Milan Kundera (1929-2023)

12 de julho 2023 - 19:25

O autor de Insustentável Leveza do Ser tinha origem checa mas estava há muito naturalizado francês, país onde vivia depois de se exilar na sequência da Primavera de Praga. Tinha 94 anos.

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Milan Kundera em 1980. Foto de Elisa Cabot.
Milan Kundera em 1980. Foto de Elisa Cabot.

Milan Kundera morreu na terça-feira mas a notícia só foi avançada esta quarta pela família e pela sua editora, a Gallimard. Tinha 94 anos e era uma das figuras mais conhecidas da literatura ocidental, nomeadamente pelo seu romance A Insustentável Leveza do Ser.

O escritor nasceu a 1 de abril de 1929 em Brnö na Checoslováquia numa família dedicada à música. Foi esta área que começou por estudar muito cedo, depois virou-se para a literatura e estética e acabou por se tornar professor de História do Cinema na Academia de Música e Arte Dramática e no Instituto de Estudos Cinematográficos do seu país de origem.

Tendo pertencido ao Partido Comunista na sua juventude, foi dele expulso por duas vezes. Das suas obras completas, publicadas pela Gallimard, não constam os escritos desta época por sua decisão.

Em 1967, publicou o seu primeiro romance, A Brincadeira, que ganhou o prémio da União de Escritores da Checoslováquia e já tinha um tom crítico ao regime, contando uma história de amor na qual um estudante terá de pagar o preço de, para impressionar uma rapariga, ter escrito umas linhas onde constava o nome de Trotsky.

No ano seguinte, aconteceu a invasão do país pelas tropas do Pacto de Varsóvia, encabeçadas pela União Soviética. O livro foi proibido, Kundera foi expulso da instituição onde ensinava e acabou por se exilar em França. Quatro anos mais tarde, foi-lhe retirada a nacionalidade do seu país, que só em 2019 será oficialmente devolvida. Em 1981, foi-lhe atribuída a naturalidade francesa. Na apresentação biográfica dos seus livros, insistia que constasse apenas “nasceu na Checoslováquia. Em 1975 instalou-se em França”. Já este ano, ele e a sua mulher doaram o seu espólio à biblioteca nacional situada na sua cidade natal.

O escritor é reconhecido internacionalmente por A Insustentável Leveza do Ser, já escrito naquele país e publicado em 1984, onde os amores se desenrolam sob o pano de fundo da Primavera de Praga e que foi adaptado para o cinema logo a seguir. Mas escreveu muitos mais livros, entre os quais Livro dos Amores Risíveis (1969), A Vida Não é Daqui (1973), A Valsa do Adeus (1976), O Livro do Riso e do Esquecimento (1979), A Arte do Romance (1986), A Imortalidade (1990), Os Testamentos Traídos (1992), A Ignorância (2000) e a A Festa da Insignificância (2014).

Apresentado a ocidente como o protótipo do “escritor dissidente” antes da queda do muro de Berlim, o El País lembra uma entrevista com ele, de 1982, em que dizia: “Não me sinto confortável no papel do dissidente. Não gosto de reduzir a literatura e a arte a uma leitura política. A palavra “dissidente” significa assumir uma literatura de tese, e se há algo que eu odeio é isso. O que me interessa é o valor estético. Para mim, literatura pró-comunista ou anti-comunista é, nesse sentido, a mesma coisa. É por isso que não gosto de me ver como um dissidente.” Em “A Arte do Romance” imagina até um diálogo consigo próprio que vai no mesmo sentido e em que conclui não ser “de esquerda nem de direita” mas “um romancista”.

As suas armas eram a ironia e o sarcasmo, palavras também repetidas em muitos dos seus obituários. O escritor não dava entrevistas desde meados dos anos 1980.

Já neste século, em 2008, a revista checa Respekt publicou um documento atribuído à polícia no qual se revelaria que, em 1950, quando era delegado de uma residência estudantil em Praga, teria denunciado Miroslav Dvoracek, um dissidente do regime, que acabou por ser preso e condenado a 22 anos de prisão. Kundera fez os seus representantes exigirem um pedido de desculpas ao órgão de comunicação e vários escritores uniram-se em torno de um manifesto que denunciava “uma campanha orquestrada de calúnia”. E rompeu brevemente o silêncio que se tinha imposto na relação com os meios de comunicação social declarando à agência noticiosa Checa CTK: estou totalmente espantado por algo que não esperava, acerca do qual não sabia nada até ontem e que não aconteceu. Não conhecia sequer o homem.”

No ano seguinte, foi uma assinatura sua num outro documento a criar polémica. Milan Kundera assinou uma petição em defesa de Roman Polanski quando este foi acusado de violação de uma rapariga de 13 anos.

O Público lembra ainda outra acusação que pairou sobre o autor, a de misogenia, recorrendo a uma citação de Joan Smith ​no livro Misogynies: Reflections on Myths and Malice: “a hostilidade é o fator comum em toda a escrita de Kundera sobre mulheres”. O New York Times matiza esta análise referindo que “outros críticos consideravam que expor o comportamento horrível dos homens era pelo menos parte da intenção” de Kundera”​ mas que “ainda assim, mesmo as mulheres mais fortes nos seus livros de Kundera tendiam a ser objetificadas.”