Manuel Graça nasceu em 1953, em Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro, filho de operários da indústria vidreira. Perante as necessidades económicas e o despedimento do pai, começou a trabalhar com 10 anos de idade, numa fábrica de calçado. Por volta dos 17 anos começou a participar em atividades culturais, especialmente na associação ARCA, dedicando-se ao cinema e à poesia; foi aqui que conheceu alguma literatura conotada com a oposição ao regime fascista de então. Desde essa época familiarizou-se com ativistas de esquerda e pertenceu ao núcleo local da Liga Comunista Internacionalista. Cumpriu o serviço militar em 1974-75 na região de Lisboa e no movimento dos Soldados Unidos Vencerão. Enquanto membro do Movimento das Forças Armadas, teve um papel ativo junto do movimento associativo, experiência que o marcou profundamente na sua atividade sindical. Em 1976 regressa ao trabalho no calçado e desde finais dos anos 70 integrou a direcção do Sindicato do Calçado do distrito de Aveiro.
Na luta prolongada e vitoriosa pelas 40 horas semanais no setor, enfrentou um dos patronatos mais retrógrados do país, chegando a ser internado na sequência de graves agressões cujo autor moral, um industrial da região, acabou por ser condenado em tribunal. Num período marcado pela explosão das falências fraudulentas, em que milhares de trabalhadores eram deixados com salários em atraso e sem descontos pagos à segurança social, dirigiu ocupações e piquetes em empresas, evitando a remoção de equipamentos e matérias-primas no sentido de assegurar o cumprimento dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras. Num setor altamente feminizado, a defesa da condição da mulher e da igualdade salarial foram sempre bandeiras do Sindicato do Calçado.
Membro do Conselho Nacional da CGTP, Manuel Graça foi voz de um sindicalismo crítico e combativo, interveniente nos debates sobre democracia no movimento operário. Em 1995, nas páginas da revista Combate, intervinha na polémica então aberta entre Boaventura de Sousa Santos e Álvaro Cunhal a propósito da renovação e da unidade na luta sindical. Escrevia já então Manuel Graça: "o que está a corroer os sindicatos é a corrupção [a grande fraude da UGT com fundos europeus era ainda recente], a falta de combatividade, a ausência de democracia interna, a falta de autoridade social, o controleirismo partidário e até a luta de cliques. Os sindicatos ou mudam ou morrem, ou representam os trabalhadores em toda sua diversidade ou esgotam-se".
Militante de uma vida inteira, Manuel Graça foi um exemplo de coragem e sensibilidade. Atingido por doença degenerativa, há quase uma década que Manuel Graça se encontrava retirado da intervenção.
Em função das medidas de combate ao Covid-19, as cerimónias fúnebres são reservadas à família de Manuel Graça.
O sociólogo Elísio Estanque, autor do livro "Entre a Fábrica e a Comunidade - subjetividades e práticas de classe no operariado do calçado" (Afrontamento, 2002) publicou em 2008 uma longa entrevista de vida com Manuel Graça, incluída no livro "As Vozes do Mundo" (Afrontamento, 2008). Dessa entrevista publicamos um excerto:
P - Mas, apesar de tudo, não é um bocado frustrante, para quem acredita que é possível uma intervenção sistemática e contínua para chegar à consciencialização dos trabalhadores, e verificares, ao fim de uma série de anos, que ainda há poucos sinais dessa consciencialização? Quais são os desafios e problemas actuais?
