No Reino Unido, dois motoristas da Uber avançaram em tribunal com um pedido para aceder aos dados que a gigante tecnológica recolhe sobre aqueles que trabalham através das suas aplicações. Os trabalhadores, que embora sejam o rosto da Uber são teoricamente trabalhadores por conta própria, querem que a empresa mostre os dados que são recolhido através da Uber e Uber Eats, que se explique para que fins os utilizam e, sobretudo, que se perceba de que modo estes moldam as tomadas de decisão que têm impacto direto nos seus trabalhos.
O processo está a avançar com o auxílio da App Drivers and Couriers Union (ADCU), um sindicato do Reino Unido para trabalhadores que exercem os seus trabalhos através de aplicações móveis. Para o sindicato, citado pelo jornal Guardian, a garantia de transparência é fundamental para se saber se todos os trabalhadores têm tratamento igual ou se é exercido algum tipo de discriminação.
Permitirá também que “os trabalhadores se organizem e obtenham maior poder de negociação em relação aos termos do seu trabalho e remuneração, algo que é atualmente impossível”, explica o jornal.
“Isto é sobre distribuição de poder”, disse ao Guardian Anton Ekker, advogado dos motoristas. “É sobre o controlo que a Uber exerce sobre os dados, as tomadas de decisão automáticas e o impedimento de acesso a esses mesmos dados”.
“A aplicação decide milhões de vezes por dia quem irá obter qual viagem: quem consegue os melhores trajetos, quem fica com os trajetos mais curtos”, explicou. O advogado afirma também que isto “não é só sobre a Uber”.
“O problema está em todo o lado. Os algoritmos e os dados permitem um grande controlo, mas as pessoas que a eles estão sujeitas muitas vezes não têm essa consciência”. Os trabalhadores querem saber o que é que a Uber faz com os seus dados e como isso impacta o seu trabalho e a sua avaliação.
Esta semana é também marcada pelas alegações em tribunal da Uber no processo avançado por Yaseen Aslam e James Farrar, ex-condutores da Uber e fundadores do sindicato ADCU, que alegam que, pelas características do seu trabalho, deveriam ter sido tratados enquanto trabalhadores da gigante tecnológica e não como trabalhadores independentes, acedendo assim a direitos laborais como a garantia de um salário mínimo e férias pagas.
Entre os anos de 2016 e 2019, o número de pessoas que trabalham pelo menos uma vez por semana em plataformas online, das quais a Uber é o exemplo mais conhecido, aumentou para quase 10% da população adulta do país. Ainda segundo o sindicato, o confinamento criado pela pandemia de coronavirus causou um enorme aumento nas compras online, tendo surgido mais 6 mil trabalhos independentes nesse período.