Faleceu esta segunda-feira o ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi aos 86 anos, num hospital de Milão onde já tinha passado várias semanas de internamento hospitalar devido a uma infeção pulmonar. Berlusconi tinha sido diagnosticado com uma leucemia.
Chefe do governo por três vezes entre 1994 e 2011, vencendo nesse período alternadamente as eleições, foi o centro da política italiana nesses 17 anos, sendo considerado o primeiro dos populistas que lhe sucederam dentro e fora de fronteiras e também o responsável por dar a mão aos partidos pós-fascistas e integrá-los no governo.
Nascido em Milão em 1936, fez fortuna no imobiliário antes de se lançar nos negócios dos media, fundando o grupo Mediaset e adquirindo o clube de futebol AC Milan. O seu canal de televisão, por entre anúncios e dançarinas seminuas, "ajudou a formar uma opinião pública pouco informada e muito instintiva que em seguida se tornaria no núcleo duro do seu eleitorado", lembra Mario Portanova no seu obituário no Il Fatto Quotidiano.
Apoiado nos seus media e no partido que fundou à sua imagem, a Forza Italia, aproveitou o vazio político deixado pela implosão do sistema partidário corrupto para se tornar o primeiro chefe de governo de Itália que não tinha antes ocupado nenhum cargo no executivo. Em 2012, um ano depois de ter sido forçado a demitir-se daquele que viria a ser o seu último mandato, foi condenado por fraude fiscal e viu a proibição de se candidatar a cargos públicos levantada em 2018, a tempo de ser eleito eurodeputado no ano seguinte e integrar a coligação de direita com Salvini e Meloni.
Foi implicado em inúmeros casos de corrupção, evasão fiscal e outros crimes, incluindo relacionados com a máfia e os italianos acompanharam durante anos as suas habilidosas tentativas para escapar às acusações e condenações, arrastando os processos até à prescrição apoiando-se em mil e uma artimanhas jurídicas, incluindo fazer leis para lhe permitir escapar às malhas da justiça.
Envolvido em escândalos financeiros mas também sexuais, com a revelação das suas "festas bunga bunga" envolvendo prostituição de menores, afastado do governo e também do Senado em 2013, nunca desistiu de continuar no centro das atenções políticas, apesar de quase todos os seus homens de confiança acabaram acusados em tribunal e na prisão.
Na última eleição que disputou conseguiu superar as expetativas das sondagens e ajudar à maioria que colocou Meloni no cargo de primeira-ministra. A sua última polémica foram as declarações elogiosas para Vladimir Putin que caíram mal junto da chefe do governo. Ao contrário de Salvini, Meloni tem seguido uma linha pró-ucraniana ao longo do conflito que se seguiu à invasão russa. O presidente russo foi dos primeiros a transmitir as suas condolências, dizendo que "para mim, Silvio era uma pessoa querida, um verdadeiro amigo".