O jornal Correio da Manhã noticia esta sexta-feira que Luís Montenegro foi inaugurar enquanto primeiro-ministro um hotel em Vila do Conde que pertence ao dono da Beetsteel, uma das empresas clientes da Spinumviva, a empresa criada por Luís Montenegro quando deixou a sua sociedade de advogados. A inauguração ocorreu em junho de 2024, dois meses após a posse do primeiro-ministro, que descerrou uma placa com o seu nome evocativa do momento e em seguida discursou para a plateia de convidados. O dono do hotel e da Beetsteel é o empreiteiro de Braga Domingos Correia, irmão do empresário Custódio Correia, um dos detidos na operação policial que investigava suspeitas de corrupção em adjudicações e contratos púbicos na Madeira.
A Beetsteel é uma das empresas que Luís Montenegro acrescentou agora ao seu registo de interesses e cujos nomes foram revelados pelo jornal Expresso. Segundo o semanário, o primeiro-ministro terá recebido a notificação da Entidade para a Transparência no final de março para atualizar o seu registo de interesses com os nomes dos clientes da Spinumviva, mas resolveu esperar pelo último dia do prazo para o fazer, confiando que entre a data de entrega e a publicação no site da Entidade para a Transparência decorram pelo menos quinze dias. A entrega seria feita também após o debate televisivo mais aguardado, com o líder do PS. Mas o plano foi gorado pelo apagão, que adiou o debate para depois do prazo de entrega expirar.
No próprio debate com Pedro Nuno Santos, Montenegro mostrou-se agastado com a divulgação da lista que previa ser publicada no site da Entidade para a Transparência após as eleições ou, no limite, na reta final da campanha. Aos jornalistas esta quinta-feira, após cantar em dueto com Tony Carreira, artista contratado para animar o “1º de Maio em família” nos jardins da residência oficial, Montenegro repetiu que entregou contrariado a lista de clientes à Entidade da Transparência, por achar que não tinha de o fazer. Essa lista tinha também sido pedida pelo Bloco de Esquerda na carta enviada ao primeiro-ministro antes da queda do Governo, numa das perguntas que Montenegro deixou sem resposta.
Deputado do PSD quer polícia a investigar fontes de jornalistas, Sindicato denuncia ameaça à liberdade de imprensa
Em reação à divulgação da lista de clientes pelo semanário Expresso, o PSD procurou desviar o foco das atenções para os autores dessa divulgação, com o deputado Hugo Carneiro a sugerir que a polícia apreenda os telemóveis de deputados que tiveram acesso ao documento na Assembleia da República para descobrirem se contactaram com jornalistas. Dois dos visados foram o socialista Pedro Delgado Alves e o bloquista Fabian Figueiredo, que no Parlamento integram o Grupo de Trabalho do Registo de Interesses, mas ambos negaram ter informado a imprensa sobre a lista de clientes que a Entidade para a Transparência entende que Montenegro devia ter entregue assim que tomou posse do cargo de primeiro-ministro.
Em comunicado, o Sindicato dos Jornalistas condenou as declarações de Hugo Carneiro, considerando-as “uma tentativa clara de pressão que ameaça a liberdade de imprensa”. E lembra o deputado que a lei em vigor consagra o sigilo das fontes de jornalistas ao cobrir temas de inegável interesse público. “Atacar as funções dos jornalistas é indigno de um representante político”, aponta o sindicato.
Dos sete novos clientes da Spinumviva agora conhecidos, seis tiveram ou ainda têm contratos com o Estado que somam 278 milhões de euros desde a criação da empresa de Montenegro em janeiro de 2021. O primeiro-ministro diz nada ter a ver com esses contratos e que os valores pagos por essas empresas à Spinumviva foram em troca de “serviços muito limitados, foram dois ou três milhares de euros.”