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Morreu Chato Galante, combatente anti-franquista

Foi torturado pelo franquismo e dedicou parte da sua vida a lutar pela memória das vítimas do regime. Nas últimas semanas, defendeu um “plano de choque social” face à emergência do coronavírus que acabou por o vitimar.
Chato Galante. Foto de La Comuna.
Chato Galante. Foto de La Comuna.

José María Galante era conhecido por toda a esquerda espanhola como "Chato" Galante. Nasceu em Madrid no ano de 1948. Na sua juventude foi membro do Sindicato Democrático de Estudantes e militante da Liga Comunista Revolucionaria, o que o levou às prisões franquista. Nelas, foi por quatro vezes torturado entre os anos de 1969 e 1973.

Os últimos anos da sua vida passou-os a lutar, entre outras das suas muitas causas, pela defesa da memória história das vítimas deste regime. Foi um dos criadores do espaço La Comuna, através do qual ex-presos políticos fazem ativismo para que não se esqueçam os crimes franquistas.

Chato Galante levou também a luta pela memória à barra dos tribunais. Tornou-se um dos impulsionadores do processo que corre há dez anos na justiça argentina. Há mais de 50 casos a serem avaliados pela juíza María Servini de Cubría ao abrigo do princípio constitucional vigente neste país da “jurisdição universal” para julgar crimes contra a humanidade. Em causa está a existência de um “plano sistemático, generalizado e deliberado” para “aterrorizar os espanhóis partidários da forma representativa de governo” dizem os acusadores que pretendem julgar os responsáveis pelo franquismo por homicídio, homicídio agravado, privação ilegal da liberdade qualificada pela aplicação de torturas e restantes delitos que resultem da investigação cometido em Espanha no período compreendido entre 17 de julho de 1936 e 15 de junho de 1977.

Outra frente de batalha judicial, abriu-a em 2018 com uma queixa, conjunta com o ex-eurodeputado da Esquerda Unida, Willy Meyer, contra Antonio González Pacheco, o infame “Billy el Niño”, um dos principais responsáveis pela tortura na época da ditadura e que na época da transição pós-franquista foi promovido a inspetor do Corpo Superior de Polícia.

O testemunho de denúncia do seu torturador ficou registado no filme “O silêncio dos Outros” de Almudena Carracedo e Robert Bahar, o vencedor do prémio Goya para melhor documentário em 2019. Este pôde ser visto o ano passado no ciclo de cinema Desobedoc, no Porto, com a presença de Chato Galante a apresentar o filme.

Assim descreveu uma das experiência a que foi sujeito nas cadeias franquistas: "algemaram-me as mãos nas costas, começaram a mandar-me com a cabeça contra a borda da mesa, agarrando-me pelo cabelo. Aquilo de que tinha mais medo era de falar. A fórmula para resistir a isso era imaginar-me nessa mesa com os meus amigos, o meu pai e as pessoas de que mais gostava. Não podia desiludi-los. Essa era a forma de tentar aguentar mas ia-se apagando da tua mente e acabavas por descobrir que já estavas nu, que te tinham pendurado, que te batiam nas nádegas, nas plantas dos pés, nos genitais… Não era uma pessoa nem um animal, era uma coisa que estava aí com 22 anos, decidido a aguentar. Por raiva. Verdadeiramente. Não era pelas minhas condições políticas. Por raiva. Porque era um ser humano."

Galante era também um pioneiro da militância ecologista. Desde meados dos anos setenta que animava grupos ecologistas porque “nenhuma transformação social de envergadura notável se pode produzir sem uma modificação das relações de produção e das relações da organização social com a natureza.”

As suas últimas publicações no Twitter, datadas de há pouco mais de uma semana, dedicou-as à defesa do “plano de choque social”, um apelo conjunto de centenas de sindicatos e organizações anti-racistas, feministas, ecologistas e sociais, para “por a vida, a saúde, os cuidados e a classe trabalhadora no centro e não os benefícios das grandes empresas”.

Os direitos dos trabalhadores das limpezas, das pessoas sem tecto, das pessoas que trabalham com elas e que não estavam a ter acesso a proteção, todos os despedidos e gente que viu “decair a pique o seu rendimentos”, não foram esquecidos.

 

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