Miloš Zeman reeleito presidente da República Checa

29 de janeiro 2018 - 10:21

O populista Miloš Zeman foi ontem reeleito presidente da República Checa, ao bater, na 2ª volta, o liberal Jiří Drahoš. O atual chefe de Estado obteve 51,4% contra 48,6% do seu opositor. Por Jorge Martins.

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Foto Miloslav Hamřík, Wikimedia.

O candidato vencedor é líder do SPO (Partido dos Direitos Cívicos) foi, nos anos 90, líder dos social-democratas (ČSSD) e primeiro-ministro entre 1998 e 2002. Entretanto, abandonou o partido e criou a sua atual formação em 2010. Adotou, desde então, uma retórica populista, anti-imigração e islamofóbica. Simultaneamente, tornou-se crítico da UE e defensor de uma aproximação à Rússia. É um admirador de Trump e Putin e dos governos autoritários da Hungria e da Polónia.

Nas atuais eleições, foi apoiado pelo partido da extrema-direita SPD, de Tomio Okamura, e pelo ANO 2011, formação política do primeiro-ministro, Andrej Babiš, centrista populista.

Na 1ª volta, foi o mais votado de entre os nove candidatos, obtendo 38,6% dos votos. Para a ronda decisiva, recebeu o apoio de dois dos seus concorrentes: Jiří Hynek, do partido nacional-conservador Realisté, e de Petr Hannig, apoiado por várias pequenas formações da direita radical e da extrema-direita. Acabou por beneficiar, igualmente, do apoio não oficial do partido comunista (KSČM) e de uma fação dos social-democratas (ČSSD), entre os quais o respetivo presidente, Milan Chovanec.

Por seu turno, Drahoš, químico e professor universitário, presidente da Academia Checa das Ciências, é favorável a uma maior aproximação ao Ocidente. Porém, embora seja abertamente pró-UE, não defende a adesão do país ao euro. Embora se oponha à islamofobia e ao populismo anti-imigrantes, rejeita a imposição, por Bruxelas de quotas obrigatórias de refugiados aos Estados membros.

Teve, no 1º turno, o apoio dos democrata-cristãos do KDU–ČSL, dos municipalistas liberal-conservadores do STAN e da ala juvenil dos social-democratas.

Ao obter 26,6% dos votos no turno inicial, foi o segundo mais votado. Na 2ª volta, garantiu o suporte de cinco dos seus concorrentes do 1º turno: os independentes Pavel Fischer (centro-direita), Michal Horáček (centro-esquerda), Marek Hilšer (esquerda, com o apoio da maioria dos aderentes dos Piratas), Mirek Topolánek (ex-primeiro ministro, apoiado pelos eurocéticos conservadores do ODS e de outros pequenos partidos da mesma área política) e Vratislav Kulhánek.(do ODA, pequeno partido liberal-conservador pró-UE). Contou, ainda, com o apoio oficial do ODS, dos conservadores pró-UE do TOP 09 (que se dividira entre Fischer e Topolánek na ronda inicial) e dos Verdes, que se opunham à reeleição de Zeman.

Geograficamente, se, na 1ª volta, Drahoš apenas venceu na região de Praga, na segunda, Zeman venceu em 10 regiões, enquanto o seu opositor triunfou em quatro: as do centro da Boémia (além da capital, a Boémia Central, a de Liberec e a de Hradec Králové), mais desenvolvidas. Obteve, ainda, um apoio esmagador na emigração, onde conseguiu mais de 90% dos votos. Em contrapartida, o candidato vencedor impôs-se na Boémia Ocidental e Oriental e na Morávia, a leste, mais desfavorecidas. A outra escala, Drahoš teve as suas maiores votações nas áreas urbanas e Zeman nas rurais.

Como se pode ver pelos apoios de ambos os candidatos, mais que a tradicional divisão direita-esquerda, a grande clivagem esteve entre os defensores de uma posição mais nacionalista, favorável a uma maior aproximação à Rússia e aos países vizinhos do chamado “grupo de Visegrado” e oposta ao acolhimento de um maior número de imigrantes e refugiados, e os adeptos de uma agenda mais liberal, essencialmente alinhada com o Ocidente e mais aberta na questão da imigração. A primeira foi apoiada, essencialmente, pelos eleitores mais pobres e mais idosos da Boémia e da Morávia profundas. A segunda suscitou a adesão das elites urbanas e dos eleitores mais cosmopolitas.

Porém, do ponto de vista da esquerda, nenhum deles era opção válida.

Apesar de os poderes do presidente checo serem relativamente reduzidos, a atual conjuntura política do país tornou esta eleição importante, já que o primeiro-ministro Andrej Babiš viu, recentemente, o programa do seu governo minoritário rejeitado pelo Parlamento. Este, um empresário multimilionário, dono de um conglomerado que começou no setor agroflorestal, mas se expandiu a outras áreas da economia e de um grupo mediático associado, fundou, em 2011, o seu partido ANO (iniciais de Ação dos Cidadãos Insatisfeitos e acrónimo de “sim” na língua checa), supostamente para lutar contra a corrupção e a má gestão governativa. Em 2013, foi ministro das Finanças no governo de coligação entre os social-democratas e a sua formação política. Porém, dois anos depois, começou a ser investigado por desvio de fundos europeus, através de uma empresa fictícia, acabando por demitir-se em maio de 2017. Contudo, nas eleições de outubro o seu partido foi o mais votado, obtendo quase 30% dos votos, que lhe garantiram 78 dos 200 lugares parlamentares. O problema é que, devido ao escândalo onde está envolvido, não encontra aliados no Parlamento.

A reeleição de Zeman deu-lhe um tónico suplementar, já que, em troca do apoio do ANO 2011, aquele lhe prometeu que voltaria a indigitá-lo para formar um novo governo. Para o efeito, o chefe de Estado vai procurar que social-democratas e comunistas, cujos líderes o apoiaram na 2ª volta, ou se coliguem com Babiš ou lhe garantam apoio parlamentar. Resta saber qual a posição destes, sabendo-se que, pelo menos os primeiros, se encontram bastante divididos sobre a posição a tomar.