A 30 de setembro de 2024 morreu Humberto Ortega, o irmão do presidente Daniel Ortega, no Hospital Militar de Manágua. Estava em condições de prisão domiciliária de facto, incomunicado e completamente isolado, mesmo dos seus familiares mais próximos. Num áudio, enviado através de um telemóvel que ainda possuía às escondidas na sua casa para situações de emergências, declarou que se encontrava em condições de prisioneiro político do regime orteguista. Esta mensagem foi a última declaração conhecida da sua vida.
A 19 de maio de 2024, a casa de Humberto Ortega, foi invadida e ocupada por dezenas de polícias fortemente armados. Humberto foi despojado de todos os meios eletrónicos de comunicação – telemóveis, computadores, televisões e rádios – e impedido de qualquer contato com outras pessoas, o que significava estar numa situação de prisioneiro domiciliário. Também foi privado dos cuidados médicos de que precisava, porque já era um homem de 77 anos e padecia de vários problemas sérios de saúde, entre eles diabetes e insuficiência cardíaca. O casal presidencial Ortega-Murillo comandou este ato de repressão, apenas poucas horas depois da publicação de uma entrevista dada por Humberto e publicada na plataforma eletrónica argentina infobae. Naquela entrevista criticou a política repressiva do governo, pôs em causa as qualidades de liderança da vice-presidente Murillo e manifestou-se a favor de uma negociação com a oposição com o propósito de organizar eleições livres e com observação internacional.
A 11 de junho Humberto foi trasladado para o Hospital Militar e a partir de tal momento não teve mais nenhum contacto com a sua família e morreu a 30 de setembro em total isolamento. O casal presidencial percebeu a mensagem de Humberto, não como iniciativa para alcançar uma reconciliação pacífica para toda a Nicarágua, mas como um inapropriado ataque político contra eles e, em especial, como um insulto inaceitável à vice-presidente Murillo.
Humberto era um dos nove Comandantes da Revolução que dirigiram a Revolução Sandinista (1979 – 1990). Ele era um dos poucos dirigentes históricos ainda vivos da Frente Sandinista de la Liberación Nacional (FSLN) e um dos principais estrategas político e militar deste movimento. Dirigiu a ofensiva final contra o ditador Somoza em 1979, foi o comandante-chefe do exército de Nicarágua entre 1979 e 1995, e também o promotor principal para a ascensão de Daniel Ortega, primeiro na FSLN, depois na Revolução Sandinista. Negociou a entrega do poder depois da derrota eleitoral da Frente em 1990, assegurando a sua continuação como chefe do Exército sob a nova presidente Violeta Barrios de Chamorro. Com a redução do exército depois do fim da guerra civil, aproveitou para tornar-se milionário através da venda das armas que Nicarágua já não precisava. Nos bastidores, Humberto foi sempre o homem forte da FSLN. Daniel somente conseguiu sair realmente da sombra do seu irmão, depois da destituição de Humberto como comandante-chefe do Exército em 1995.
Durante a Revolução Sandinista existia o princípio sacrossanto da Dirección Nacional da Frente de manter a solidariedade com os outros membros da direção sandinista e este princípio foi sempre cumprido naquela altura. Pelo contrário, na última fase da ditadura orteguista ninguém ficou a salvo da perseguição de Daniel Ortega – até à repressão mortal – nem o próprio irmão do opressor.
Como vingança pelas críticas públicas de Humberto, o governo proibiu qualquer atividade pública de luto ou de comemoração, nem um velório que é uma tradição profundamente enraizada na cultura nicaraguense. Foi enterrado no dia 1 de outubro no círculo familiar mais próximo. Daniel Ortega participou no enterro, Rosario Murillo não. Apesar de ter sido um dos dirigentes históricos mais importantes da FSLN, general e comandante-chefe do Exército, ministro de defesa e um dos políticos mais proeminentes da Nicarágua nos últimos 50 anos, foi enterrado sem quaisquer honras militares, estatais ou sandinistas.
Na última proclamação da sua vida, enviada a 9 de junho de 2024 através de um telemóvel escondido à revista eletrónica Confidencial, Humberto Ortega expressou o seu desejo de buscar “el acercamiento, la reconciliación, los acuerdos que sean necesarios para el bienestar y provecho de cada uno de nosotros los nicaragüenses [… para] resolver [los] problemas de guerra, luto y dolor.”
Mas a esta esperança responderam-lhe com medidas repressivas altamente cruéis e desumanas. Humberto Ortega faleceu como prisioneiro político em condições de isolamento e negligência médica total, condições impostas pelo seu irmão, o presidente Daniel Ortega, e pela sua cunhada, a vice-presidente Rosario Murillo. Morreu na sua última luta, a luta pela reconciliação e pela paz na Nicarágua.