A NATO desmentiu “categoricamente” a acusação, feita pelo jornal britânico "The Guardian", de ter deixado morrer de 61 migrantes africanos, que foram deixados à sua sorte num barco no Mediterrâneo, depois de alertarem a Guarda Costeira italiana e terem passado por um porta-aviões da Aliança Atlântica.
Segundo o diário britânico, a embarcação com 72 passageiros, incluindo mulheres, crianças e refugiados políticos, tinha saído de Trípoli, Líbia, para a ilha italiana de Lampedusa quando se viu em apuros.
O Guardian fez uma reconstituição dos acontecimentos a partir dos testemunhos recolhidos e conta a história em pormenor: 47 migrantes etíopes, sete nigerianos, sete eritreus, seis ganianos e cinco sudaneses, 20 dos quais eram mulheres e dois crianças pequenas (uma das quais tinha apenas um ano), partiram em direcção a Lampedusa do norte de Tripoli. Após 18 horas de navegação, o barco começou a perder combustível e os passageiros ficaram à mercê de "uma mistura de azar, burocracia e a aparente indiferença das forças militares europeias, que tiveram oportunidade de tentar salvá-los".
Fizeram soar alarmes, pediram ajuda da guarda costeira italiana e tentaram contactar um helicóptero militar e um navio da NATO... mas não houve qualquer tentativa para os socorrer.
NATO nega o sucedido, França e Malta não assumem envolvimento
Houve ainda um contacto com um helicóptero militar (que, até à data nenhum país assume identificar) que lhes forneceu alguma água potável e uma pequena quantidade de bolachas, a guarda costeira italiana foi avisada e declarou ao The Guardian: "Avisámos Malta de que a embarcação se dirigia para a zona de busca e salvamento deles e emitimos um alerta que obrigava outras embarcações a ir em socorro deles".
No entanto, as autoridades maltesas negaram qualquer envolvimento com o barco em questão. A 27 de Março, ele estava à deriva nas correntes da zona sem combustível, água potável nem alimentos. Todas as manhãs havia mais mortos a bordo, que eram atirados borda fora 24 horas depois.
No dia 29 ou 30, conta o jornal, a embarcação passa junto de um porta-aviões da NATO. O porta-voz da organização, que está presentemente a coordenar a acção militar na Líbia, disse que não tinha captado pedidos de socorro do barco e não tinha registo do incidente.
Depois de 16 dias, 61 dos ocupantes do navio estavam mortos. Onze chegaram a terra, mas dois morreram pouco depois. Nove sobreviveram para contar a história. “Todas as manhãs acordávamos e encontrávamos mais corpos. Deixávamo-los no barco durante 24 horas, e depois atirávamo-los ao mar”, contou Abu Kurke, um dos sobreviventes. “Nos últimos dias, já não nem sabíamos quem éramos. Todos estavam a rezar, ou a morrer.”
A NATO negou o relato do jornal britânico 'The Guardian'. Segundo a Reuters, a porta-voz da organização Carmen Romero refutou as acusações, referindo que apenas "um único porta-aviões, o navio italiano Garibaldi, estava sob o comando da NATO naquela altura, operava a cem milhas náuticas (cerca de 180 quilómetros) e não localizou nada. Portanto, quaisquer alegações de que um porta-aviões da NATO tenha visto e ignorado a embarcação em perigo estão erradas".
Também a França desmentiu que o seu porta-aviões 'Charles de Gaulle' tenha estado envolvido no incidente grave divulgado pelo jornal britânico, avança a Reuters.
“Governo português deve pronunciar-se na assunção das suas responsabilidades”
A Solidariedade Imigrante – Associação para a defesa dos direitos dos imigrantes, pronunciou publicamente a sua indignação “por mais este crime hediondo cometido pela NATO”.
“Numa perspectiva que é tributária da Convenção de Varsóvia sobre a protecção a dar
a estes homens e mulheres e que Portugal é subscritor, é preconizada a protecção do
estrangeiro enquanto vitima de uma crime grave de violação dos direitos humanos que é o caso destes migrantes que procuram a vida”, argumenta a organização.
Face à gravidade da situação, a SOLIM exige que o Governo Português e o Sr. Primeiro Ministro se pronunciem sobre o acontecido, uma vez que Portugal é membro efectivo da NATO.