Manuel Graça - Para mim não é frustrante! Eu vou explicar: primeiro por uma questão de concepção que eu tenho de desenvolver o sindicalismo, a luta nos movimentos sociais, enfim a luta política. Quando há decisões de lutas, para avançar ou para recuar, muitas vezes há a decisão de convocar uma luta e ela a seguir nem sequer se realiza, não é? Por motivos diversos, ou porque a empresa se mobilizou e deu mais dinheiro a um grupo e menos a outro, dividir para reinar, não é? Eu entendo isso de uma forma crítica, para que esta mensagem passe para as outras pessoas. Porque as empresas têm as suas estratégias de prémios, de promoção de encarregados, de repressão brutal, de criação de pequenas empresas a beneficiar toda a gente, as pessoas deixam-se convencer a isso. Portanto, isso é normal. E nós estamos num ciclo de recessão política, mas ao mesmo tempo estamos a reiniciar um novo ciclo de debates, de projectos para o movimento operário.
Estes problemas são a nível mundial e não de uma região ou sindicato. Nós não vivemos num oásis, estamos a sofrer as consequências desse novo ciclo. Agora, como é que nós havemos de resistir? Esta discussão, para quem participou no período do 25 de Abril, em que houve uma grande acumulação de forças nascentes, uma muito grande participação popular com conquistas sociais importantes. Portanto, isso feriu o leão, mas não matou a fera, não é? Ora, essa malta que viveu esse tempo, que teve essa experiência, tem que resistir, tem que tentar resistir a tudo isto, não é? Há repressão, há despedimentos, há aliciamentos por parte do patronato e do poder. São períodos em que a gente tem que discutir esquemas novos para resistir e se reorganizar...
P - Mas então, qual é a tua visão, digamos, em termos de longo prazo, quanto a alternativas ao sistema? O que é que te anima para acreditar que vale a pena continuar a trabalhar, a lutar, a ter paciência, como tu dizias? Como consegues ver, por um lado, uma alternativa ao sistema, e, por outro lado, como é que o teu papel e a actividade desenvolvida pelo sindicato se pode inserir nessa alternativa, nessa estratégia alternativa ao sistema social?
Manuel Graça - Ora bem, não seria a primeira experiência que teríamos ao nível de revoluções. Nada se faz sem haver trabalho permanente de discussão, de organização e de acção, quer ao nível local quer ao nível global, para tentarmos «pôr um pauzinho na engrenagem...», tentar mudar as coisas. Não estou só a falar a nível sindical, mas a nível político, de ONGs ligadas à ecologia, dos direitos das mulheres, das minorias, dos pobres, dos sem abrigo, dos sem tecto, dos sem terra. Portanto, tem que haver uma articulação desses movimentos, que não existe. Porque esses movimentos estão todos destruídos, estão todos desarticulados, quer a nível de Portugal, quer a nível planetário. Quer dizer, nada acontece se não houver um trabalho profundo de mobilização, de organização, de reflexão, para que todos juntos consigamos pôr um «pau na engrenagem», tentar criar movimentos mais fortes e mais poderosos, em Portugal e a nível da Europa e do planeta. Há milhões de pessoas no mundo que estão a agir agora! Estão a agir, como houve agora em França como aquele dirigente dos camponeses [José Bovet], que invadiu o McDonald’s. Aquilo não foi banditismo, aquilo é uma acção contra este sistema de normalização, de globalização, que barra toda a gente, despede toda a gente, põe toda a gente no desemprego, e que é a favor dos grandes grupos económicos, da acumulação brutal das grandes fortunas, não é? Aquela acção despertou simpatias em milhões de pessoas, e agora o que é preciso é articular estas forças em todas as áreas.
P - Mas tu acreditas que a partir deste tipo de exemplos é possível a emergência de um movimento anti-capitalista mundial, é isso?
Manuel Graça - Claro! É preciso que se criem alternativas a este sistema. Se levarmos ao extremo as medidas ecologistas, é evidente que o movimento tem de ser anti-capitalista, no sentido rigoroso do sistema capitalista, que é só pela acumulação, pois eles não têm em vista servir o ser humano. Porque hoje o ser humano, com o conhecimento das tecnologias, como se sabe, está num nível que não era necessário haver tanta pobreza... Só que este sistema está feito para criar essa pobreza e essa riqueza.