrática”
O governo de Mariano Rajoy esteva no centro desta operação. Os novos áudios reforçam apenas essa ideia através do envolvimento da então secretária-geral do PP, mas as campanhas em causa eram já conhecidas através dos diários apreendidos ao comissário.
A atual dirigente do Podemos, Ione Belarra, reagiu aos novos dados dizendo que “são apenas mais outra prova dessa aliança antidemocrática” contra o seu partido. Por sua vez Pablo Iglesias, ex-líder do partido e principal visado nas campanhas de desinformação, diz que o “mal já está feito” e acrescenta que neste momento são “o bode expiatório mas, não somos a peça de caça maior, é o presidente do governo e o PSOE, odeiam-nos porque meteram gente como nós no governo”.
E Pablo Echenique, líder parlamentar da formação, insiste que “há oito anos que estamos a ser acossados por lixo falso com o objetivo de adulterar a democracia. Isto fizeram-no polícias corruptos, juízes, a cúpula do PP e também a maioria dos meios de comunicação social”.