NATO matou civis em Tripoli porque o engenho “falhou”

20 de junho 2011 - 16:06

O acto de guerra contra um dos mais pobres bairros de Tripoli foi cometido no âmbito de uma acção militar da Aliança Atlântica, que já foi prorrogada, declarada para “proteger civis” e provocou pelo menos 15 mortos, entre eles três crianças.

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NATO confessou que o bombardeamento contra zonas residenciais de Tripoli provocou vítimas civis e atribui a situação a um “falhanço” do sistema de guia das armas

A NATO confessou que o bombardeamento contra zonas residenciais de Tripoli efectuado no domingo pouco depois da meia noite provocou vítimas civis e atribui a situação a um “falhanço” do sistema de guia das armas.

Segundo informação oficial da NATO, o bombardeamento foi efectuado contra um suposto silo de mísseis “mas aparentemente um dos engenhos não o atingiu”. Enquanto isso, em Benghazi os grupos de oposição apoiados pela NATO e por sectores internacionais do radicalismo islâmico lamentaram que ainda não tenham chegado ao seu poder as verbas prometidas por países “doadores” para financiar a guerra e que deveriam ter sido depositadas na semana passada.

O tenente general Charles Bouchard, identificado como comandante da operação Unified Protector (Protector Unificado), declarou publicamente que a “NATO lamenta a perda de vítimas civis inocentes e tem muito cuidado a realizar ataques contra um regime determinado a usar a violência contra os seus próprios cidadãos”.

O ataque contra o bairro residencial de Tripoli decorreu cerca de três dias depois de um filho de Muammar Khaddafi ter apresentado uma proposta de realização num prazo de três meses de eleições gerais abertas, patrocinadas e fiscalizadas por organizações internacionais, incluindo a própria NATO. Nenhuma das organizações que realiza a guerra contra Tripoli respondeu a esta proposta.

“Falhanços” dos sistemas de armas têm sido invocados frequentemente por porta-vozes da NATO como causa das mortes de civis que se registam no Afeganistão, no Iraque e agora também na Líbia. Algumas horas antes do ataque a Tripoli, "fogo amigo" da NATO atingira uma coluna de rebeldes.

O tenente general Bouchard informou que a aliança já realizou mais de 11 500 bombardeamentos e que “cada missão é planeada e executada com tremendo cuidado para evitar vítimas civis”. As autoridades líbias têm revelado exemplos de que estes “cuidados” não funcionam sempre, argumento a que a NATO contrapõe que o regime de Tripoli usa civis como “escudos humanos”.

A falta de resultados obtidos e a indefinição de objectivos da guerra desencadeada na Líbia por oito dos 29 países da NATO está a provocar debates e divisões cada vez mais visíveis no interior da Aliança. Nos corredores das instalações da NATO em Bruxelas alguns diplomatas não hesitam em usar a palavra “massacre” para qualificar a quantidade de ataques já realizados sem que esteja à vista uma solução para a guerra.

Também no domingo, dirigentes do chamado Conselho Nacional de Transição apoiado como regime “legítimo” líbio, com sede em Benghazi, pelos Estados Unidos e vários países da União Europeia, promoveu uma conferência de imprensa queixando-se de falta de auxílio dos seus aliados.

Segundo estes dirigentes, a coligação que envolve dissidentes do regime de Khaddafi, chefes tribais do leste da Líbia e grupos de mercenários fundamentalistas islâmicos não recebeu ainda qualquer dinheiro do que foi prometido pelos “doadores” ocidentais e de países árabes. Disseram ainda que calculam as suas necessidades em mais dois mil milhões de euros acima das verbas já prometidas, de modo a pagar salários e fazer a guerra nos próximos seis meses.

Artigo publicado no portal do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu